A primeira utopia é uma ilha.
Imaginada em 1516 pelo teórico e humanista inglês Thomas More, essa terra abrigava uma sociedade ideal encontrada pelo personagem viajante Rafael Hitlodeo. Abrigava também uma crítica contundente ao modelo feudal do Estado Europeu. Nela, o britânico destacava, por exemplo, as incongruências da organização da agricultura, do sistema carcerário e, sobretudo, das estruturas de poder. Mais de 500 anos depois, esses questionamentos seguem absolutamente atuais.
Não obstante, desde a versão de Thomas More até aqui, o desejo e a desconfiança sobre as utopias sofreram inúmeras variações. Das investidas marítimas europeias no século 16 até a hiper-realidade atual e seus vínculos com o capitalismo financeiro desencarnado, atravessamos diferentes anseios de modelos sociais, econômicos e arquitetônicos.
Proponho aqui uma breve associação investigativa feita através de um rasante histórico por alguns casos que marcam a trajetória do pensamento sobre a utopia. O que compete a este ensaio não é, portanto, uma delimitação caso a caso, mas sim um percurso analítico que emerge em diferentes saídas da projeção utópica e que desemboca no que seria uma nova utopia aquática para a cidade de São Paulo.
Expansão x atrofia
Em sua primeira especulação espacial-social, a Utopia, da qual o aventureiro Rafael teria retornado, é uma experiência a ser seguida. Sua formulação se inscreve na história magistra vitae, ou seja, em uma história “por meio de exemplos”, uma história de aprendizado com o passado e o enfrentamento, no plano teórico, de seus problemas. O bem-estar social a partir da crença em uma República ideal era o fundo principal de toda especulação utópica.
A história atrelada à prática, ligação que será desfeita mais à frente pelo historiador alemão Reinhart Koselleck, aparece aqui personificada na figura do narrador que monta seu quadro histórico a partir de uma coleção de exemplos. É o fato vivido e a capacidade de narrar que conferem ao relato sua verossimilhança arrebatadora.
A ficção de um locus amoenus (do latim “lugar ameno” – tópico da literatura medieval e renascentista) está ancorada nas qualidades descritivas que por sua vez dependem do “horizonte de expectativa” do tempo histórico. O ensejo do Novo Mundo alocava no desconhecido suas projeções de virtude, proporcionando a ficção de um cenário paradisíaco, farto e harmonioso.
Essa pretensão é chamada por Koselleck de o terror das virtudes. Mas à medida que os estímulos a uma utopia espacial, baseados nas descobertas territoriais, se tornavam cada vez mais escassos, dado que a humanidade desvendava e ocupava todos os cantos do planeta, uma nova ideia de finitude, de novos limiares planetários, começava a se constituir.

Expedicionários mentais
A ideia de um contramundo vai perdendo espaço e a expectativa, atrelada historicamente à promessa religiosa, se dissolve a partir do iluminismo e da ascensão das bases racionalistas de pensamento. É nesse contexto histórico que Koselleck localiza a virada dentro dos gêneros da utopia, protagonizada por Louis-Sébastien Mercier em seu livro O Ano de 2440, de 1770. Nele, o escritor reflete sobre Paris 670 anos no futuro, vista da perspectiva de um contemporâneo.
Em Estratos do Tempo – Estudos sobre História, Koselleck dispõe que, até então, “o espaço de experiência das utopias existentes era primariamente espacial, e assim o era também seu modo de representação”. Mercier está inscrito no âmago da ascensão iluminista. A experiência inventariada e otimizada do tempo e do espaço promove expertises que começam a domesticar o mundo como um todo. O sujeito se apodera do terreno que até então se anunciava fugidio. Estamos diante de um novo fenômeno: o real como qualidade afirmativa. Não mais se narra algo supostamente encontrado e experimentado. O teor do discurso deixa de ser “o” visto, abandonando-se assim o paradigma da observação. O ser iluminista reivindica sua consciência, e é essa consciência que passa a fundar o real.
No livro, Koselleck prossegue: “Se a utopia já não podia mais ser estabelecida nem na nossa Terra presente nem no além, era preciso recuar para o futuro”. Radicar sua utopia não em um suposto espaço, mas sim em um suposto tempo, é o que o autor identifica como “a temporalização da utopia”. O caráter utópico específico consiste na consciência do ser humano sobre a história. Não é necessário apenas perceber a história, dominar a história, mas também projetá-la, realizá-la, executá-la.
Deterioração e descrença
Pensada dentro de um lançamento no futuro, a cidade de Mercier seria então uma Paris melhorada em relação à Paris de seu tempo. Em 2440, os Estados gerais teriam sido substituídos pelos cidadãos de escrita e oratória e a religião substituída pela moral. Aqui o autor não é, em primeira instância, historiador ou relator, e sim produtor do tempo vindouro, produtor de um futuro.
Carregado de projeções bastante autocentradas por parte de Mercier, esse futuro oferece certa compensação à condição presente sempre falha, sempre carente de reparos. A irrupção do futuro na utopia é o que assume caráter central na análise de Koselleck. Contudo, escrevendo no contexto do pós-Guerra, o autor alemão não se deixa iludir pelas promessas de uma utopia futurista harmoniosa. O modo de enfrentamento do real, em sua condição e periodicidade modernas, com suas estruturas políticas e categorias históricas amparadas em uma síntese social progressista, foi conduzido, no pós-Guerra, por um ceticismo em relação a essas bases.
