Nós, membros do Fórum do Plano Museológico e da Comissão de Implantação do Plano Museológico do Museu Nacional dos Povos Indígenas (MNPI) (Museu do Índio/RJ), viemos a público manifestar nossa profunda preocupação diante do recente anúncio da mudança em sua direção e do possível afastamento de sua atual diretora, Lucia Fernanda Kaingang, por conta de sua aprovação no Concurso Nacional Unificado (CNU) para a FUNAI, com lotação prevista para a Coordenação Regional de Cuiabá (MT).
O Plano Museológico é resultado de um processo histórico, coletivo e inédito de construção protagonizado por representantes de diversos povos indígenas do Brasil. O plano reflete não apenas diretrizes técnicas, mas principalmente uma visão indígena sobre o papel, a gestão e o futuro deste Museu, construído com base na escuta, no diálogo e na participação efetiva.
Nesse contexto, é imprescindível reconhecer o papel estratégico da atual diretora na reestruturação e reabertura do Museu, bem como no processo participativo que culminou na elaboração do Plano Museológico. Sua atuação tem sido marcada pelo respeito, pelo compromisso com o protagonismo indígena e pela mediação qualificada entre o Estado e os povos indígenas. Sua permanência na direção é, portanto, fundamental para assegurar a continuidade e a fidelidade do processo de implantação do Plano.
Em apenas um ano e meio à frente da direção do Museu dos Povos Indígenas, Fernanda Kaingang tem transformado a Instituição em um verdadeiro espaço de escuta, memória e protagonismo dos povos indígenas. Sua atuação firme e comprometida resultou em avanços históricos. O Plano Museológico é um marco inédito e fundamental para a consolidação da identidade e da missão do museu. Além disso, Fernanda tem promovido a valorização das lideranças indígenas, fortalecido o diálogo com os territórios, incentivado a presença dos indígenas na gestão cultural e garantido que o museu se mantenha vivo, conectado às realidades e lutas dos nossos povos.
Reconhecemos, parabenizamos e reafirmamos: é essencial que Fernanda Kaingang permaneça na direção do Museu dos Povos Indígenas. Sua continuidade é uma garantia de que esse processo histórico seguirá sendo conduzido com responsabilidade, ancestralidade e coragem.
A possibilidade de substituição neste momento nos causa grande apreensão.
A saída da atual diretora, sem diálogo com os povos indígenas, os membros do Fórum do Plano Museológico e da Comissão indicada para acompanhar a implantação, pode significar uma ruptura com os princípios pactuados, desmobilização das ações em curso e retrocesso no protagonismo indígena na gestão do Museu.
Reafirmamos:
Que o Museu Nacional dos Povos Indígenas é um espaço dos povos indígenas, e deve ser gerido por indígenas, com transparência, respeito e participação;
Que a implementação do Plano Museológico depende da continuidade das ações já iniciadas sob a atual direção;
Que a manutenção da atual diretora à frente do Museu é estratégica e desejada pelos povos indígenas envolvidos no processo;
Que qualquer mudança na gestão do Museu deve ser precedida de ampla consulta, prévia, livre, consentida e informada às representações indígenas que integram o Fórum e a Comissão de Implantação.
Nós, representantes dos povos indígenas participantes e organizados no Fórum e na Comissão, juntamente com parceiros/as, órgãos e instituições apoiadoras, reafirmamos nosso compromisso com a continuidade do processo e solicitamos, com urgência, abertura de diálogo com o Ministério da Cultura e demais instâncias envolvidas, a fim de garantir que os rumos do MNPI sigam em coerência com os princípios e compromissos firmados com os povos indígenas do Brasil.
