“A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar”
Fernando Birri, citado por Eduardo Galeano em Las Palabras Andantes
Para os Guarani, nhe’ẽ significa ao mesmo tempo palavra, ser, espírito. Está ligado ao teko e ao tekoa, que é o modo de ser e viver coletivamente. Na cosmovisão desse povo milenar, a existência é a metáfora do caminho – tape. Caminhar – guata – é a própria essência do viver. E para onde se caminha? Para um horizonte, o tenonde, que poderíamos traduzir como “futuro inacabável”. Um futuro que não é ponto fixo nem promessa distante, mas movimento constante e cíclico em direção ao tenonde porã – o bom e belo porvir.
Se a “utopia” não está fora do mundo, mas inscrita no trilhar da vida, ela não é um fim inalcançável, uma quimera, mas sim uma prática compartilhada de deslocamento, escuta e presença. Ela serve, como diz Birri, para que não deixemos de caminhar. Para os Guarani, caminhar é existir em relação entre todos os seres humanos e não humanos, é tecer a palavra-ser-espírito, nhe’ẽ, em direção ao bem comum. Não a um fim, mas a um futuro cíclico, no tempo da natureza. O futuro bom e belo (porã eté) só pode existir se for coletivo: se todos chegarem juntos nesse horizonte. O futuro, então, passa a existir: ele é processo contínuo de acordar memórias e criar essa tecedura do horizonte.
O tape não é apenas o percurso, mas a estrutura que sustenta toda a história dos Guarani em seu território Yvyrupa (hoje conhecido como Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai e Bolívia). Sua origem está na narrativa de Nhandecy Eté: a primeira mãe, a própria Terra. Por isso, para os Guarani, as mulheres são as donas dos caminhos que interligam todo o continente.
COSMOGEOMETRIA DAS ESCRITAS
“A quimera abstrata ameríndia é, antes da imagem, a representação das relações expressas pela imagem. Na arte amazônica, as linhas chamam a atenção para o que conecta, não para o que separa corpos e seres distintos. Aponta para a relação entre díades complementares como homem e mulher, humano e espírito. O que se desenha é, antes da forma, a relação que conecta e constitui”
Carlos Severi e Els Lagrou, em Quimeras em Diálogo
A arte também está, principalmente, no domínio das mulheres indígenas. A pintura corporal, a cerâmica, a cestaria e o tecido – que por milênios guardaram na geometria sagrada a memória ancestral – são formas criadas coletivamente por mulheres indígenas para que, vestidas de pinturas sagradas, os corpos humanos possam fazer parte da teia de relações que compõem as florestas.
Os grafismos ou padrões geométricos funcionam como expressão artística e como escrita das cosmovisões indígenas. São vestimentas, proteção espiritual e mediação entre mundos. Representam peles de cobras, cascos de jabutis, escamas de peixes, olhos de pássaros, fases da lua, percursos dos rios, constelações, e a sabedoria das plantas – como a sumaúma, maior árvore da Amazônia, ou o feijão, cujo padrão para os Awaete (Assurini do Xingu) significa o poder de vencer demandas para crescer e por isso ajuda que o adornado com esse padrão encontre o verdadeiro caminho. A arte é, portanto, uma palavra-ser-espírito que anda lado a lado om a utopia, redesenhando caminhos, corpos, territórios.
A cosmopercepção indígena ensina a pisar leve na Terra, respeitar o espaço de cada ser – humano ou não humano – e perceber nos padrões das relações a beleza da continuidade da vida. A arte indígena é manifestação dessa sabedoria, compreendendo o tempo cíclico. A cosmogeometria é criada para expressar a relação indissociável entre os corpos dos espíritos da floresta, da Terra, de nossa existência. Não existe separação entre o que somos e os peixes, as aves, as árvores, as pedras, os rios. Somos partes de uma dança cósmica que precisa ser escutada, vista e respeitada. É preciso que o mundo aprenda a ler a beleza da cosmogeometria das escritas indígenas – outra maneira de entender os padrões das relações entre os seres e o corpo da Terra.
Para aqueles que não têm essa vivência, é necessário escutar os que têm – os povos indígenas e outras populações que sempre souberam proteger esse equilíbrio vital. A Terra é o corpo mãe, e o bem-estar dos seres humanos depende primeiro do bem-estar da Terra. A Amazônia deve ser preservada, por ser a maior floresta tropical do mundo, mas também a Mata Atlântica, quase toda destruída (restando menos de 8% desse bioma no Brasil), por ser a floresta mais biodiversa do planeta. Nelas existem comunidades indígenas, quilombolas e tradicionais que sabem como caminhar para garantir o futuro do útero da Terra.

