Sobre o Cálculo do Volume
Solvej Balle, Trad. Guilherme da Silva Braga, Editora Todavia, 152 págs., R$ 69,90
Espécie de Dia da Marmota literário, esta obra em sete volumes é narrada por Tara Selter, que está presa no dia 18 de novembro. Ela tenta desvendar por que fica parada no tempo, enquanto anos (isso mesmo!) se passam. Em comparação com O Feitiço do Tempo, pode-se dizer que, enquanto o filme mostra o que o indivíduo faz no Dia da Marmota, o livro da dinamarquesa Solvej Balle mostra o que o indivíduo sente no Dia da Marmota. No turbilhão de autoconhecimento e impotência para mudar os rumos da própria vida, eis que cada um é refém de seu Dia da Marmota. A Todavia publica os dois primeiros volumes de 4 já escritos.
O Acontecimento da Literatura
Terry Eagleton, Trad. Thomaz Kawauche, Editora Unesp, 320 págs., R$ 74,00
A Editora Unesp já trouxe outras traduções do filósofo e crítico literário Terry Eagleton, nas quais fica clara a sua aptidão em destrinchar conceitos e construir um panorama acessível de suas abordagens na história da filosofia. A mesma qualidade de sua escrita está presente aqui. Eagleton constrói a tese de que a tensão com a realidade leva às transformações da literatura – um encontro que ele chama de “acontecimento”. Com fluidez, o livro serve como uma boa introdução para temas caros aos estudos literários.

Terreno Baldio
Carmela Gross e Paulo Miyada, Edições Sesc, 96 págs., R$ 95,00
Inaugurando a publicação de livros-obra pelo Sesc, Terreno Baldio contém dois momentos. O primeiro reproduz em escala real 24 desenhos inéditos que Carmela Gross produziu analogicamente em 1993 e editou digitalmente em 2023, sobrepondo uma colorização monocromática sobre as linhas de caneta, o pó de grafite e a resina. A segunda parte leva uma conversa ilustrada de Gross com o curador, arquiteto e urbanista Paulo Miyada sobre relações entre cidade e processo artístico. Esses dois momentos são independentes; a publicação começar pela série de desenhos, dispostos sem mediação textual, justifica a classificação como livro-obra mais do que seu ineditismo.
Examining Myself and Others: Victor Arruda and Carroll Dunham
Dan Nadel , Victor Arruda e Carroll Dunham, Almeida & Dale, 53 págs.
O catálogo reproduz as obras presentes na exposição e abre com uma conversa do curador com os artistas. Ambos trabalham desejos e impulsos marcados por um genitalismo e uma masculinidade agressiva que tendem à autoimplosão. A publicação não ordena as obras em diálogo, mas contém as vistas de sua disposição na galeria para indicar relações possíveis, deixando as outras por conta do leitor. A ideia original de autorreflexão transpõe-se na versão impressa através da capa espelhada, fortuitamente adicionando a distorção da imagem pelo espelhamento imperfeito do material. Vale conferir a versão digital, disponibilizada gratuitamente no site da Almeida & Dale.
Direito à Memória: Arte Afro-Brasileira, Indígena e Outros Modernismos
Lilia Schwarcz, Almeida & Dale Galeria, 160 págs.
Inspirada pelo ambiente modernista da casa projetada por Jorge Zalszupin em 1960, o livro documenta a mostra que dispõe de um diálogo entre a tradição e o contemporâneo. Com curadoria de Lilia Schwarcz, Direito à Memória retoma o conceito de modernismos dissidentes da arte afro-brasileira e indígena, visando reparar sua memória que foi silenciada e incorporá-la ao contexto clássico da Casa modernista.
Nosso Corpo Estranho
Reginaldo Pujol Filho, Fósforo, 120 págs., R$ 69,90
Em um exercício de imaginação, Reginaldo Pujol Filho nos convida a viajar pela trajetória do artista João Pedro, narrativa que se apropria da linguagem da crítica de arte para contar a história do personagem consequente de sua invenção. Ao assinar a curadoria de sua exposição retrospectiva, o autor percorre os textos de parede e obras – inexistentes –, questionando os limites dos mecanismos da ficção e, propriamente, das capacidades do recurso literário.
ISAY W.
Isay Weinfeld, Oscar Riera Ojeda Publishers, 416 págs., R$ 250,00
Durante uma década, entre 2013 e 2023, o arquiteto Isay Weinfeld fotografou diversos elementos do cotidiano em São Paulo com o celular. Ao fim do processo que o levou em direção aos limites da cidade, em busca de detalhes despercebidos nas ruas, como placas, grafittis e minuciosos detalhes arquitetônicos, o livro organiza as imagens em pares aproximados pelas cores, formas ou temas, possibilitando novas leituras de seu olhar sobre o centro urbano.
Paulo Bruscky: Atitude Política
Jacopo Crivelli Visconti, Instituto de Arte Contemporânea, 80 págs.
A partir do recorte de uma coleção de milhares de itens constituída ao longo de cinco décadas de pesquisa pelo artista multimídia e poeta Paulo Bruscky, o catálogo da exposição reúne trabalhos das mais importantes vanguardas do século XX. Com curadoria de Jacopo Crivelli Visconti, o projeto traz como eixo a colaboração do artista com colegas ao redor do mundo que enfrentavam, como ele, as ameaças e os perigos de regimes opressores.

Catástrofe Ancestral: Existências no Liberalismo Tardio
Elizabeth A. Povinelli. Trad. Mariana Lima e Mariana Ruggieri, Editora Ubu, 256 págs., R$ 79,90
As catástrofes já não estão anunciadas para um momento no futuro. Elas já aconteceram há bastante tempo. Também autora de Geontologias: Um Réquiem para o Liberalismo Tardio (2023), também publicado pela Ubu, a filósofa e antropóloga estadunidense Elizabeth A. Povinelli parte novamente da convivência com povos aborígenes australianos para fazer frente às lógicas do capital por meio de saberes ancestrais. Mas a ancestralidade do título é outra, remonta às guerras coloniais e à expropriação de muitos séculos que iniciam o processo de degradação do planeta, que nos dias atuais resulta em cataclismo ambiental. O livro critica as abstrações do planetário e do humano, que escondem a “violência liberal tardia”.