icon-plus
Independência ou Morte (1888), de Pedro Américo [Foto: Acervo do Museu do Ipiranga da Universidade de São Paulo]
Postado em 25/05/2023 - 6:28
Boi de piranha, gado de corte
Na história do Brasil, o boi representa a fixação do colono à terra. Foco de muitas práticas criativas, é mote de manifestações inofensivas e perversas

De espada em riste, impávido colosso, Dom Pedro I brada o “Grito do Ipiranga” aos oficiais militares que o circundam. Em meio a dezenas de quadrúpedes e bípedes, quatro bois à esquerda estão entre os poucos animais desatentos ao momento histórico. É como se nos olhassem de soslaio, como se habitassem o passado e o agora, lá e cá. Independência ou Morte (1888), pintura monumental de Pedro Américo (1843-1905), explicita o modo como o boi adentra na arte brasileira: nas margens, sem protagonismo. Não foi a primeira aparição da representação bovina no país, nem sequer na obra deste artista. Porém, é uma das mais significativas, pela maneira incontornável com que se insere no imaginário nacional.

A pintura é o carro-chefe do Museu do Ipiranga, reaberto ao público em ocasião do bicentenário da Independência do Brasil, em setembro de 2022. Nesse museu, o visitante mais apressado pode passar desapercebido pela tela Ciclo dos Criadores de Gado (1925), de João Batista da Costa (1865-1926), que traz a pecuária como tema central. Mesmo ali, os animais são meros coadjuvantes das três figuras humanas à frente.

Demasiado comum e estrangeiro, o boi talvez tenha sido um animal desinteressante para constar no primeiro plano da pintura acadêmica nacional. Contudo, na história do Brasil, ele representa a própria fixação do colono à terra. Durante séculos, a pecuária rudimentar foi um dos poucos meios para o avanço da empresa colonial sobre as paisagens nativas. Nas margens ou no centro, a imagem do boi na arte se atrela a aspectos fundamentais da sociedade brasileira.

Ciclo dos Criadores de Gado (1925), de João Batista da Costa [Foto: Acervo do Museu do Ipiranga]

Cultura do gado

Fora da arte especializada, nos rincões da “cultura popular”, o boi esteve no foco de muitas práticas criativas. Ele é o mote de manifestações que vão de inofensivas a perversas, como os bois-bumbás, as vaquejadas, os rodeios, a farra do boi. No Brasil rural, o gado bovino e sua paisagem campestre assumem a condição de símbolo das sociedades sertanejas, em oposição implícita a símbolos urbanos de modernidade e progresso.

Ao se tornar a base da economia nessas fronteiras de ocupação dos Brasis, a pecuária ajudou a pautar não somente a estrutura política daquelas sociedades, mas também a sua organização simbólica. Por isso, a cultura do gado (enquanto criação bovina) é, quase sempre, acompanhada por outra “cultura do gado” (de práticas simbólicas) e por uma “cultura caubói” – dois conceitos do antropólogo Jeffrey Hoelle, que estuda o fenômeno no livro Caubóis da Floresta: O Crescimento da Pecuária e a Cultura de Gado na Amazônia Brasileira.

Comparados aos artistas acadêmicos, os modernistas deram maior atenção à cultura do gado, pois o interesse na “brasilidade” emanada do povo os fez buscar o mundo interiorano com avidez. Veja-se como exemplos as pinturas Paisagem com Touro (1925), de Tarsila do Amaral (1886-1973), e Boizinhos (1938), de Portinari (1903-1962), em que o boi foi manejado como um dos símbolos desse outro Brasil, bucólico, não hegemônico e um tanto idealizado.

 

Boizinhos (1938), de Candido Portinari [Foto: Acervo do Projeto Portinari]
Paisagem com Touro (1925), de Tarsila do Amaral [Foto: Acervo da Casa Roberto Marinho]

Sociedade do boi

A pecuária ajuda a compreender o país e suas contradições, ligada como está às práticas latifundiárias e à desigualdade social decorrente delas. Artistas visuais já enfrentaram a questão, deslocando a imagem bovina da cultura sertaneja para enunciados críticos. Humberto Espíndola foi um dos primeiros a captar a lógica e as transformações da pecuária brasileira.

Criado em Campo Grande, então Mato Grosso, Espíndola ruminou a intensa pecuarização local e, no final dos anos 1960, formulou uma “poética do boi”. A série Bovinocultura (1968) traz seus trabalhos iniciais, em que o gado é signo político e controverso, como na alegoria da economia pecuarista de Bovinocultura IV (1968). O olhar enfurecido dos touros do artista muito se diferencia do olhar apático da rês nas representações acadêmica, modernistas ou das manifestações populares.

Espíndola tem se concentrado no tema por décadas, mantendo uma relação ambígua com a bovinocultura brasileira. O conjunto de sua obra corporifica um embate entre representações convenientes à cultura do gado e outras, mais críticas às dinâmicas do agronegócio na sociedade brasileira.