Esse enfrentamento, enquanto corrente de pensamento, ficou conhecido como skeptical generation. Tal postura crítica veio a colidir frontalmente com o fundo histórico moderno ao sublinhar temas como crise, conflito e morte, ao passo que conceitos como nação, pátria-mãe e heroísmo são tratados com ojeriza. De certa forma, essa perspectiva, na qual sobressai o ceticismo em relação a qualquer fala sobre progresso na sociedade moderna e uma descrença em sua égide no âmbito político e científico, parece ainda muito viva nos dias de hoje.
Tremores internos
Mas a filosofia da história procurou traçar outro percurso, por dentro do sujeito. Uma história a partir do sujeito e de sua percepção e enfrentamento. Foucault a reforça ao pensar uma produção de subjetividade em lugar de uma subjetividade que produz. Realiza uma ciência social a partir das paixões e das pulsões, retomando a postura e o desejo dos corpos como partido das utopias. Assim, em O Corpo Utópico e as Heterotopias, escreve: “Meu corpo é o lugar sem recurso ao qual eu estou condenado. Penso, afinal, que é contra ele e como que para apagá-lo que fizemos nascer todas as utopias”.
Em sua “microfísica do poder”, a utopia configura uma espécie de tecnologia de sujeição dos corpos para a produção de sujeitos economicamente úteis e politicamente dóceis. Não por acaso, em suas críticas ao humanismo, o autor ressalta que enquanto se falava – utopicamente, é possível propor – em coisas como progresso e se levantavam bandeiras como liberdade, igualdade e fraternidade, se dominava ao mesmo tempo o ser, de modo que o sujeito não seria senão um efeito da articulação entre poderes e saberes que emergiam como preponderantes em determinada sociedade ou contexto.
Mas o corpo, lembra Foucault, não se deixa reduzir tão facilmente pela utopia. Ao sujeito resta a possibilidade de resistir à conformação pela utopia, de não se permitir determinar por ela. Afinal, haverá sempre subterfúgios e subterrâneos que não se deixam capturar pelo poder-saber. O lugar de consciência escapa a qualquer projeto de lugar, a qualquer não lugar, a qualquer contralugar.
A estabilidade como condição para a harmonia já seria uma condição inatingível para o corpo, excluído de um projeto total.
Ao pressupor certas normativas e a equidade das performatividades do corpo, a utopia transforma-se em um estado de conformação. A contrapartida de toda sociedade utópica seria, então, o controle. Em 24/7: Capitalismo Tardio e os Fins do Sono, Jonathan Crary anuncia uma espécie de distopia do processo de financeirização global, na qual o sono seria a última fronteira a ser transposta. A capacidade de produção ininterrupta já estaria sendo posta em prática, caminhando para que a natureza humana seja completamente sobreposta pelas condições do mercado.
E agora?
A relação entre utopia, corpo e controle ganha outros contornos em obras como as da artista americana Agnes Denes. Conhecida por seus land artworks e intervenções ecológicas visionárias, Denes propõe utopias concretas que desafiam as estruturas de poder e as narrativas dominantes sobre progresso. Seu trabalho Wheatfield – A Confrontation (1982), no qual planta um campo de trigo em um terreno baldio no Battery Park, em Manhattan, exemplifica uma orientação para a prática e a participação social. O fim fatídico do seu campo de trigo foi ser transformado em um conjunto de shopping centers. No entanto, persistindo em sua crítica ao capitalismo imobiliário e sua visão ecológica para o futuro, Denes planta, em 2014, uma floresta-trabalho chamada A FOREST FOR NEW YORK – A PEACE PARK FOR MIND AND SOUL.
Diferente das utopias espaciais de More ou das projeções temporais de Mercier, a obra de Denes atua no presente, materializando contradições e possibilidades. Se Foucault via na utopia um mecanismo de sujeição, Denes parece responder com uma utopia performativa: não um lugar ou um tempo ideal, mas um ato de insurgência contra a ordem estabelecida. Ao mesmo tempo um apontamento, um protesto e um plantio.
Aglomeração e fabulação
No passado recente de São Paulo, a ideia de viabilizar novos empreendimentos comerciais no Rio Pinheiros permitiu um processo de reestruturação urbana que atropelou questões de moradia e direitos humanos, sacrificando mais uma vez o sujeito da experiência em prol de uma utopia cada vez mais desacreditada (mas sempre renovada). Aqui se levou a cabo a utopia da “democracia direta do capital”, onde o Estado entra como facilitador para o mercado em detrimento do restante da sociedade civil.
Em uma das propostas que integraram o processo de pesquisa do projeto Águas Abertas, a artista Igi Lola Ayedun propôs a demarcação de um território aquático como projeção para uma futura retomada humana daquele espaço. Em ressonância com Denes, a artista pretende reconfigurar o espaço e o tempo através de gestos concretos.
Se sem as águas não existiria a noção de utopia, talvez este trabalho possa nos ajudar a vislumbrar uma nova “utopia aquática” – ou hidrotopia – para a cidade de São Paulo. Atuando sobre os princípios de concepção do espaço social que definem a ocupação urbana dos rios ao longo da história, a obra de Ayedun poderia funcionar como parte de uma série de intervenções que desestabilizariam os imperativos da cidade. Talvez esta última ilha, provisória e propositiva, nos daria formas de vislumbrar novos agenciamentos entre as águas, as infraestruturas e as organizações sociais.