É algo que acaba se perdendo na tradução para o português, mas a palavra “traduzir”, em inglês – “translate” –, pertence ao universo de vocábulos derivados do radical “trans-”. Transcrever, transcender, transfigurar, transformar, transgredir, transitar, transluzir, transferir, transmitir, transportar, transpor, transmutar, transicionar, transmigrar: são estes os verbos estampados nos bancos que serpenteiam Lugar Público, projeto de ocupação do espaço do Sesc Pompeia concebido por Antoni Muntadas.
Essa expansão lexical do artista catalão faz lembrar a introdução de Julio Cortázar ao seu 62: modelo para armar, onde o escritor nos diz que “no terreno em que se desenvolve esta narrativa, a transgressão deixa de o ser; o prefixo se soma a vários outros que giram em torno da raíz gressio – do latim ‘dar um passo’ –: agressão, regressão e progressão também são inerentes às intenções esboçadas.”1
Nestes tempos de reações automatizadas, atenção pulverizada, narrativas dispersas e uma cada vez mais confusa compreensão do que seria um espaço para todos – em oposição a um espaço para ninguém –, o projeto de Muntadas é sem dúvidas um projeto transgressor, uma vez que convida a uma contemplação ativa e à reivindicação de uma presença não baseada em preceitos práticos. Integrado à arena vislumbrada por Lina Bo Bardi a partir da estrutura de uma velha fábrica alemã de tambores, é a continuidade da construção de um lugar propício ao encontro, ao acaso e às surpresas.
Para além dos bancos adesivados com verbos – e não consigo deixar de pensar na ironia de se aplicar um comando de ação sobre um objeto criado para o repouso –, ainda compõem Lugar Público outros elementos. A iluminação azul, o fluir deslocado dos sons de uma megalópole como São Paulo, cartazes de exposições e exemplares de publicações de Muntadas, um enorme tapete onde se lê e se pisa sobre a frase “vida é edição”, totens que de um lado nos confrontam com imagens de multidões em situações diversas e, do outro, com perguntas que, como diz Paula Alzugaray no texto Editar o Espaço Público, “são como fragmentos de conversas que acidentalmente ouvimos quando estamos em trânsito em espaços de alta circulação pública” e, coroando tudo, um luminoso vermelho que alerta “Atenção: percepção requer envolvimento.”
Olhando em retrospecto, percebo que a primeira pergunta que o espaço me faz – “cadê você?” – tem tudo a ver com o verbo que dá nome a essa vértebra. Traduzir, de algum modo, sempre me pareceu um exercício de indeterminação. A arte de fazer surgir na tradução as pulsões do original requer uma atenção fina ao silêncio e a capacidade de modular as perdas nos trânsitos entre línguas, manejá-las de formas a acender, por meio das ausências, o mais importante de cada texto. Uma maneira, portanto, de localizar.
POESIA EM MOVIMENTO
“Poesia é aquilo que se perde nas traduções”, diz Robert Frost. “Só me interesso em traduzir justamente o intraduzível”, rebate Haroldo de Campos. Os dois de pé ao lado do espelho d’água do Pompeia, sob um luminoso de Muntadas. Para onde vamos? E seguimos.
O seminal Tradução, Ato Desmedido, publicado por Boris Schnaiderman na coleção Debates da Editora Perspectiva, em 2011, é um verdadeiro tratado sobre a prática e um documento indispensável para qualquer um que queira se lançar ao exercício da tradução ou refletir sobre os caminhos que levam um livro a poder ser lido em diferentes partes do mundo. No subcapítulo “Um tarefeiro imprudente?”, são rememorados os diálogos entre Jorge Luis Borges e Ernesto Sabato em que este brinca dizendo que é preferível que um grande autor seja traduzido por um escritor médio, desajeitado e impessoal a um tradutor escolado, o que Schnaiderman interpreta como uma postura cética e blasé: “Nossa atitude tem que ser o oposto disso, devemos afirmar sempre a nossa exigência máxima em relação ao trabalho do tradutor como criador e artista, nunca um simples cumpridor de tarefas.”2
Na primeira vértebra publicada nesta revista celeste, abri o texto falando sobre Livros Pequenos (2020), de Tamara Kamenszain. Em um exercício metalinguístico, a poeta e crítica literária argentina inicia a obra com um ensaio sobre sua tradutora para o português, Paloma Vidal, isto é, a pessoa que traduziu o livro que estamos lendo. Diz ela: “Se Vidal é capaz de se fantasiar de mim para escrever de novo o que eu já escrevera, mas em outra língua, certamente tem também a curiosidade de ler os livros que eu leio. Por minha vez, atada a esse movimento de idas e vindas pelo ar entre São Paulo e Buenos Aires, eu precisei ler o que Paloma escreveu e traduzir aqui algo disso de forma breve e urgente, como um modo de dar a partida ao meu próprio livro encomendado. Parece sempre haver uma cadeia de livros que impulsionam a escrita de outros […] e parece que ler é tão dinâmico assim quando o que provoca é uma trama de escritas.”3
O carinho que Kamenszain deposita sobre Vidal ecoa o que diz Olga Tokarczuk sobre como a presença dos tradutores de seus livros, em mesas de debates pelo mundo, a faz se sentir acompanhada e oferece a possibilidade de dividir a responsabilidade da escrita com alguém: “Os tradutores livram a nós, pessoas que escrevem, da profunda solidão inerente à nossa profissão, em que passamos horas, dias, meses, ou até anos inteiros no universo dos nossos pensamentos, diálogos internos e visões. Os tradutores vêm de fora e dizem: eu também estive aí, segui suas pegadas, e agora vamos juntos atravessar a fronteira. Neste caso, o tradutor literalmente se torna um Hermes, segurando-me pela mão e permitindo transpor a fronteira de um país, uma língua, uma cultura.”4
A figura de Hermes aparece ainda em outro texto famoso sobre produção literária, na parte das Seis Propostas para o Próximo Milênio que Calvino dedica à velocidade, termo que, em se tratando de escrita, remonta imediatamente à noção de ritmo. Talvez por isso sejam reincidentes tradutores que, para além do trabalho ao qual estão designados, são também poetas. É o caso de Paloma Vidal.
