Aberta na quarta-feira, 28/5, a ArPa 2025 trouxe uma edição mais consistente que o esperado para uma feira. Por um lado, essa é a vitória de sua curadoria, que transforma a separação espacial dos setores em uma oportunidade de comportar projetos em linhas muito distintas sem gerar uma experiência esquizofrênica para o visitante. Nesse sentido, a curadoria do Setor UNI pela colombiana Ana Sokoloff traz várias individuais que dialogam artistas internacionais e nacionais, cujo trabalho se fortalece dentro do contexto das pesquisas artísticas. É o caso do estande da galeria argentina Ruth Benzacar, que ambienta as máscaras e desenhos de Florencia Rodríguez Gilles como uma fantasia disruptiva das entidades femininas e queer, repelindo leituras exotizantes; ou do estande da Marli Matsumoto Arte Contemporânea, onde a pesquisa construtiva de Mayara Redin está explícita nos rebatimentos entre objetos e seus procedimentos: o corte, o encaixe, o relevo, o cavar. Como pontua a curadora para a nossa newsletter Sextou!, em entrevista a Juliana Monachesi, os estandes da UNI não representam um movimento, mas possuem uma linha de força enquanto comentários sobre estruturas sociais atuais.
A coesão do Setor UNI, é claro, pode não existir no Setor Principal, mas tendências comuns acabam gerando diálogos entre estandes. Se fizermos uma extrapolação da última grande feira de arte em São Paulo, a SP-Arte, veremos que aquilo que continua o mesmo nos dá pistas sobre o que mudou. Não é novidade que a pintura é a maior fonte de vendas, de acordo com a última pesquisa setorial do mercado brasileiro, realizada pela ABACT com a Apex Brasil, compondo cerca de 57% das vendas das galerias. Mas não apenas a última. Digamos que a “tendência” se aplica a todas os anos e segmentos do mercado de arte, desde que esse tipo de pesquisa foi instituída. Explica-se assim que a pintura seja o meio majoritário nas feiras de arte. Observamos, então, um aspecto peculiar da pintura – e de outros meios bidimensionais, como a fotografia ou uma certa “escultura de parede” – que se apresenta nesta edição da ArPa. A pintura que “escreve”, faz uso da palavra.
Em registros poéticos, irônicos, construtivos ou jornalísticos, obras presentes nesta ArPa trazem a palavra como camada de linguagem, evocando leituras complexas ou conflitantes e abrindo caminho para releituras. Trazemos aqui uma seleção de trabalhos que constroem suas próprias articulações entre palavra e forma.
PERTURBAR A PAZ DO SENHOR (2021-2025), de Ventura Profana
FORMATOCOMODO
Uma das muitas galerias estrangeiras a participar desta edição, a espanhola FORMATOCOMODO vem ao Setor Uni com individual da brasileira Ventura Profana. A artista e pastora traz uma contra-pregação em texto feito com grama artificial, nos urgindo em caixa alta à perturbar a paz. Seu senhor é figura de linguagem com ao menos três leituras possíveis aqui: o senhor Deus, o senhor patrão e o senhor, você mesmo que lê. Com a forma de um painel motivacional – do tipo que é usado para projetos de decoração de espaço de selfie em academias e cafés –, adiciona-se ao texto um complemento em inglês, ornando com o bilinguismo gratuito do coach motivacional. A brincadeira nos provoca a desconfiar da inocuidade das mensagens do tipo, desafiando-as com a proposta disruptiva de acabar com a paz.

EIRO (2024), de Helô Sanvoy
Aura
A obra de Sanvoy faz parte de uma série de cartazes de mesmo funcionamento, nos quais o sufixo EIRO, em destaque, é omitido de seus prefixos mais comuns. As palavras que se formam são ocupações no sentido de trabalho, muitas delas de negócios pequenos, informais, locais ou exaustivas. São, também, ocupações que nomeiam seus ocupantes, não raro suplantando seus nomes: o queijEIRO que passa na rua, o vidracEIRO do bairro, a banca do verdurEIRO. Não por acaso, a palavra BRASIL também se encontra em destaque: como explica a Aura galeria, que apresenta o trabalho, o brasilEIRO possui um gentílico ocupacional, refletindo a formação de um país como fábrica de mão de obra.

Cores, nomes (2013) e Em tempo (2022), de Marilá Dardot
Lume
Esta seleção estaria desprestigiada se não incluísse a obra de Dardot, exposta no estande da Lume, dado seu repertório de articulação entre texto e procedimento artístico. Em tempo (2022) é uma série de frases literalmente plantadas, onde espécies ornamentais vivas se moldam a vasos com formato tipográfico. Nesta lemos “AGORA É HORA”, mantendo um tema da passagem do tempo, da urgência e da possibilidade de mudança de nossa relação com outras espécies. Na série Cores, nomes (2013), Dardot pinta versos sobre cores que retira da literatura, mantendo sua tipografia. Representando cada cor com tinta guache, a artista escreve que “transborda do papel até alcançar a parede”, de forma que não apenas a palavra impressa transborda a página como cor, mas também o atravessamento do papel algodão transfere, enquanto cor, a palavra impressa.
Filhas do Infinito, de Chris Tigra e Dyana Santos
Albuquerque Contemporânea
O estande da Albuquerque Contemporânea é inteiro ocupado pelo projeto instalativo Filhas do Infinito, que une a poética das duas artistas em uma só refundação de mundo, recuperando a força das mulheres negras e de suas práticas históricas. Destacamos aqui os bastidores da série Anance (2025), de Dyana Santos, feitos de aço com os nomes de mulheres negras que mudaram a história, bordados em fio de cobre; e também a tela na qual Chris Tigra usa bordados e apliques sobre fotografias para reescrever o ato de violência contra a mulher, “mulheres que sofrem de ataques silenciosos”, em uma mensagem de insubmissão: Mulheres que atacam silenciosas (2025). Ambas trabalham a resistência do material e da palavra para sobrepor a suposta domesticidade do bordado, transformando a passagem da técnica entre gerações em herança de força.

