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Moscaglia (2025), de Regina Silveira [Foto: Ada Cerdá, Carlos Nunes e Diego Nunes]
Postado em 25/09/2025 - 5:20
A genealogia da mosca
Intervenção urbana em lambe-lambe de Regina Silveira incita voo pela representação do abjeto na história da arte e da obra da artista

Tenho uma mosca voando ao meu redor, enquanto escrevo estas linhas. Não é um recurso, é a realidade. Trata-se de um exemplar da clássica e inconveniente mosca de verão, talvez descendente direta daquela que, em 1975, incomodava o escritor Camilo José Cela, quando, no programa da televisão espanhola A Fondo, falava da grande quantidade de horas que precisava dedicar diariamente à escrita para que os resultados aparecessem. Lembro-me, desde criança, dessa observação dos adultos sobre a mosca inconveniente. Nos dias de tempestade, elas eram especialmente impertinentes. As moscas não são apreciadas. Seu voo sem rumo, uma espécie de flânerie, aproxime-se ou não de nós, não agrada. Outros insetos se destacam por sua beleza, mas a mosca não é reconhecida por essa virtude. De fato, contra as moscas, todos os tipos de venenos e armadilhas adesivas são vendidos a cada verão, porque de alguma forma as moscas evidenciam o abjeto, e do abjeto fugimos. Seja como for, e ao contrário do que acontece com seus primos também indesejáveis, os mosquitos, quando há moscas, parece que há merda.

Eu sou a mosca que pousou em sua sopa. Eu sou a mosca que pintou pra lhe abusar, cantava Raul Seixas em 1973, em plena ditadura no Brasil. As moscas, além de evidenciar a podridão, são esses dípteros que nos fazem perder a paciência, que revelam nossa pouca tolerância, e o resultado é quase sempre o mesmo: quando incomodam, são esmagadas. Mas, enquanto incomodam, elas nos colocam em situações absolutamente indignas e, só por isso, vale a pena a sua existência. A mosca de Seixas também era uma mosca incômoda, que incomodava naquele Brasil cinzento, uma mosca demoníaca, porque a mosca também foi apontada como comparsa de Belzebu, identificado no Novo Testamento como Senhor das Moscas. Habituais na pintura medieval, renascentista ou barroca europeia, as moscas apareciam ocasionalmente como um aceno de veracidade para certificar o bom trabalho do pintor, mas também apontavam – além dessa conexão diabólica – questões como a fugacidade da vida, uma metáfora do efêmero, a representação da morte ou a presença da putrefação.

HABITUAIS NA PINTURA MEDIEVAL, RENASCENTISTA OU BARROCA EUROPEIA, AS MOSCAS APARECIAM OCASIONALMENTE COMO UM ACENO DE VERACIDADE PARA CERTIFICAR O BOM TRABALHO DO PINTOR, MAS TAMBÉM APONTAVAM – ALÉM DESSA CONEXÃO DIABÓLICA – QUESTÕES COMO A FUGACIDADE DA VIDA

Em 2001, no âmbito dos 50 anos da Bienal de São Paulo, a artista Regina Silveira foi convidada a realizar uma intervenção específica. A recusa de Oscar Niemeyer, em 1995, ao seu desejo de colar no Memorial da América Latina a sombra negra de sua instalação O Paradoxo do Santo (1994), motivou a artista a decidir agora projetar grandes moscas sobre edifícios em diferentes bairros da cidade. Projetado a partir de um carro em movimento, o gobo metálico da mosca Transit (2001) pousava onde queria – incluindo a fachada da biblioteca do próprio Memorial da América Latina –, cobrindo – em um exercício de teimosia artística – um voo que, por capricho, atravessou o centro da cidade durante cinco noites. Nem mesmo todo o desgosto causado a alguns por uma simples mosca faria Silveira desistir, pois o simples fato de ela ser incômoda era desculpa suficiente para fazê-la voar. 

Transit derivou anos depois em uma animação em vídeo intitulada Vigilância (2015), mas as moscas haviam chegado ao trabalho da artista duas décadas antes, concretamente em 1995, quando, a convite de um projeto intitulado Arte-Lixo, ela apresentou Moscaglia, um grande outdoor coberto de moscas que, em 2018, ela exibiu novamente no Teatro Viradalata, também em São Paulo. Timidamente, as moscas também apareceram em outros trabalhos, como Mundus Admirabilis, as teias de insetos site-specific que a artista expôs nos últimos anos em eventos e espaços como a Bienal de Poznan (2010), o CCBB de Brasília (2007) ou o Museu Nacional de Riad (Arábia Saudita) (2019), entre outros. Em 2021, a editora Carambaia colocou uma mosca de Silveira, desta vez com sombra projetada, na capa de O Papel Mata-Moscas e Outros Textos, de Robert Musil.

Moscaglia (2025), de Regina Silveira [Foto: Ada Cerdá, Carlos Nunes e Diego Nunes]
Em 2025, convidada a participar do MEIA MEIA NOVE MEIA*, e fiel à sua habitual tendência de ignorar as regras, Regina Silveira propôs-se a contornar a linha de divulgação estabelecida pelas bases do projeto, propondo que esta fosse realizada – através do lambe-lambe da edição completa das serigrafias produzidas – em diferentes locais da cidade de São Paulo. Dessa forma, as 60 cópias – 20 de cada uma das três orientações dadas à mosca sobre o papel – foram distribuídas durante duas noites de agosto por algumas paredes dos bairros paulistanos dos Jardins, Pinheiros, Vila Madalena e Barra Funda. Locais escolhidos dias antes, durante um passeio com Regina Silveira por certas áreas onde a profunda mudança urbanística que a cidade vive ganha especial presença, e onde, além disso, a brecha social se acentua. Todos eles foram definidos de forma ponderada, levando em consideração em quais espaços essas moscas poderiam aparecer de repente e causar algum tipo de reação em um setor muito específico da população, evitando sempre associá-las à exclusão social presente em muitas dessas áreas.

A reação não se fez esperar e, após a primeira noite de lambe-lambe, para surpresa de todos – talvez Regina Silveira não tenha sido pega de surpresa –, em alguns pontos as moscas foram raspadas, deixando na parede o papel retangular branco e eliminando exclusivamente a mancha que o inseto ocupava. Por quê? Essa pergunta permanece sem resposta, talvez cada um possa encontrar uma explicação. O certo, e isso é inquestionável, é que as moscas não são apreciadas. Porque as moscas revelam que algo não está como deveria estar e evidenciam os contrastes. Diante disso, talvez a solução seja aprender a amá-las e aceitar o que há de bom em existir um ser que detecta e denuncia a podridão.

 

Mapa dos locais de instalação de Moscaglia (2025), de Regina Silveira

*Entre outras coisas, MEIA MEIA NOVE MEIA é uma iniciativa fundada pelo artista Carlos Nunes e pelo curador Ángel Calvo Ulloa, com base em uma proposta de obra múltipla que busca fomentar o encontro, o trabalho colaborativo e a discussão e, a partir dessas premissas, propõe em cada colaboração a realização de uma edição numerada, cuja tiragem e distribuição são definidas individualmente com o artista convidado.