A 36ª Bienal de São Paulo parte do poema Da Calma e do Silêncio, de Dona Conceição Evaristo, para nomear-se. A escritora, pensadora e poetisa de Minas Gerais cunha o termo escrevivência – destacando a “potência de emissão” de mulheres negras sobre corpos diversos, estando elas entre ou além da agência e submissão – elabora uma força viandante/passante oriunda de “mundos submersos” penetrados e percebidos pela poesia. Perceber-se talvez seja um dos atos mais importantes dessa Bienal.
O perceber-se comparece no texto curatorial de Bonaventure Soh Bejeng Ndikung, que começa assim: “O conceito da 36ª Bienal de São Paulo é uma proposta para pensar, ouvir, ver, sentir, perceber o mundo do ponto de vista do Brasil”. Em seguida, explicita o que seria conjugar a humanidade como verbo: “Aprender a ouvir o mundo, (…) ouvir a miríade de seres que compõem nossos estuários”. O estuário aqui serve como referência ao ambiente ou cultura de produção mais de expansão do que de aprofundamento – esse último sendo uma busca por verdade, sentido e razões distantes e distanciadoras. A diferença entre ambos é ensaiada magistralmente por Edouard Glissant, segundo quem a expansão significa reconhecer a sensibilidade do que está à sua volta. “Vibrar com o vibrar do mundo”, diz Glissant citando Aimé Césaire.
Nesse sentido, a proposta curatorial de eleger o estuário como metáfora vagueia com algum contraste entre uma ode às humanidades e ao reconhecimento da importância de outros seres que interferem na vida humana. Menos interessa à proposta a inexata interseção. Há um pós-humanismo na Bienal. A contradição natural à qual me refiro é resultado justamente desse deslocamento, vencendo um racionalismo, acertando e apontando lógicas que se contrariam, repelem, aproximam e naturalmente coexistem, realizando-se mutuamente.
O cocurador da bienal 36, Thiago de Paula Souza, no texto Paisagens Temporárias, que integra a coletânea de textos de referência, discorre sobre “relacionalidade constitutiva” (descrita por Kandice Chuh), e a síntese sonora, cultural e química como “elemento relacional entre seres humanos, aparelhos eletrônicos e outros organismos vivos”. A cocuradora geral Keyna Eleison no texto Palavras Juntas São Melodia, presente na mesma coletânea, afirma que “escutar é um risco. Porque, quando escutamos de verdade, algo em nós precisa mudar”. Nas palavras da também cocuradora Anna Roberta Goetz, no texto Caminhando Juntos – Notas Sobre a Solidariedade Para Além da Empatia, na língua indígena mexicana otomi, a palavra “irmão” não é utilizada como substantivo, mas como verbo. “Isto significa que dizer ‘ele é meu irmão’ é, na verdade, dizer ‘estamos nos irmanando um ao outro’. (…) quando dizemos ‘ele é meu irmão’ em otomi, estamos também dizendo ‘nós caminhamos juntos”. Aqui nos interessa perceber-se como gesto de irmanar-se a uma força vital, rompendo a hierarquia entre cultura e natureza, tão característica da tradição ocidental.
Também no sentido de perceber-se ou comover-se, podemos ler a cocuradora Alya Sebti em Todos Nós Precisamos Sonhar, na qual ela cita a poetisa Audre Lorde: “Os pais brancos nos disseram: penso, logo existo. A mãe negra dentro de cada um de nós — a poeta — murmura nos nossos sonhos: sinto, logo posso ser livre”.
DISTÂNCIA ENTRE DISCURSO E PRÁTICA
Afirmar a humanidade como prática é uma decisão politicamente necessária no contexto de genocídio de palestinos/as em Gaza (tão tardiamente reconhecido pela ONU), de invasão na Ucrânia, de conflitos na República Democrática do Congo, de inúmeras mortes diárias de jovens negros nas periferias do Brasil (tendo a polícia, força do Estado, como principal responsável), de invasão de terras indígenas e autoritarismo praticado pelo declinante império estadunidense, num mundo ameaçado pela relutância do também império europeu aceitar-se derrotado pacificamente. Embora contradições possam estar a cargo da própria menção às humanidades como prática, outras se apontam na distância entre discurso e prática. Retomemos a primeira frase do texto curatorial após o preâmbulo: “O conceito da 36ª Bienal de São Paulo é uma proposta para pensar, ouvir, ver, sentir, perceber o mundo do ponto de vista do Brasil”.
