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Chacina eh Chacina (2025), de Paulo Nazareth, com intervenção gráfica de Nina Lins [Foto: Reprodução]
Postado em 30/10/2025 - 6:57
Arte como recusa do ethos fascista
Exposição Global Fascisms, em Berlim, leva a reflexões sobre fascismo em ações de Estado tirânicas; no Rio de Janeiro, mais de 120 homens são assassinados na operação policial mais letal já ocorrida no Estado e no Brasil

A violência como método de controle social é fascista. E a arte em contextos violentos, se lhe é permitido o luxo de existir, pode ser uma revolução sensível que alivia a dor e desperta a consciência crítica. As dinâmicas do fascismo como método e ethos são o cerne da exposição Global Fascisms (Fascismos Globais), na Casa das Culturas do Mundo/ HKW, em Berlim, com obras de cerca de 50 artistas de diferentes épocas e regiões do globo. O curador Cosmin Costinas assume o termo de modo provocativo para “falar de ‘fascismos’ no plural como a iteração histórica manifestada em muitas narrativas, às vezes concorrentes, nascidas de obsessões, invenções e ressentimentos locais”, e lembra que “cada uma delas tem raízes no nacionalismo, mesmo que pervertido e hipertrofiado”.

O percurso de Global Fascisms apresenta, em diferentes salas, trabalhos em várias mídias criados ao longo de um recorte temporal extenso, não cronológico, com peças criadas dos anos 1930 até hoje. O projeto traça diferentes linhas de continuidade e mudanças das dinâmicas operacionais do fascismo no mundo, e teve liberdade para agrupar desde pinturas da alemã dadaísta Hannah Höch, como Wilder Aufbruch (Partida Selvagem), 1933, até a tela O Sonho de Getúlio, 2025, do brasileiro Daniel Lannes. Dentre os artistas do Brasil estão ainda Anna Maria Maiolino, com a série Fotopoemação (1974) e Glauber Rocha, representado com uma versão editada, em vídeo, do filme Terra em Transe (1967).

Daniel Lannes, O Sonho de Getúlio 2 (2025) [Foto: Pedro Góes/ cortesia do artista]
Em sua seleção, a curadoria lembra que o fascismo não é uma força que venha de fora da sociedade, pois a sua moral supostamente virtuosa está presente em pessoas, estruturas, narrativas nacionais e mitos. De fato, táticas fascistas são observadas em práticas de opressão às minorias, na exaltação da guerra, do armamento, na arbitrariedade de decisões políticas drásticas, ou na invocação de um corpo popular (o “Povo”) unido por ideais nacionalistas.

TÁTICAS FASCISTAS SÃO OBSERVADAS EM PRÁTICAS DE OPRESSÃO ÀS MINORIAS, NA EXALTAÇÃO DA GUERRA, DO ARMAMENTO, NA ARBITRARIEDADE DE DECISÕES POLÍTICAS DRÁSTICAS, OU NA INVOCAÇÃO DE UM CORPO POPULAR (O “POVO”) UNIDO POR IDEAIS NACIONALISTAS
Vista da exposição Global Fascisms, Haus der Kulturen der Welt (HKW), 2025 [Foto: Mathias Völzke/HKW]

Global Fascisms oferece uma exploração fenomenológica do sentimento fascista”, aponta o escritor e jornalista alemão Georg Diez em Die Zeit. A mostra apresenta reflexões sobre procedimentos do fascismo em várias esferas e nuances, sem esquecer de suas origens na Itália e Alemanha nas primeiras décadas do século 20, mas também sem a intenção de ser um catálogo de movimentos fascistas do passado e atuais. Os trabalhos não são exatamente ativações ou representações literais contra estados autoritários, sendo expostos em uma arquitetura que suprimiu sumariamente das salas as fichas técnicas e quaisquer textos sobre as peças. O espaço torna-se denso pelas cores e iluminação, com uma constelação de obras tão sedutora como o próprio fascismo e sua mitologia de liberdade, honra e pureza.

