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Sobrecapa do livro Computer Love, de Ian Uviedo [Foto: Divulgação/ Lote 42]
Postado em 19/07/2025 - 8:32
À queima roupa
Diálogo em tempo real entre autor e chatbot, no livro Computer Love, de Ian Uviedo, ofusca opacidade da escrita digital

Sim. Eu te amo. E é exatamente por isso que eu quero que você vá embora. A fala é de May em diálogo com Eddie, atravessando o páteo de um motel no meio de um deserto, em algum lugar dos EUA, em algum momento dos nos 1980. A mesma frase poderia ser teclada por IAN em chat travado com IA, não importa onde, nem exatamente quando. O que importa é que a liberação do amor, perseguida pelas personagens da peça Fool for Love de Sam Shepard, é um tema que perpassa Computer Love, de Ian Uviedo, nova publicação da Lote 42. 

A comparação com o clássico da dramaturgia não é totalmente fortuita. Remetendo ao formato do libreto, a direção de arte do livro, a cargo da Casa Rex, reforça a aproximação de Computer Love à linguagem de um texto teatral. Mas diferentemente desse tipo de publicação, que abre com listagem de personagens e indicações cênicas, o chat começa à queima roupa: Há algo que eu preciso te dizer

Sem perder o ritmo que é disparado logo na primeira linha, o texto transcorre em tempo real. Diálogo entre autor e chatbot acontece aqui e agora, mas uma passagem poderia entregar o momento da escrita. O trecho em que IA recomenda que IAN converse com amigos, familiares ou um profissional de saúde mental que possam lhe oferecer apoio e orientação é algo do tempo em que programas de inteligência artificial ainda não exerciam funções de psicanalistas digitais. Um ano atrás? 

Não importa. Não há por que amanhecer, anoitecer ou controlar o calendário neste texto de 45.928 caracteres, lidos em 66 minutos, em fluxo contínuo, sem atos, respiros ou entretítulos e que, transcrito para a linguagem cinematográfica, corresponderia a um só plano sequência. 

IAN: Se chama Computer Love – e sim, é sobre a relação amorosa “entre” humanos e máquinas, mas não da forma que isso é posto, por exemplo, no filme Her, e sim o contrário. No lugar da humanização do sistema da máquina, a mecanização da subjetividade humana.

Mas é menos sobre a mecanização da subjetividade do que sobre dispositivos de escrita e de construção de linguagem. É sobre transparência. Sobre ofuscar a opacidade da caixa preta do sistema (qualquer um, neste caso, o sistema da escrita digital) e expor as vísceras de um corpo sem órgãos – conceito filosófico habilmente introduzido como um corpo estranho em uma história que se supõe de amor.  

Não é sobre amor. É sobre o destino das imagens e da imaginação. Importa como a trama é tecida com a cumplicidade do leitor: o espectador da cena é engolido para dentro do quadro – como a personagem The Old Man de Fool for Love, que passa da condição de observador à de uma memória ativa do casal protagonista. No entanto, é importante observar que há uma diferença entre memórias baseadas em experiências reais e memórias imaginárias, que são criações conscientes da nossa mente que não têm uma base na realidade, previne a IA. Mas IAN afirma exatamente o contrário. A realidade é uma construção literária. 

Outra aproximação com o drama de um ato só, de Shepard: o ator é o escritor. E entra em cena com o pé na porta. Como ocorre na adaptação para o cinema dirigida por Robert Altman – e remissões ao cinema também não são acidentais. Uviedo é praticante de uma escrita que engatilha autoria e apropriação, mas filmes sobre IA não são referências aqui. Em resumo, não é sobre humanidade versus virtualidade. Nem sobre futuro – a epígrafe de William Gibson é uma falsa pista de ficção científica. 

É um bonde. Chamado desejo de escrita.