Nem Todo Viandante Anda Estradas — Da Humanidade como Prática intitula a 36ª edição da bienal que a gente ama e odeia em igual medida há 74 anos: a nossa Bienal de São Paulo, que abre ao público hoje, 6/9, e pode ser visitada até 11 de janeiro de 2026 no pavilhão do Parque do Ibirapuera.
Sob a batuta do Prof. Dr. Bonaventure Soh Bejeng Ndikung e equipe, essa edição celebra o lugar de confluências e transformações representado pela metáfora do estuário, encontro dos rios com o oceano, das águas doces e salgada, de ecossistemas complexos, interdependentes, e muito diversos. A 36ª Bienal de São Paulo propõe pensar a humanidade como prática de humildade, afastada de qualquer conceituação universalizante, humanista ou de outra ordem.
Aqui, cada encontro com uma obra é particularizado, o que a expografia fluida e generosamente espacializada propicia; cada encontro é endereçado aos corpos visitantes tanto quanto aos seres não humanos que se encontram ao redor, enredando-se no ar, na terra, em plantas e platôs e além; cada encontro convida à escuta atenta. Da imagem do estuário à metáfora do livro, a mostra se divide em capítulos.
São 120 artistas e coletivos participantes, de cerca de 50 países, em sua grande maioria da diáspora africana, latino-americana e asiática. De cada um dos seis capítulos, celeste escolhe, a seguir, um artista brasileiro – ou residente temporário no Brasil – para destacar, começando pelo fim e retomando pelo começo, por razões que serão esclarecidas no percurso. Boa visita!
A EXPOSIÇÃO DO NOVO PODER
O sexto capítulo trata do belo. Ali, depois de ter visto muitas obras e elementos de expografia verticalizados — marca registrada dessa Bienal 36 —, o visitante encontra um cubo branco suspenso. Como uma planta 3D de uma galeria de arte, com diferentes salas e quinas ortogonais ocultando as pilastras de Niemeyer, as “paredes” suspensas do cubo branco, sob inspeção mais atenta, são vastas pinturas monocromáticas. O bastidor dessa pintura all over the place, que se pode vislumbrar nos umbrais de lado a lado, é uma vasta superfície de papel pardo. Estamos em território conhecido de bastante gente que acompanha a arte brasileira nos últimos anos: este espaço é uma criação de Maxwell Alexandre.
Uma operação de “bastidores” é como o artista define o seu papel conceitual nesta bienal: “Esta galeria cenográfica funciona, semanticamente, como o verso de um conjunto de módulos de drywall; foi pensada para ser invisível”, explica em conversa com celeste, durante o preview para profissionais da imprensa na quinta, 4/6. O dispositivo já foi utilizado pelo artista na exposição individual Novo Poder: Passabilidade, Miss Brasil (2023), na Casa SP-Arte, localizado na vila de Flávio de Carvalho, nos Jardins, epicentro das galerias blue chip em São Paulo.
A transformação do suporte da maioria de suas pinturas (o papel pardo) em elemento cenográfico não apenas instaura um espaço próprio dentro do Pavilhão da Bienal, como, pela “invisibilidade” de que se camufla, também oferece o oposto do espetáculo no próprio lugar do espetáculo: “A Bienal de São Paulo é esse lugar apoteótico de consagração do artista, é o lugar de selar narrativas, por isso proponho esse exercício encenado da exposição do poder” resume Maxwell Alexandre.
FREQUÊNCIAS DE CHEGADAS E PERTENCIMENTOS
Uma investigação sobre o Cerrado é o ponto de partida do trabalho de Precious Okoyomon, artista e poeta que cresceu entre Inglaterra, Nigéria e Estados Unidos, e ganhou destaque na 59ª Bienal de Veneza, ao criar ambientes que integram esculturas e organismos vivos.
Okoyomon é a primeira pessoa residente da Casa Onze, novo espaço da Travessa Dona Paula, em São Paulo, idealizado pelos nossos vizinhos Frederik Schampers, diretor da galeria Gladstone, de Nova York, e Lydia de Santis, uma das curadoras da paulistana Nara Roesler. Para o primeiro capítulo da 36ª Bienal, que investiga as relações entre o solo e as comunidades, coletou plantas nativas do cerrado na tentativa de recriá-lo em Sol da Consciência. Deus Sopra Através de Mim – O Amor Me Quebra (2025), concebido como um jardim autoirrigável na entrada do pavilhão.