Ao adentrar o Pavilhão Ciccillo Matarazzo, no Parque Ibirapuera, a primeira obra com que o público tem contato é Sun of Consciousness. God Blow Thru Me – Love Break Me [Sol da Consciência. Deus Sopra Através de Mim – O Amor Me Quebra], da artista Precious Okoyomon, estadunidense com ascendência nigeriana. A obra, em tese, propõe mais do que um estado de natureza contra-colonial, e sim um estado poético e uma proposta arquitetônica e civilizatória sem monumentos a agentes/ordeiros do colonialismo (como elaborou Achille Mbembe sobre a necromancia e a geomancia). A obra apresenta um contraste com a “selva de pedra” que é São Paulo e tantas outras cidades que pulsam a morte do verde, azul, do solo etc. Na ficha técnica consta que a instalação é composta por construções em madeira, terra, vegetação do Cerrado, água, neblina artificial e faixa sonora. O texto presente no catálogo, escrito por Billy Fowo, afirma que “Okoyomon, nesta obra comissionada, dirige seu olhar metafórico para o Cerrado e seu ecossistema aparentemente caótico e frágil, traçando paralelos entre um dos maiores biomas do Brasil e a sociedade”.
Sobre o capítulo 1, no qual se encontra a obra de Precious Okoyomon a curadoria afirma em texto: “as obras desse capítulo também abordam o anseio por referenciais físicos, sociais, culturais e psicológicos, que definem nossos pertencimentos”. E aqui encontramos uma contradição que supera o debruçar-se sobre as humanidades. Na tentativa de reverenciar o cerrado, a obra inclui vegetações invasoras do bioma, o que resulta não apenas conceitualmente, mas também tecnicamente incoerente e falho. E embora sua proposta a princípio, bem como as produções anteriores da artista, sejam dignas de apreciação, a grave falha denota falta de acompanhamento curatorial e descuido também artístico com relação a uma ética e conceituação rigorosa. Esse descuido também serve de exemplo para um considerável desleixo no trato com especificidades brasileiras. Ao que parece, o manguebit foi lançado como artifício curatorial sem que a equipe apresentasse com suficiente nitidez qualquer relação com o movimento na mostra.
APROXIMAÇÕES COMOVENTES
Muitas outras obras e momentos, contudo, expressam com coerência e autonomia elementos conceituais e filosóficos ensaiados pela mostra. Antonio Tarsis, por exemplo, nos indica já em consistente pesquisa anterior à bienal os trânsitos da exploração mineral em interseção com as dinâmicas coloniais e escravocratas. Como objeto eleito ao longo da sua prática, o carvão é sintetizado na casca de fósforo – o mesmo elemento utilizado por mestre Batatinha para compor sambas de riqueza melódica, lírica e filosófica ímpares. Trata-se de um debruçar-se minucioso sobre a capacidade de matérias e corpos negros “vibrarem com o vibrar do mundo”, reconhecer e erguer, nesse caso mais do que nunca, a energia vital expressa através de ondas sonoras gestadas entre a submissão e a agência.
No mesmo andar, Sara Sejin Chang (Sara van der Heide – nome de batismo coreano e um de batismo holandês) nos apresenta uma instalação com objetos (rituais), pinturas e um filme forte o suficiente para traçar um paralelo assombroso entre o racismo e o colonialismo cometido pela Europa na Coreia do Sul e aquele cometido no Brasil. Para tanto, a artista sul coreana se vale de uma ficção (ou autoficção?) na qual elabora uma proposta robusta acerca do papel das mulheres brancas na reprodução do colonialismo patriarcal, complexificando a narrativa do feminismo e da democracia liberal. Sua proposta também torna complexa a narrativa marxista de que as mulheres foram as primeiras vítimas do projeto que se tornou fundamental para o capitalismo. A misoginia é mesmo um pilar fundador da cultura ocidental, contudo, o que Chang nos conta é que o colonialismo pode se manifestar “em diversos corpos. Corpos masculinos, corpos femininos…”, uma discussão poucas vezes tratada com a seriedade e destreza com que faz a artista. As obras de Sara Sejin Chang na Bienal de São Paulo mostram que há viandantes que percorrem vias diversas, mas que nos recordam de paisagens semelhantes.

