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Cura Bra Cura Te (2019), de Ernesto Neto, no contexto da exposição Ernesto Neto: Sopro, na Pinacoteca de São Paulo [Foto: Levi Fanan]
Postado em 15/09/2025 - 3:40
A natureza precisa estar morta para entrar no museu?
Projeto Octógono oxigena a arte contemporânea na Pinacoteca de São Paulo, transformando-a em museu vivo

“Por muito tempo, o Projeto Octógono foi o único lugar onde se podia ver arte contemporânea na Pinacoteca”, afirma Jochen Volz, diretor-geral da instituição. Antes da grande reformulação da mostra de longa duração em 2019, no segundo andar do edifício Luz, a Pina era amplamente associada ao seu acervo do século 19 – uma parte importante de sua coleção, mas que não representa a sua totalidade. Muitos visitantes, até hoje, vão ao museu à procura das pinturas de Almeida Júnior, como Caipira Picando Fumo (1893).

Na apresentação do programa de 2025, que celebra os 120 anos da Pinacoteca, Volz reforça que as instalações desenvolvidas para o Projeto Octógono funcionaram por 20 anos como o coração do museu, que irradiava arte contemporânea pelos corredores para oxigenar todo o edifício da Pina Luz. “O interessante é que a obra exposta no Octógono pode ser vista de todos os andares e o visitante passa por ele a caminho das diferentes salas, por isso ela se espraia simbolicamente pelo museu todo.” 

O catálogo Projeto Octógono: 20 Anos – Aprendendo com Artistas (lançado em 2023) reúne um arquivo robusto e cria uma linha do tempo cronológica dos 70 projetos realizados até então. Criado em 2003 na gestão do curador Ivo Mesquita, o Octógono cumpriu o papel de manancial que espraiou arte viva pelo museu-rio, que hoje apresenta arte contemporânea em todas as suas salas, inclusive aquelas que reúnem obras históricas da coleção. E o espaço segue irrigando os corredores-afluentes e recebendo por eles as atenções dos visitantes, quiçá vindo a se transformar em foz – como a obra de Mônica Ventura, 77ª intervenção no Octógono, que oferece abrigo e acolhe quem volta de um grand tour por todas as exposições em cartaz. Nesse contexto, os elementos vivos – água, terra, sementes, frutos e seres – instigam uma nova leitura da monumentalidade do emblemático espaço. 

A artista paulistana ocupa o pé-direito de 15 metros com um pêndulo composto de mais de 200 cabaças costuradas com fibra natural. A instalação Daqui um Lugar (2025) também se expande horizontalmente, por meio de um anel de 6 metros de diâmetro feito de juta, que se conecta ao chão de terra batida por pilares de cobre, enquanto um espelho d’água no centro reflete o cordão de cabaças no topo. Entre o céu e a terra, Ventura referencia cosmogonias africanas e ameríndias para a criação de um espaço mítico, reunindo elementos naturais que convidam o público a voltar-se para o encontro, e de forma central na água, como gerador e recurso intrínseco à vida.

O OCTÓGONO CUMPRE O PAPEL DE MANANCIAL QUE ESPRAIOU ARTE VIVA PELO MUSEU-RIO, QUE HOJE APRESENTA ARTE CONTEMPORÂNEA EM TODAS AS SUAS SALAS. E O ESPAÇO SEGUE IRRIGANDO OS CORREDORES-AFLUENTES
Daqui um Lugar (2025), de Mônica Ventura [Foto: Levi Fanan/ Pinacoteca de São Paulo]

CORREDORES-AFLUENTES

Na bacia-Octógono, a água correu em diferentes sentidos. Laura Vinci navegou com a instalação Warm White (2007-2008) da 26ª Bienal Internacional de Arte de São Paulo para o centro do Octógono. Sobre o piso revestido de mármore, a artista dispôs grandes bacias do mesmo material cheias de água, a qual fluía entre mangueiras transparentes de plástico e se mantinha aquecida, por meio de um sistema de resistências que gerava vapor. No projeto arquitetônico original do edifício da Pinacoteca, o mármore deveria revestir suas paredes e pilares, cobrindo os tijolos de barro característicos do prédio.

Em Desencantando Salmu (2007), Josely Carvalho apropria-se de imagens de tabletes cuneiformes da antiga Mesopotâmia para discutir o aniquilamento da identidade cultural armênia. As litogravuras foram dispostas sobre o piso do museu, como fragmentos da história, nos quais o público caminha. Uma fonte central em fibra de vidro unia um fio d’água que fluía verticalmente de uma estrela no teto até mergulhar no chão. Vitalidade e ruína colocadas cara a cara, a experiência sensível do trabalho expandiu-se com o ruído projetado em canais e hidrofones para som debaixo d’água.

Outro poço aparece na mostra de Regina Silveira, que também instalou uma escultura no centro do Octógono para transformá-la em Observatório (2006). O objeto refletia em seu fundo a grande lua azul de vinil que filtrava a luz natural da claraboia, projetando uma atmosfera lunar convidativa ao mergulho. Na exposição Tecendo a Manhã: Vida Moderna e Experiência Noturna na Arte do Brasil, que abriu concomitantemente à de Monica Ventura, a experiência se repete: uma pintura de Tomie Ohtake, de grandes dimensões, composta de uma esfera prateada sobre um fundo azul, cria uma atmosfera noturna em uma das sete salas de mostras temporárias no térreo. “As pessoas estão tomando banho de lua”, comenta Jochen Volz observando a sala cheia de visitantes.