Por outro lado, o ateliê-escola Sertão Negro, fundado por Ceiça Ferreira e Dalton Paula, propõe um espaço de escuta no qual a autorrepresentação do cerrado goiano é o eixo central. A instalação é composta por taipa de mão, terra, madeira e pedra, além de objetos do território quilombola Kalunga e obras de diferentes artistas — entre fotografias, gravuras e cerâmicas —, que ampliam o debate acerca da memória e do pertencimento ao território.
GRAMÁTICAS DE INSURGÊNCIAS
No segundo capítulo, dedicado às propostas de resistência à desumanização, a artista Ana Raylander Mártis dos Anjos atravessa os três andares do pavilhão com A Casa de Vovô Bené (2025), uma série de troncos revestidos por roupas torcidas e acessórios. A pesquisa artista é movida pela jornada de seu bisavô, que também era artista, pensando em sua casa em Minas Gerais como um grande projeto. As peças tensionam memórias familiares e coletivas, trazendo à superfície uma narrativa de resistência à expropriação da terra pela mineração, à ditadura civil militar e a escravidão e seus desdobramentos no campo de disputa do extrativismo.
SOBRE RITMOS ESPACIAIS E NARRAÇÕES
O terceiro capítulo da Bienal 36 compreende, de acordo com a cocuradora Alya Sebti na apresentação para a imprensa, novas ecologias e práticas narrativas sobre encontros, que produzem linguagem. Aqui, destacam-se as pinturas de grandes dimensões de Márcia Falcão, verdadeiro tour de force em torno da representação das corpas diversas e multifacetadas em situação de empoderamento e beleza delirante, e a instalação de Manauara Clandestina, Transclandestina 3020 (2025), que mescla ficção especulativa, ações desenvolvidas pela artista em parceria com criativos de moda, música e cinema dentro do pavilhão (a obra foi comissionada pela 36ª Bienal), um painel fotográfico de colaboradores e agregados, além de assemblages feitas com reutilização de uniformes de trabalho.
FLUXOS DE CUIDADO E COSMOLOGIAS PLURAIS
As pinturas monumentais de Juliana dos Santos estão em constante mutação, pela oxidação dos pigmentos azuis e pela presença de fragmentos de flor que também emprestam uma característica matérica às telas, de resto, diáfanas. Montadas sem chassi nem parede, apenas suspensas no espaço, configuram-se como pinturas autoportantes que engendram o próprio espaço. A instalação dialoga com o cubo branco de Maxwell Alexandre no piso acima. Mas nesse corredor azul a proposta é oferecer ao corpo do visitante a pulsação do azul, organizado em movimento de expansão e retração, como se fosse um cosmos. Com longa formação acadêmica em artes e educação, Juliana dos Santos afirma que se interessa pela abstração como caminho para “entender a construção da imagem e a construção da forma, mas não a partir daquilo que está dado em uma realidade imediata, e sim daquilo que pode acontecer numa experiência real”.
CADÊNCIAS DE TRANSFORMAÇÃO
A cocuradora geral Keyna Eleison afirma que essa é uma bienal para sentir com corpo, e a experiência cognitiva corporificada do projeto curatorial se estende em diversos momentos do pavilhão, como na instalação de Antonio Társis. Catástrofe e Orquestra (2025) une uma série de referências do artista, como o sambista baiano Batatinha e a cantora cabo-verdiana Cesária Évora, que dialogam com processos vivos de mutação de tradições clássicas. Társis explora a transformação da matéria a partir da caixinha de fósforo, reinterpretando-a em uma sequência que forma uma cortina de caixinhas coloridas e se esfarela com o tempo. O movimento acontece quando o carvão toca de forma estridente e ritmada sobre um tambor e produz uma sonoridade e cinética da obra. “Comecei a entender que o fogo é um elemento importante nessa possibilidade de pulsão e ritmo”, diz o artista a celeste.

A INTRATÁVEL BELEZA DO MUNDO
O sexto capítulo de Nem Todo Viandante Anda Estradas é aquele onde a instalação de Maxwell Alexandre se localiza. De acordo com a cocuradora Anna Roberta Goetz, aqui se declara como “a beleza é política, a beleza é resistência, a beleza encontrada no mundano vai de antes do começo até depois do fim”. O núcleo final se conecta ao início da exposição, no piso térreo, e revela a interconexão geral, para a qual a obra de Ana Raylander Mártis dos Anjos já chamava atenção. Como novas linguagens de luta e resistência, a beleza de paisagens fragmentadas e imagens inacabadas se encontram ao final do percurso em uma celebração do que sobrevive no entreato.
SERVIÇO
36ª Bienal de São Paulo
Até 11 de janeiro de 2026
Ter – sex e dom, 10h – 18h; sáb, 10h – 19h
Pavilhão Ciccillo Matarazzo – Parque Ibirapuera, Portão 3
Entrada gratuita