Um outro destaque é a irmandade de homens negros Vilanismo. Sua ocupação é construída com uma coerência total entre práticas e pesquisas desenvolvidas pelo grupo e a proposta da Bienal. Os andaimes utilizados pelos artistas para envolver dois dos pilares do projeto de Oscar Niemeyer expressam uma metáfora da errância que seus corpos trilham na vida, fora do Pavilhão. Desde o seu surgimento, em 2021, o Vilanismo busca maneiras de encontrar e manter um espaço onde artistas negros das periferias de São Paulo possam se realizar artisticamente e desenvolver suas pesquisas num ambiente seguro e em plenitude. Para tanto, faz-se necessário uma lida sistemática com instituições de arte, dos desdobramentos da especulação imobiliária e demais fatores que dificultam o acesso à moradia e ao espaço para criação do trabalho.
ARQUITETURA EXPANDIDA
Já Joar Nango, com a equipe de Girjegumpi, nos apresenta um site-specific capaz de ampliar o que se conhece como arquitetura relacionando-a com o modo de vida Sami, povo indígena europeu originário dos países nórdicos que hoje se encontram entre Noruega, Suécia, Finlândia e Rússia. Sua obra apresenta noções técnicas e conceituais diversas para concepção de habitação, construção espacial e, claro, transmissão de saberes baseados em práticas tradicionais e sofisticadas, norteadas por um compromisso com o semear do horizonte concreto, da paisagem que guia, quer dizer, os caminhos em que os seres vivos vão transitar. Daí a importância das palavras, escritas ou ditas.
Outra artista que se destaca é Pélagie Gbaguidi quem nos apresenta em gestos pictóricos e poéticos elementos sensíveis para elocubrar acerca das condições materiais e imateriais, concretas e simbólicas que norteiam algumas experiências humanas da diáspora africana – entre o des e o contra-colonial. Para tanto, a artista se vale de estruturas semelhantes a tendas, bancos de praças públicas e demais espaços nos quais pessoas se abrigam temporariamente e de forma improvisada. No trabalho da artista a menção a tais circunstâncias desvela o entendimento de Amiri Baraka sobre a alocação das pessoas negras nas Américas como um deslocamento que “faz do processo de descoberta de seu lugar próprio um movimento impróprio”, nas palavras de Victor Galdino e vinicius da silva, no prefácio a Tudo Incompleto, de Fred Moten e Stefano Harney (GLAC edições, 2023). Os tradutores e prefaciadores do livro esclarecem que esse “lugar próprio”, se existente, não pode ser a América nem outro lugar que pudesse ser recuperado “na colagem de fragmentos de mundos pré-coloniais”, porque não é um lugar fixo, nem é sempre o mesmo.

Para tanto, a artista faz pinturas sobre tecidos encontrados durante período de residência no Pivô Salvador. No verso da, vemos a arquitetura habitacional ípica danafrica Ocidental, especialmente no Mali, Guiné, Gana, Benin e Burkina Fasso, onde as casas são construídas tendo como parâmetro o estudo cuidadoso do corpo humano. Trata-se de uma busca de que toda força de vida encontre formas que lhe caibam, movam, expressem e realizem. Por isso a artista se utiliza de uma citação da Constituição da República Federativa do Brasil, que afirma ser o nosso Estado democrático “destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos”. Como nos fizemos pessoas sãs e vivas diante do descompromisso desse Estado com tantas das nossas vidas?