É como a experiência algo paradoxal que o público londrino estabeleceu com a intervenção de Olafur Eliasson na Turbine Hall da Tate Modern (a versão britânica de nosso Projeto Octógono na Pina ou do Projeto Parede no MAM São Paulo). The Weather Project (2003) levou mais de 2 milhões de visitantes à Tate, e imagens das pessoas deitadas no chão do museu tomando banho de sol diante da imensa projeção de uma imagem de sol que se matizava de acordo com o horário do dia viralizaram nas protorredes sociais da época. Uma natureza-morta assistida por tecnologia de ponta, o sol eliassoniano continua mesmo assim a tradição desse estilo. O que nos remete de volta à questão que por séculos se aplicou ao gênero pictórico: a natureza precisa estar morta para entrar no museu?

Deixar ir (2024), de Dan Lie [Foto: Levi Fanan/ Pinacoteca de São Paulo]

FRUTOS DA TERRA

No 453º aniversário da cidade de São Paulo, Caetano Dias cunhou um conjunto de 453 paulistinhas, ou pequenas esculturas com a imagem do padroeiro da cidade, feitas de rapadura de cana-de-açúcar. Os São-Paulistinhos (2007) foram espalhados pelo Octógono e demais áreas do edifício, dispostos aos visitantes para guardá-los ou comê-los. O iconoclasmo e a sacralização já caminham juntos há muito tempo na obra do artista baiano, que nesta proposta pautou uma assimilação cultural antropofágica, borrando de forma simbólica as fronteiras entre o sagrado e o profano.

A imersão de Ernesto Neto no território indígena Huni Kuin, no Acre, desde 2013, atravessa sua produção com uma série de reflexões sobre espiritualidade, terra, plantas e rios. Nutrindo os caminhos da terra, a prática escultórica do artista, em sua retrospectiva na instituição, retomou saberes indígenas para concepção de ações e rituais participativos na instalação Cura Bra Cura Té (2019). O Octógono foi tomado por um grande tronco central de madeira, aludindo ao sistema escravocrata contemporâneo encoberto; era oco, e foi preenchido com os principais produtos de exportação da economia brasileira ao longo dos séculos – açúcar, café, ouro e soja. A cada ritual de meditação, cantos e leituras de textos e conversas – ativações que ocorreram ao longo da mostra –, o tronco da árvore teve um de seus segmentos subtraído, evidenciando sua copa de crochê carregada de folhas curativas.

A performance Bori (2008-2022), de Ayrson Heráclito, foi parte da exposição Yorùbáiano, que também abordou as feridas da história colonial. Em uma interpretação coletiva inspirada em um ritual homônimo nos terreiros de candomblé – o Bori simboliza um momento de limpeza espiritual e proteção, no qual se dá alimento às entidades da natureza. Durante o ritual, Heráclito utilizou materiais orgânicos para criar mandalas de alimentos, como milho, batata-doce, amendoim e feijão, em torno das cabeças de 12 performers – representações vocativas e iconográficas dos orixás, cada um sendo guiado por uma divindade.

Alimentar como prática da humanidade. “Dar comida para a cabeça é nutrir a nossa alma. Alimentar a cabeça com comidas para os deuses é evocar proteção”, afirma o artista no texto de apresentação da programação. A obra compõe o acervo da Pinacoteca desde 2020.

São Paulistinhos (2007), de Caetano Dias [Foto: Levi Fanan/ Pinacoteca de São Paulo]

ARTE VIVA

Com obras site-specific feitas para serem vivenciadas, indo além das fronteiras tradicionais da arte, o coração octogonal abraça processos de experimentação e incerteza. As instalações “vivas” respiram, movimentam-se e interagem com a infraestrutura e arquitetura do espaço, contrastando diretamente com a realidade representada. A natureza tida como um sistema, eixo da natureza-morta na pintura ocidental na história da arte, em seu sentido mais vital, amplia-se para fora dos limites inanimados da tela e das paredes – movimento contemporâneo registrado de forma singular através dos encontros entre artistas, espaços, tempos e públicos no icônico vão.

No ano passado, Dan Lie incorporou materiais orgânicos em decomposição na sua “instalação-entidade”. A ocupação Deixar Ir (2024) intensificou a experiência sensorial no Octógono, sobretudo do olfato, visto que os cheiros se modificavam de acordo com os estágios de transformação da matéria. A observação contínua sobre os ciclos de vida e morte revelou-se por meio das plantas, bactérias, fungos e organismos – ora pequenos brotos, ora elementos mortos/vivos.

Lie criou uma estrutura em grande escala no formato de espiral, preenchida de matéria vegetal – tornando-se uma espécie de incubadora para a proliferação de microrganismos. A composição incluía ainda um grande arranjo de crisântemos frescos e urnas de barro cheias de arroz. Em post no Instagram, Lie compartilhou uma de suas visitas à Pinacoteca nas últimas semanas da exibição, onde se surpreendeu ao encontrar uma pequena muda brotando logo na entrada da instalação, um processo totalmente natural que poderia ter acontecido em qualquer outro lugar. “Confiar no mistério e se comunicar com outros seres não humanos é isso: uma intenção é respondida com poética”, escreveu.

A NATUREZA TIDA COMO UM SISTEMA, EIXO DA NATUREZA-MORTA NA PINTURA OCIDENTAL NA HISTÓRIA DA ARTE, AMPLIA-SE PARA FORA DOS LIMITES INANIMADOS DA TELA E DAS PAREDES