CADÊ VOCÊ?
O título do novo livro de Paloma Vidal parece uma resposta à pergunta de Muntadas. Publicado em 2024 pela carioca 7letras, Lugares Onde Eu Não Estou reúne os quatro livros anteriores da autora – Durante, Dois, Menini e Wyoming –, conta com o acréscimo de dois inéditos, Dublês e Arranjos, e, a grosso modo, é uma reunião dos poemas anotados em seu blog Escritos Geográficos.
Talvez pela sua condição de estrangeira – Vidal nasceu na Argentina em 1975 e vive no Brasil desde os dois anos de idade –, talvez pela sua condição de tradutora profícua – além dos livros de Kamenszain, é responsável por converter ao português a obra de sujeitos como Benjamín Labatut, sem falar de suas traduções de Clarice Lispector para o espanhol –, o fato é que os lugares liminares e a indeterminação espacial são fundamentais na formulação de sua poética. Em trecho do poema publicado no blog em 11 de maio de 2023, essa tensão aparece revestida por uma sensação íntima de incerteza: “escrever mesmo assim/ mas se não fizer/ mais sentido/ então para que/ tantas letras/ em tantos lugares/ como este/ onde talvez/ não consiga/ mais estar/ algum dia/ conseguirei traduzir/ “el corazón/ del daño”?/ conseguirei traduzir/ “se vive / y se traduce”?/ os dois falam/ do luto e eu/ começo/ a calcular páginas/ para em todo caso/ cobrir os dias/ com palavras/ que não são minhas.”
Se, para Muntadas, viver é editar, cabe dizer que para Vidal viver é traduzir e que seus poemas se parecem com um ensaio sobre esse ato e sua presença no cotidiano: “acordei cedo pra traduzir/ o livro das moças da tamara/ e eis que não sei se em português/ a sentença de divórcio/ é a sentencia de divorcio.” Frases do original evocam experiências pessoais de quem o traduz, e é por este caminho que a tradução se torna também uma espécie de “lugar público”, onde o tempo todo estão em negociação numerosas experiências e formas de compreensão sobre si e o espaço compartilhado.
Assim, o livro – como qualquer avenida de qualquer grande cidade – é composto por encruzilhadas, disputas, vozes, pela experiência do anonimato e a tentativa de delicadeza e perplexidade em um mundo que, por mais embrutecedor que pareça, continua sendo o único lugar onde podemos, entre um compromisso e outro, cruzar olhares com alguém. E nos surpreender.
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Saio do espaço de convivência do Sesc Pompeia refletindo sobre como a decisão de Muntadas de adesivar os bancos com verbos se relaciona com essas vértebras, em que a cada mês parto de um verbo para me lançar em reflexões sobre leituras. Penso que, apesar da distância geográfica e geracional, somos, de algum modo, correspondentes. Ou, que seja, dois transistores que, durante um instante breve, captaram um mesmo sinal vindo da atmosfera. Piso firme sobre o chão de paralelepípedos que tanto deve ter encantado Bo Bardi e, antes de ir para casa, lembro de um último poema de Vidal, chamado “pós-luto”: “sempre comprar cadernos pequenos/ nunca tirar cadernos completos de casa/ pensar bem ao tirar um caderno de casa/ pensar bem ao tirar qualquer coisa de casa/ sempre olhar para trás ao sair de algum lugar.”
Obedecendo a tradutora, dou uma boa olhada para trás antes de ir embora.
1 Julio Cortázar, 62: Modelo para Armar, trad. Glória Rodríguez. Rio de Janeiro, Editora Civilização Brasileira, 1975
2 Boris Schnaiderman, Tradução, Ato Desmedido. São Paulo, Perspectiva, 2011
3 Tamara Kamenszain, Livros Pequenos, trad. Paloma Vidal. Rio de Janeiro, Papéis Selvagens Edições, 2021
4 Olga Tokarczuk, Escrever é Muito Perigoso, trad. Gabriel Borowski. São Paulo, Todavia, 2023