Destaque indissolúvel da 36 Bienal, Rebeca Carapiá trabalha na sofisticada intersecção entre as linguagens corporal, visual, arquitetônica e filosófica das periferias, partindo especialmente do bairro Uruguai, na cidade baixa de Salvador, com suas marcas de enchentes, modos de construção, graus de curvatura dos fios de cabelo, mapas de ruas forjadas em prol da permanência das vidas negras, periféricas e lésbicas no cosmo e mundo que expandem. A artista segue percebendo-se/nos na pulsão de vida emanada pela paxiúba, a palmeira andante cuja força dedica-se a buscar a luz. Isto é, condições de realizar-se por meio de uma dimensão espacial que, para corpos periféricos é tão simbólico quanto concreto, profissional como geográfico. Os elementos conceituais pela artista discutidos encontram concretude no labor, na construção manual e rigorosa, exaustiva, exercitada pela artista e visível em cada risco no aço, cada dobra do cobre, cada decisão de solda, Carapiá chegou a especial maturidade estética e conceitual, aproximando-se daquilo que Emanuele Coccia define como “movimento de que é capaz e em cujo seio ele (o ser) existe, gera-se, destroi-se e faz tudo aquilo que pode”. Há, tal qual a mostra propõe, no ensaio da artista, um estudo das interseções, afluências entre seres que caminham em gestos semelhantes no trajeto da vida. Entre inundações geradas pelo racismo ambiental e a abundância das regiões amazônicas nas quais a paxiúba se encontra, expressa vida e a refaz.
Um outro ponto importante para apreciação da obra de Rebeca Carapiá, bem como de tantas outras artistas, é a expografia concebida por Gisele de Paula e Tiago Guimarães, que afirmam ter se inspirado “pela fluidez dos rios e pela imagem do estuário presente na proposta curatorial” para compor uma paisagem sensorial, que definitivamente busca corroborar a sensibilidade emanada pelas obras no uso, por exemplo, de cores que vibram nas paredes e em ondulações de tecidos – metáfora dos viandantes que percorrem outros percursos que não estradas.

A tríade projeto expográfico, curatorial e artístico, quando desequilibrada —o que não é raro nesta Bienal—, gera resultados danosos a ambas as partes e sobretudo ao público que perde a oportunidade de fruir uma produção excelente. Nesse sentido também se encontram fragilizados os trabalhos de Wolfgang Tillmans que, além de quase escondidos em pontos diversos, sofrem com a luz natural que em nada lhes ajuda. Velha força indomável, a luz natural que emana das fachadas envidraçadas do edifício de Niemeyer, por outro lado, alimenta a pequena floresta de esculturas de Gervane de Paula que, por razão desconhecida e infeliz, num segundo momento são tolhidas e engessadas na área ao lado, onde agora passam a se encontrar sobre uma base cinza tão próxima da janela quanto dos pilares do pavilhão (num deles um alarme de incêndio) apresentando uma contradição gritante com o movimento, trânsito e organicidade tão felizes e coerentes do momento anterior onde são bem apresentadas entre os rios de tecido em verde vibrante que corroboram a fluidez da composição por onde o público pode transitar, percebendo nas esculturas as assimetrias e formas esguias.
CONTUNDÊNCIA DA TRÍADE EXPOGRAFIA, CURADORIA E PRÁTICA
Na área dedicada a obras “históricas”, Mohamed Melehie (de quem uma das obras é extremamente similar àquela apresentada no Giardini da última Bienal de Veneza, em diálogo com Rubem Valentim), Bertina Lopes e Edival Ramosa (tão brilhantemente pesquisado por André Pitol, assistente de curadoria desta edição da Bienal junto a Leonardo Matsuhei), em conjunto, formam uma tríade contundente capaz de desdobrar suas linguagens de forma ainda hoje rara, sobressaindo-se diante de circunstâncias políticas e geográficas complexas. Essa reunião é um dos pontos mais sofisticados alcançados pela curadoria da 36ª Bienal. Apesar de usar de textos numa linguagem acessível para comunicar as pesquisas e práticas artísticas – o que é louvável – a atual edição apresenta-os em contexto desfavorável à assimilação entre obra, autoria e informação, em colunas em geral distantes das obras às quais os textos se referem.