the book, the talking ouija board and my finger, the planchette (god-image) (2020), de Kameelah Janan Rasheed
Piero Atchugarry
Rasheed substitui a planchette, pequeno instrumento para navegar uma tábua ouija, pelos seus dedos; a tábua, por um livro; e transforma sua sessão de divinação em um diagrama onde a imagem da mão parece estranha à organização sistemática da linguagem. Como diagrama montado parcialmente pelo acaso, god-image (2020) convida seu leitor a suspender suas divisões entre uma leitura linear e o acaso, entre conhecimento científico e espiritual, entre mente e corpo. O trabalho nos dá pistas sobre a poética dos demais trabalhos de Rasheed expostos no estande da Piero Atchugarry Gallery. A escritora, poeta e artista estadunidense entende a leitura como processo ativo, intervencional e não-linear, para o qual acaso e repetição são essenciais.
Trecho de luz entre dois milagres (2024), de Ivan Grilo
Zipper
Para esta edição, a Zipper Galeria relaciona os trabalhos de Ivan Grilo e Rodrigo Braga, construindo uma narrativa coesa de renascimento cósmico. Neste contexto, as placas de bronze, características do trabalho de Grilo, remetem tanto ao túmulo quanto ao monumento: são a memória íntima, mas também social, do mundo que acaba e renasce. Trecho de luz entre dois milagres (2024) é tanto um pequeno poema sobre a curta existência humana quanto uma medição, em algum espaço público imaginário, desse pequeno trecho onde o milagre se torna observável a partir de seu intervalo físico.

Gustavo Speridião e Ouvindo Muito Trap Enquanto Faço Interiores (2024-25), de Marcus Deusdedit
Mitre
As telas e pequenas esculturas de Speridião suscitam o peso do discurso sobre a arte. Obras são ao mesmo tempo um exercício lógico-formal de conceitos e uma ironia sobre a dificuldade da forma, ao longo da história da arte, em pensar por si aquilo que o discurso não pode. Não se trata de uma crítica ao panfletário, já que o artista é também militante e uma variedade de faixas de manifestação compõe seu portfólio; mas de um choque entre o panfletário, naquilo que ele não comporta, e a arte, naquilo que ela não absorve completamente.

A obra de Deusdedit também utiliza da criação de esquemáticas em seus projetos de arquitetura cheios de armadilhas, em chave irônica. Em falso vídeo publicitário, vemos os projetos de uma porta-guilhotina, um espelho que quebra sobre a cabeça de quem o usa e outros designs “muito humanos”, de acordo com o seu narrador. O discurso cumpre o papel de ocultador, em choque com a violência da imagem.
Mi puñado de esplín (2020), de Valentin Demarco
Isla Flotante + Calvaresi
Representado pela Isla Flotante, Demarco usa técnicas tradicionais de joalheria para criar acessórios e objetos que comentam sexualidade, papéis de gênero e cultura pop contemporânea. O título de sua série Mi puñado de esplín (2020) é retirado do tango Balada para mi muerte, onde os versos cantam a chegada da morte eminente. O punhado de baço do artista são centenas de pequenos pingentes metálicos distribuídos em grid pela parede. Observam-se logos, emojis, memes, referências à cultura pop e a obras de arte reduzidas a ícones. Aqui, a palavra raramente aparece, mas cada imagem é signo, a ser lido em uma linguagem contemporânea mediada pelas redes sociais.

A História da Classe Trabalhadora (2025), do grupo de pesquisa Depois do Fim da Arte
Setor BASE
O trabalho do Depois do Fim da Arte para esta edição não é bem uma performance. Ele é muito mais estendido para a realidade em tempo e em consequências: cria um micro-ecossistema de produção e circulação de mercadorias artísticas, onde os trabalhos vendidos são uma mercadoria manufaturada, sem autoria e sem distinção de valor (e valor, aqui, possui o sentido da teoria marxista do valor, calculado em tempo de trabalho socialmente necessário). São centenas de folhas de papel completamente preenchidas em caneta azul, uma a uma e manualmente pelos membros do grupo, vendidas a R$ 51,83, preço calculado com base em custo de produção e no salário-mínimo/hora. Não são as similaridades com a produção capitalista de mercadorias e com o trabalho produtivo, no entanto, que revelam algo sobre estes e sobre a arte, mas sim as diferenças: nenhuma folha é realmente igual a outra, apesar do empenho de cada preenchedor de folhas em saturá-la completamente, e o seu valor de uso é interno à arte e seu mercado. Em outras palavras, cada folha vendida mostra não apenas a reificação de pessoas e o fetiche da mercadoria da produção capitalista, mas também o mercado de arte como completamente estruturado por essa mesma produção, mas imune aos seus determinantes materiais mais concretos. Não por acaso, a parede que as folhas cobriam completamente no início da feira já se encontra vazia, e nela se lê: A HISTÓRIA DA CLASSE TRABALHADORA.