Outros artistas problematizaram o boi nas últimas cinco décadas, indicando que essa questão tem se fortalecido. É bem-vinda a tarefa de arrebanhar essa produção e indagar o que pode nos dizer o gado à nossa frente.

É bem-vinda a tarefa de arrebanhar essa produção e indagar o que pode nos dizer o gado à nossa frente
Bovinocultura IV (1968), de Humberto Espíndola [Foto: Acervo do Museu de Arte Moderna de São Paulo]

O Agro é Pop

Desde o século passado, as políticas desenvolvimentistas têm empurrado a fronteira do agronegócio para o interior do país, em uma “Marcha para o Oeste” que atropela paisagens nativas, populações indígenas ou mestiças e economias extrativistas baseadas na floresta. Tudo isso cheira a atraso para quem quer uma produção agrária racionalizada e moderna, que maximize lucros.

Os bois antropomorfos ou fitomorfos, comuns na produção de Hélio Melo (1926-2001), parecem uma resposta a esse processo. O artista fez da experiência de vida nos seringais do Acre o assunto e o pigmento de suas pinturas. Em A Transformação da Seringueira I (1989), o animal-árvore gera uma imagem sarcástica desse avanço do agronegócio sobre paisagens, populações e economias locais.

Artistas indígenas contemporâneos também têm construído representações contra hegemônicas da chegada de rebanhos nas suas terras. É o que faz Denilson Baniwa em O Minotauro (2018). Ao flechar o boi-homem, o artista retira os indígenas da passividade e concebe uma imagem de resistência. A obra dá a entender que, para os povos afetados pelo agronegócio, a conciliação de classes pretendida nos projetos políticos brasileiros é um desafio insolúvel. Os mundos já estão em guerra. E mais: ao criar padronagem com a frase “o agro é pop”, Baniwa vincula o boi ao presente, indicando a atualidade da pecuária como problema social e atacando a dimensão de inocência nas representações pastoris tradicionais que se pretendem a-históricas.

O avanço do agronegócio foi incrementado por inovações tecnológicas, que ampliaram os ganhos dos grandes criadores de gado e sua participação no mercado internacional, consolidando o poder desse grupo como parte da burguesia brasileira. Não à toa, ele integra o trio de bancadas conservadoras “da bala, do boi e da bíblia” no parlamento brasileiro, que tem atuado em bloco por uma agenda de extrema direita.

A Transformação da Seringueira I (1989), de Hélio Melo, Nanquim e extrato de folhas sobre tecido [Foto: Almeida & Dale Galeria de Arte]
O Minotauro ou Mánhene (o veneno do mundo) (2018), de Denilson Baniwa
Created with GIMP

A tríade BBB foi explorada na série Monumento à Independência (2022), do goiano Hal Wildson. O artista visitou a história das bandeiras brasileiras para recosturar seus elementos em uma heráldica cheia de ironia sobre o Brasil atual. Monumento à Independência III (2022) trabalha sobre a estrutura da bandeira imperial criada por Jean-Baptiste Debret no século 19. Alguns elementos são mantidos, como as cores das Casas de Bragança e Habsburgo, a coroa real e a esfera armilar; outros, porém, são substituídos por uma simbologia provocativa. Os ramos de café e tabaco dão lugar a ramos de soja, dois fuzis e o emblema do Exército Brasileiro. Ao centro da composição repousa uma vaca cuja mancha principal forma o mapa do país.

Em tempos de “agro é tech, agro é pop, agro é tudo”, o significado do boi no imaginário nacional mudou: ele se tornou um animal explicitamente político. Hoje, a pecuária perde sua conotação bucólica e vira símbolo de um processo mais amplo de concentração fundiária, derrubada das florestas para cultivo de monoculturas e implementação dos chamados grandes projetos, malgrado os impactos sociais e ambientais provocados.

É muito sugestivo que o bicentenário da Independência tenha colocado, para o debate público, os bois escanteados de Pedro Américo lado a lado com os bois centralizados por Hal Wildson. Trazida ao primeiro plano, a imagem bovina representa, cada vez mais, esse projeto específico de financeirização da terra, da água, das plantas e dos animais, integrado ao mercado capitalista global.

Gil Vieira da Costa participou do Laboratório de Escrita Crítica e Editorial da seLecT_ceLesTe, na plataforma Zait. É professor doutor Adjunto na Unifesspa (Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará), vinculado ao ILLA (Instituto de Linguística, Letras e Artes) e atuando na FAV (Faculdade de Artes Visuais). Autor do livro Espaços em Trânsito: Múltiplas Territorialidades da Arte Contemporânea Paraense (2014). Vive e trabalha em Marabá, Pará

Em tempos de “agro é tech, agro é pop, agro é tudo”, o significado do boi no imaginário nacional mudou: ele se tornou um animal explicitamente político