Os conteúdos dos trabalhos por vezes são irônicos, grotescos ou dramáticos, exprimindo crítica e recusa do ethos truculento fascista presente em distintas sociedades. A instalação multicanal Las Cantatrices, 1980, do pioneiro artista multimídia e performático chileno Carlos Leppe (1952-2015), debocha de esquemas puritanos classistas e opressores, em um período ainda de ditadura militar no Chile. Sua presença patética e estridente é anti-establishment, assim como o personagem do sarcástico video Ornament is Crime (Ornamento é Crime), 2025, da dupla romena Mona Vătămanu e Florin Tudor. O conjunto traz muitas obras contundentes, cada uma à sua maneira, como as pequenas pinturas do belga Michaël Borremans, de crianças mutiladas brincando plácidas em Fire from the Sun (Fogo do Sol), 2017, ou a tela The Elite is Always in Danger (A Elite Está Sempre em Perigo), 1995, da austríaca Maria Lassnig (1919-2014). 

Maria Lassnig, Scaffold of the Elites / The Elite Is Always in Danger (1995). Maria Lassnig Stiftung. Cortesia de Capitain Petzel, Berlin

A exposição leva a reflexões sobre o fascismo em ações de Estado tirânicas, repressoras, frequentemente aliadas a fundamentalismos religiosos capitalistas, que amparam ecocídios, genocídios, discriminações e outros. Com o retorno da figura do líder autoritário viril, bélico e ambicioso neste século, o ativismo anti-fascista também ganhou novos prismas e comunidades. Por vezes, o termo tem o seu sentido histórico e operacional diluído no excesso de presença em nas redes sociais e panfletos. Contudo, a resistência se revigora diante do novo espírito brutal fascista, cujos discursos supremacistas meritocratas apoiam, por exemplo, execuções sumárias de civis pelo Estado como uma política de segurança pública, tal como acontece no Rio de Janeiro atualmente.

A RESISTÊNCIA SE REVIGORA DIANTE DO NOVO ESPÍRITO BRUTAL FASCISTA, CUJOS DISCURSOS SUPREMACISTAS MERITOCRATAS APOIAM EXECUÇÕES SUMÁRIAS DE CIVIS PELO ESTADO COMO UMA POLÍTICA DE SEGURANÇA PÚBLICA, COMO ACONTECE NO RIO DE JANEIRO
Carlos Leppe, still de Las Cantatrices (1980). Cortesia do Archivo Carlos Leppe

Na madrugada deste 29 de outubro, nos Complexos do Alemão e da Penha, mais de 120 homens foram assassinados na operação policial mais letal já ocorrida no Estado e no Brasil – que não tem a pena de morte no código das leis. Quatro policias foram mortos, considerados por parte da sociedade as únicas vítimas da ação. A moral fascista defende a família de alguns e executa a de outros, e sempre rirá da Declaração Universal dos Direitos Humanos, promulgada em 1948, quando o mundo era outro. 

Hoje, políticas de extermínio incentivadas pelo negócio da guerra urbana são exaltadas como plano de governo, plataformas eleitorais, enquanto escancaram fracassos administrativos crônicos. No caso do Estado do Rio, este foi tornado reduto de facções criminosas internacionais ainda nos anos 1980, e hoje concentra 43% das armas de calibre militar apreendidas ilegalmente entre 2024-2025 no país. O dinheiro do narcotráfico e do crime organizado está nas maiores cidades brasileiras sob as vistas de juízes, desembargadores, delegados, senadores, empresários, líderes comunitários, pais e mães, à luz do dia, há décadas. 

Politica de Terrorismo Publico (2025), de Paulo Nazareth [Foto: Reprodução]
A globalização é um fenômeno econômico, e quanto maior a rede de negócios ilícitos de armas e drogas pelo globo, com uso de mão de obra descartável nas favelas do mundo, mais abrangente se torna o problema. O fascismo é global, e o crime organizado também. No Brasil, como em outros países, uns acreditam que a via do massacre humano é a solução, enquanto outros defendem a vida desses adultos e o desmantelamento, de modo mais inteligente, de esferas pesadas de poder. Nessa inteligência, a arte como pedagogia crítica é via para reflexão política e histórica pela estética, o discurso e a ação, como lemos hoje nas manifestações de artistas como Paulo Nazareth, Castiel Vitorino Brasileiro, Jaime Lauriano, Márcia Falcão e Raphael Escobar.