Assinam esta Carta Aberta – Pessoas, Povos, Organizações, Instituições e Coletivos
1. Membros do Fórum do Plano Museológico do MNPI
2. Membros da Comissão de Implantação do Plano Museológico do MNPI
3. Joana Euda Barbosa (Hireki Munduruku) – Fórum do Plano Museologico e da Comissão de implantação do Plano Museológico
4. Márcio kókoj Kanhgág – DIRETOR/PRESIDENTE ONG UIRAPURU
5. Darlene Yaminalo Taukane – Instituto Yukamaniru de Apoio às Mulheres Indígenas Bakairi
6. Anna Tornaghi – Oxímoro – design para culturas regenerativas
7. Juciene Ricarte Cardoso Tarairiú – Coordenadora do Grupo Internacional Seminário Permanente Mundos Indígenas, CHAM – Universidade Nova de Lisboa, PT e PPGH-UFCG, Brasil
8. Alexandre Gomes – Coordenador da Escola Livre de Museologia Política/PE, assessor da Rede Indígena de Memória e Museologia Social e do Museu dos Kanindé, pesquisador do NEPE/UFPE
9. Roberto Kennedy Gomes Franco – coordenador da Licenciatura Intercultural Indígena – UNILAB
10. Rosaldo de Albuquerque Souza – Povo Kinikinau MS
11. Benilda Vergilio – artista, povo Kadiweu
12. Ronaldo Siqueira Kapinawá – Memorial Diniz Alexandre (Museu Kapinawá) e Rede Indígena de Memória e Museologia Social – Núcleo Pernambuco
13. Cacique Ninawa Inu Pereira Nunes Huni Kui _ presidente da Federação do Povo Huni Kui – Acre
14. SHYRLENE OLIVEIRA DA SILVA HUNI KUI – Sócio ambiental e Cultural instituto Inu
15. Grupo Interdisciplinar Marxista/GIM/UNILAB
16. Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre etnicidade do Programa de Pós Graduação em Antropologia da Universidade Federal de Pernambuco – NEPE/PPGA-UFPE, Recife/PE
17. Memorial Diniz Alexandre (Museu Kapinawá) – Buíque/PE
18. Mabel Francisca Fernandes de Almeida, Povo Apurinã – Coordenadora Secretária da UMIAB
19. JULIANA MAYURUNA-Coordenadora do projeto javari-vale da arte/UNIVAJA
20. Josias Jordão Ramires – cacique da aldeia Marçal de Souza – Campo Grande -MS
21. Eliane Xunakalo – Presidente da Federação dos Povos e Organizações Indígenas de Mato Grosso – FEPOIMT
22. Cacica Cunllugn Xokleng Konglui
23. Cacique Manoel Muniz de Andrade – Cacique da *Aldeia Água Vermelha, liderança tradicional do povo Pataxó Hã Hã Hãe, atuante no Território Caramuru Catarina Paraguaçu – Pau Brasil/BA.
24. Jadiel Pataxó – Ativista, cantor, compositor, produtor musical – Aldeia Água Vermelha, Território Caramuru Catarina Paraguaçu – Pau Brasil/BA.
25. Cacique Nailton Muniz Tupinambá – Liderança indígena da Aldeia Caramuru, sul da Bahia.
26. Maria Muniz Mayá Tupinambá – Mestra, escritora e anciã do povo Pataxó Hã Hã Hãe, residente na Aldeia Milagrosa, Pau Brasil/BA
27. Vereador e Cacique Fábio Titiah – Liderança do povo Baenã Hã Hã Hãe, da Aldeia Água Vermelha, Território Caramuru Catarina Paraguaçu – Pau Brasil/BA.
28. Professor Adauto Tupinambá – Professor da língua Tupi, atuante na Aldeia Água Vermelha, Território Caramuru – Pau Brasil/BA.
29. Cleybes Pataxó – Artesão indígena da Aldeia Água Vermelha, Território Caramuru Catarina Paraguaçu – Pau Brasil/BA.
30. Mucunã Pataxó – Artesão da Aldeia Caramuru Catarina Paraguaçu, Pau Brasil/BA.
31. Paulo Titiah – Liderança indígena e artesão da Aldeia Baenã, Território Caramuru Catarina Paraguaçu – Bahia.
32. Eliete de Caatiba – Representante da Comunidade Indígena Rio do Ataque e Serra de Flechas, no município de Caatiba/BA
33. Cacique Fumaça – Liderança da Aldeia Serrana do Ouro, no município de Itaju do Colônia/BA, pertencente aos povos Kariri-Sapuyá e Pataxó Hã Hã Hãe
34. Raial Orutu Puri – liderança do Grupo Krauma Puki (Povo Puri)
Para aderir à CARTA ABERTA