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Las Chicas del Chancho y el Corpiño, El Corpiño [The Bra] (1995/2025), de Kikí Roca, vista da instalação na 13ª Bienal de Berlim, KW Institute para Contemporary Art, 2025. © Kikí Roca, Las Chicas del Chancho y el Corpiño [Foto: Diana Pfammatter; Eike Walkenhorst]
Postado em 04/09/2025 - 8:36
Bienal anti-mainstream
Obras manufaturadas da 13ª Bienal de Berlim fazem refletir sobre o artista como artesão e operário das artes, consciente da luta de classes, anti-imperialista, resiliente

As Bienais de Berlim e de São Paulo têm histórias e escalas muito diferentes, ideais fundacionais quase opostos, e de tempos em tempos coincidem por alguns dias, tal como ocorre este ano. Em 14 de setembro, no encerramento da 13ª edição da bienal berlinense curada pela indiana Zascha Colah, a mostra paulistana já estará aberta ao público há uma semana, sob a curadoria de Bonaventure Soh Bejeng Ndikung, camaronês radicado na capital alemã.

A Bienal de Berlim foi lançada em 1998 como um projeto do curador Klaus Biesenbach, também mentor do KW – Kunstwerk, instituição de arte contemporânea instalada no prédio de uma antiga fábrica de manteiga no bairro de Mitte. A bienal berlinense surgiu em um fim de século marcado pelo final da Guerra Fria, discussões sobre identidade cultural e globalização, e a expansão das redes digitais. Com uma proposta experimental, a Bienal de Berlim até hoje não costuma alardear estrelas das artes, mantendo um ar de tubo de ensaio em proposições curatoriais menos espetaculares sustentadas por camadas conceituais, referências estéticas, históricas e políticas múltiplas. Para muitos céticos e críticos, no entanto, esse caráter faz com que a exposição ainda não tenha de fato relevância internacional, contrariando o que se espera da vibrante cena artística berlinense.

Por sua vez, a Bienal de São Paulo, fundada em 1951, nasceu de um projeto moderno idealizado pelo industrial ítalo-brasileiro Ciccilo Mattarazzo. A mostra paulista colocava a capital sul americana no mapa dos países desenvolvidos como o pujante projeto de uma primeira bienal de artes fora da Europa. Organizada por diretores artísticos que reuniam artistas a convite e por chamadas públicas, é com Walter Zanini, nos anos 1980, que se instaura um pensamento curatorial de fato. Em sua existência, a Bienal já atravessou diferentes períodos estilísticos e debates culturais e, como tudo que nasce no Brasil e permanece, a escala agigantada e a espetacularização também acompanharam o seu desenvolvimento. Hoje, ela é a segunda mais antiga bienal do mundo e um evento mainstream, como comprova a escolha do aclamado Bonaventure Soh Bejeng Ndikung, e seu projeto com extensa produção textual e número recorde de artistas.

Em Berlim, sob o título Passing the Fugitive on (Passar o Fugitivo), a proposta de Zascha Colah – profissional nascida em Mumbai e baseada na Itália, é poética e política, inspirada nas raposas fugidias, silenciosas, elegantes e astutas que habitam parques e ruas da capital. Com uma pesquisa em torno de práticas políticas diversas e transdisciplinares, de temas como críticas à globalização, identidade, descolonização e a interseção da arte com a justiça social, o argumento da curadoria tem um tom burlesco, humorado, e flerta com o grotesco.

Colah, como uma curadora-escritora, pensou uma mostra que é em si uma obra de ficção inspirada na vida real, com artistas maduros, alguns já históricos, cujas ações e obras afrontam estados de opressão, ditaduras e censuras em países como Mianmar, Argentina, Índia, Birmânia, Polônia, Coréia, Colômbia ou Itália. O Brasil não teve representante embora o Teatro do Oprimido de Augusto Boal seja uma referência curatorial e de alguns artistas. Por outro lado, a ausência de criadores palestinos ou israelenses não-sionistas indignou associações contra a ocupação de Israel em Gaza – tema tabu na Alemanha, levando a legitimidade do statement político da exposição a ser questionada.

SEGUNDA MAIS ANTIGA DO MUNDO, BIENAL DE SÃO PAULO É UM EVENTO MAINSTREAM, COMO COMPROVA A ESCOLHA DO ACLAMADO BONAVENTURE SOH BEJENG NDIKUNG E SEU PROJETO COM NÚMERO RECORDE DE ARTISTAS
Las Chicas del Chancho y el Corpiño, El Corpiño [The Bra] (1995/2025), de Kikí Roca, vista da instalação na 13ª Bienal de Berlim, KW Institute para Contemporary Art, 2025. © Kikí Roca, Las Chicas del Chancho y el Corpiño [Foto: Diana Pfammatter; Eike Walkenhorst]

No seu argumento, porém, a curadora explica que o seu interesse não é estético nem está de acordo com termos ou pautas identitárias, e de fato nota-se como ela delicadamente se desvia de interesses de mercado que engolfam as agendas políticas mais radicais. Ao mesmo tempo, tendo como metáfora a raposa, este animal ágil que passa rápido e se esconde, o posicionamento político da curadoria por vezes também é fugidio, difícil de ser alcançado de imediato.

Mas, o tom de provocação e resistência da 13ª Bienal de Berlim está lá, em trabalhos atuais e outros datados. O humor e o escárnio como procedimento estão presentes no coletivo birmanês Panties for Peace (Calcinhas pela Paz), cujo nome alude ao mito local de que um homem perde forças ao tocar na roupa íntima de uma mulher, ou nos argentinos do Colectivo Etecétera, e ainda Kikí Roca con Las Chicas del Chancho y el Corpiño, exibindo um gigantesco sutiã usado em protestos contra a violência machista e o patriarcado na Argentina nos anos 1990.

As muitas obras manufaturadas, quase artesanais da 13ª Bienal de Berlim fazem refletir sobre o artista como artesão e operário das artes, consciente da luta de classes, anti-mainstream, anti-imperialista, resiliente. De certa forma, a exposição lembra o projeto da Documenta 15, curada pelo coletivo indonédsio Ruangrupa, que gerou conflitos políticos reais no âmbito cultural alemão ao trazerem artistas com abordagem semelhante, entre eles palestinos e críticos ao sionismo. 

Como em tantas bienais internacionais, as histórias de sofrimento, morte, prisões, apagamento colonial e outras questões informadas em obras de arte nos comovem mas também lembram que elas não conseguem mudar o mundo como gostaríamos. Ao mesmo tempo, a 13ª Bienal de Berlim foi honesta no seu desinteresse em alimentar modas e a roda de glamour que silencia precariedades do sistema da arte, e igualmente violenta os artistas.