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Se estiver vivo, dance (2023), de Maria Montero [Foto: Estúdio em Obra / Cortesia Sé Galeria]
Postado em 22/01/2024 - 5:24
Autobiografia de uma relação
Homenagem e epitáfio compõem individual de Maria Montero, até 27/1 na Sé Galeria

Prólogo. Nos primeiros e mais severos meses da pandemia da Covid-19, a artista e galerista Maria Montero viveu uma experiência tão profundamente pessoal quanto universal: a perda do pai, sem direito a velório e despedida. Ao longo dos três anos seguintes, anotações de uma vivência de luto redigiram uma homenagem que se consolida na forma de uma exposição-epitáfio. Chocolate Imaginário, individual da artista na Sé Galeria, em cartaz até 27/1, se organiza como a autobiografia da relação entre filha e pai. Cada obra pode ser lida como um capítulo dessa história.

O “texto”, disposto no espaço na forma de instalações, múltiplos e proposições, não é linear. A narrativa de uma vida não segue o tempo do relógio. É por isso que as horas e os ponteiros estão apagados na instalação A Hora Chega (2023), composta por três relógios despertadores mecânicos, pintados de branco. Embora visualmente muito sutil, localizada em um dos cantos da primeira sala, de silenciosa essa instalação não tem nada.  Pulsando em timings diferentes, os tic-tacs dos relógios criam uma sonoridade de ritmo descompassado e impreciso, como a vida.

Vista da exposição [Foto: Estúdio em obra / Cortesia Sé Galeria]
Nota de rodapé: A Hora Chega (2023) carrega em sua memória Perfect Lovers (1991), de Félix González-Torres (1957-1996), que utiliza dois relógios de parede, ajustados na mesma hora, como metáfora da sincronicidade e do amor. Ocorre que, como as pilhas não são iguais, um deles desacelera primeiro.

Capítulo 1. Infância. Ligue os pontos: nos anos 1980, quando não existia internet e telas touch screen, brincadeira de criança em dia de chuva era com papel, lápis de cor, revistinhas de colorir. Isn’t She Lovely (2023) traduz o jogo de ligar pontos em um objeto de parede, construído com pregos e lã de cores fluorescentes. A cor, aqui, é ainda um elemento que serve à construção da identidade do personagem protagonista desta autobiografia compartilhada: o pai, fotógrafo com pesquisa demarcada sobre a cor.

Ainda sobre cor e bolinho de chuva. No segundo andar, Top Hits (2023) expõe, em 20 desenhos com canetinha sobre papel, títulos e trechos das músicas que Maria escutava, dançava e cantava com o pai. A playlist toca no ambiente e funde-se com o tic-tac do andar de baixo. Cientistas dizem que a memória musical é das poucas coisas que não se perdem com a amnésia.

Top hits (2023), de Maria Montero [Foto: Estúdio em obra / Cortesia Sé Galeria]

Top hits (2023), de Maria Montero [Foto: Estúdio em obra / Cortesia Sé Galeria]
Capítulo 2. Juventude. Dançar nos mantém jovens por toda a vida. O projeto Se Estiver Vivo, Dance (2023) é composto por uma instalação com 25 bonés coloridos pendurados na parede e a proposição de uma ação. No espaço, o visitante encontra uma página com as instruções para a ativação da obra: “Este é um trabalho baseado na troca. Para receber seu boné, faça uma transferência de 150 reais para custeio de produção e envio. A troca consiste no envio de um vídeo ou de uma foto de você dançando com o boné”. Sua imagem poderá ser parte de uma performance coletiva postada em redes sociais.

Capítulo 3. Formação. Sequência de potes de vidro fechados com tampa metálica, contendo água e adesivo com a palavra “mente”, alinhados sobre uma estante de madeira que atravessa de fora a fora a parede sob a escada que leva ao segundo andar da galeria. Os anos de prática de meditação budista e de estudos de pós-graduação em neurociência estão contidos na instalação Mente (2023).

Se estiver vivo, dance (2023), de Maria Montero [Foto: Melissa Haidar / Cortesia Sé Galeria]
Capitulo 4. Partilha. O compartilhamento de experiências e de afetos move três trabalhos em formato de múltiplos. Duas mensagens de pêsames, reincidentes em comunicações digitais, compõem os objetos Sinto Muito (2023), em veludo negro bordado; e Meus Sentimentos (2023), corrente e pingente em versões ouro e prata, que imprime a frase no colo do usuário.

É múltipla também a influência da fotografia Beise (1994), de Fausto Ivan, sobre quem conviveu com ela. A imagem foi reproduzida em cartão-postal pelo pai de Maria Montero, nos anos 1990, e distribuída entre amigos, parentes, filhos, amigos de filhos.

Epílogo. Vida antes e depois da morte. Monumento ao Tubinho de Filme (2023), peça única, composta por um tubo de filme fotográfico 35mm cromado em cor de cobre, fecha a exposição. É uma síntese, uma esfinge. O Rosebud da exposição, o “chocolate imaginário” dessa autobiografia. Contém a vida do fotógrafo e uma memória de cheiro forte de erva. É o único trabalho que não está à venda. “É o meu monumento”, diz Maria.

Serviço
Chocolate Imaginário
Até 27/1
Sé Galeria, Alameda Lorena 1257, casa 2
São Paulo
segaleria.com.br