Foi a destruição da Mata Atlântica que permitiu o surgimento do sistema capitalista e a riqueza do Hemisfério Norte, por meio da escravização de povos indígenas e africanos, da transformação da floresta em mercadoria e do apagamento dos saberes ancestrais. Assim se desenhou a geometria do poder colonial que hoje ameaça a continuidade da vida.
Sandra Benites, Guarani Nhandeva, curadora e Diretora de Artes da Funarte, afirma que a colonização gerou não apenas outros padrões sobre a Terra, mas também sobre as nossas mentes: impôs a ideia de perfeição e a noção de utopia imóvel. Tudo que escapa a esse esquema é inferiorizado, descartado, destruído. Essa é a geometria da colonização. “Você não pode distorcer. A grafia precisa ser certinha. Mas a gente olha essa imagem criada e percebe que a gente não é assim. A marca da humanidade e de todos os seres da Terra é a imperfeição. Nenhum é igual ao outro. A lógica da imperfeição é o que nos leva a refletir e caminhar coletivamente”, afirma Benites.
“A geometria indígena é do encaixe. O encaixe acontece pela escuta – o rendu. Perceber a especificidade é afirmar a beleza da distorção. Distorcer não é erro: é resultado da afirmação de que cada um puxa seu próprio fio no desenho do todo. As linhas dos grafismos indígenas revelam fronteiras que coexistem. Esta é a beleza: não colonizar o outro, mas respeitar suas fronteiras”, prossegue ela.
A ideia de perfeição é uma herança do pensamento colonial. A ideia de ordem bloqueou os saberes indígenas e dos povos da floresta. Mas o que é organização para um olhar pode ser desorganização para outro. O mundo está adoecido por esse ideal de perfeição, da utopia como algo inalcançável e imóvel. Queremos discutir as fronteiras, os limites, até onde o outro pode atravessar nossos corpos e histórias e como caminharemos juntos para esse horizonte.
Sandra conclui: “O futuro para os juruá (não indígenas) é olhar o tempo sem entender o horizonte. Para eles, o futuro é olhar apenas o reto, não são capazes de ver no passado e movimentar esse passado para a frente de forma cíclica. Para nós, a cosmogeometria é olhar esse horizonte e entender que o futuro está associado com a memória do passado em movimento. Para nós, indígenas, a paisagem não pode ser desassociada da nossa própria existência, e não conseguimos tirar fora nosso corpo dessa paisagem, muito menos desse movimento cíclico do tempo, que é o pulsar da própria natureza. Esse movimento é associado a tudo que somos. Para os juruá existe uma geometria capitalista, que desassocia corpo e paisagem, que classifica o que é vivo, que desassocia o tempo… porque o tempo, para eles, é lucro. Então, transformaram o corpo e a própria vida deles como máquinas. Eles chamam de geometria a forma que conduz a máquina, então toda essa noção de geometria ocidental está ligada à forma de manipular aquilo que não tem espírito e que, inclusive, ‘come’ os espíritos, porque essas máquinas comem o espírito da natureza, do rio, dos animais e das pessoas. A máquina é engolidora de espíritos. As cosmogeometrias são nossa forma de entender o tempo, que é um momento de transição, e de respeitar esses espíritos”.
A UTOPIA É IMPERFEITA
É preciso desconstruir esse olhar não indígena que busca padrões perfeitos. O grafismo indígena não é perfeito: ele tem um princípio, mas se transforma durante a sua feitura – e é essa transformação que o torna belo.
Assim também deve ser a construção do Teko Porã, o Bem-Viver: algo comum a ser levado adiante, mas com consciência da diferença. A distorção é renovação – como a pele da cobra que se troca.
Somos guardiões do corpo-território onde se concentra a maior diversidade de vida da Terra. A floresta é criação cultural milenar dos povos indígenas. Precisamos desenhar novas possibilidades de relação entre Norte e Sul, preservar a vida, libertar os padrões. A arte contemporânea tem um papel importante, pois abre espaço para que coletivos de mulheres indígenas ressignifiquem o padrão imposto a elas de produzir apenas “artesanato”. Mulheres indígenas produzem cosmogeometrias, escrevem cosmovisões.
Nós, escritoras deste texto, estamos numa luta para que mulheres como as do Parque do Tumucumaque possam ser escutadas através da arte contemporânea. Foi assim que o Coletivo AMITIKATXI, em parceria com Instituto Iepé e Cecília de Santarém, criou a primeira obra de arte contemporânea desse coletivo, que circulou por exposições internacionais. Talvez isso não importe para os não indígenas, mas para elas se abriu um caminho importante, e isso é a utopia. Isso é caminhar juntos para o Tenonde Porã. A utopia é imperfeita, é uma gambiarra do agora: ela requer o movimento de se refazer e recriar o tempo todo.