Em relação à sinalização das obras, notamos dificuldades. Até o dia 11/9 não era possível encontrar legendas no espaço, sendo necessário “adivinhar”, ou solicitar suporte dos mediadores (quem nem sempre conseguiam ajudar) ou buscar orientação pelo mapa, que àquela altura também se encontrava esgotado. Uma das poucas (talvez única) legenda disponível no núcleo histórico nos informava de um poema de Hajra Waheed. A obra da artista, contudo, não se encontrava sequer próxima à legenda.
O acúmulo desses descuidos é um ponto frágil de uma Bienal que corre o risco de ser acusada de alienar o público do direito a informar-se. O mesmo com relação a artistas, que têm o direito de serem apresentados em correspondência às obras que conceberam. Uma mostra dessa dimensão não pode se dar ao luxo de descuidar da nitidez necessária em relação à correspondência entre obras, artistas e a posição que ocupam no espaço.

Embora com crescente dificuldade de comunicação, a 36ª Bienal apresenta ao público obras de artistas louváveis como Hessie, artista cubana com seus bordados e rotas, e Ernest Mancoba, sul-africano que residiu em Paris e passou décadas sem o devido reconhecimento. Momentos muitos felizes são oferecidos pela curadoria e a expografia no encontro entre Sérgio Soares, estudioso da cultura Yoruba, e Hamadine Kane, numa cartografia do conhecimento e, signos comuns às comunidades pesqueiras das costas do Senegal e do Brasil. Para tanto, se vale de materiais e livros (como Pidginização, do curador geral desta Bienal, e Imagens da Noite, de Victor Galdino, ambos lançados pela GLAC edições) que promovem interseções numa linguagem estética coerente e capaz de cumprir seu objetivo: aproximar. Seu diálogo se fortalece com a instalação de Alain Padeau, que indica a relevância da sonoridade para esta edição da Bienal. Nas proximidades, encontramos uma das melhores instalações audiovisuais da Bienal, composta Leonel Vásquez. Nesse caso, sim, vivenciamos que o mundo “não é pra ser lido, mas escutado”. Vásquez instiga nossos sentidos, nos levando a perceber tanta sensibilidade na água, vidros e metais numa equação que nos hipnotiza, isto é, obriga nosso corpo a entregar-se ao estado e momento presente
Outro momento em que a tríade expografia-curadoria-prática artística se faz feliz é no diálogo entre Myriam Omar Awadi, Lídia Lisboa e Juliana dos Santos, que se interligam não só pela o uso de tecidos mas sobretudo pelo teor rítmico que os trabalhos manifestam nos diferentes elementos utilizados para tanto. A instalação de Moffat Takadiwa se destaca como expressão penetrante do complexo de vida, descarte e sobrevivência gerado pela humanidade e gerador de humanidades. Aproximada de Takadiwa, Manauara Clandestina, sobretudo no seu desfile, com belezas profundas, devolveu/reformulou a razão de ser da Arte: a vida.
Nota-se enfim que mesmo com algumas dificuldades, a 36ª edição da Bienal de São Paulo consegue alcançar o admirável feito de apresentar um número considerável de artistas africanos e formular uma ode às humanidades com sofisticação. Há, mesmo nas contradições conceituais (como a metáfora do espelho e afirmação de que “o mundo não é pra ser visto mas escutado” descrito por Bonaventure) uma autenticidade “refrescante”, desafiadora e sim sofisticada. Até mesmo quem desacredita da humanidade poderá perceber na Bienal algo ainda mais poderoso: força vital.
Sim, há na Bienal um conjunto de propostas na qual percebemos-nos na expressão das forças internas que não se limitam em suas formas mas se manifestam através delas. Emanuele Coccia diz que “uma coisa tem natureza apenas porque é na medida em que o seu ser é um efeito do movimento de que é capaz e em cujo seio ele existe, gera-se, destrói-se e faz tudo aquilo que pode”. Ter natureza ou reconhecer-se nela/com ela é tornar-se cada vez mais próximo de si mesmo e paradoxalmente de outras vidas. A proposta da Bienal nos convida a percebermos-nos nesse espectro natural do que há de humano dentro e fora do corpo humano –em algo que parece ter sido interessante para a mostra chamar de humanidade.