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Postado em 20/12/2024 - 3:01
Computer Love
A farsa pós-especulativa de Gabriel Salviano, a balada tecno-sentimental de Peter O Sagae e o eterno branco de Ana Paula Albé, entre os textos realizados na oficina experimental de criação literária

Durante os sábados do mês de julho de 2024, teve espaço na redação da revista celeste a primeira edição da oficina experimental de criação literária Computer Love, que elaborei a partir da plaquete homônima criada em conjunto com o Chat GPT e publicada por mim de forma independente alguns meses antes.

Em cada um dos encontros, foram utilizadas como disparadores criativos ferramentas disponíveis em sites, algumas delas baseadas em programas generativos de Inteligência Artificial, outras em dispositivos aleatórios de dados, todas convergindo para um único lugar – a relação entre humanos e máquinas.

Distante de especificações técnicas e sem entrar em detalhes sobre a sistemática dos aparelhos apresentados, desde o início – a pergunta “qual foi a primeira vez que você viu um computador?”, extraída de um texto do escritor chileno Alejandro Zambra, foi a provocação para que os alunos se apresentassem – a intenção era localizar e investigar o aspecto afetivo da presença dessas tecnologias nas experiências pessoais de cada um.

Fosse por meio das paisagens fornecidas pelo site Random Google Street View, dos retratos de This Person does Not Exist ou das conversas com chatbots, cada texto se formulava na perda momentânea do controle, sensação tão efêmera quanto perpétua em um cotidiano cercado pela dinâmica de redes sociais e outros adventos das big techs. Como extrair literatura, ou melhor, texto, desse estado de indeterminação? É o que investigávamos.

À navegação pelos sites somavam-se textos de autores que eu selecionara, escritores e escritoras que, de alguma forma, haviam abordado o tema. Que tema? O outro, sobretudo, mas também o desconhecido, que tem tantas formas quanto pessoas para encará-lo. Ao longo do mês, entre xícaras de café, maços de cigarro, canetas e blocos de notas, foi crescendo sobre a mesa a pilha de livros: Ricardo Piglia, Anne Carson, Cesar Aira, Samanta Schweblin, Benjamin Labatut, Natasha Félix, Mario Levrero, Gabriela Perigo, Paul Éluard, Sylvia Plath, Mario Bellatin, Leona Machado. E por aí vai. Também não faltaram filmes – David Lynch e Andrei Tarkóvski apareceram – ou músicas – a banda Cidadão Instigado e a dupla norueguesa Röyksopp – para ampliar o campo referencial por onde podíamos nos mover.

Assim, um mês se passou. Os textos eram trabalhados individualmente durante a semana e apresentados nas aulas, para que, em círculo, todos pudessem se relacionar e mutuamente comentar méritos e tropeços. Havia algo de ritual irônico, de happening primitivo, além, é claro, do trabalho braçal: polir aqui, arredondar ali, aprofundar acolá, cada palavra questionada, cada escolha compreendida. Uma oficina, afinal.

É com satisfação que me lembro daquele mês de julho, em que um grupo de pessoas se dispôs a sair de casa para forçar os limites entre ficção e apropriação, simulação e realidade, descontrole e liberdade. E é com ainda mais satisfação que anuncio que, agora mesmo, os textos de alguns dos participantes podem ser lidos por meio deste link. A farsa pós-especulativa de Gabriel Salviano, a balada tecno-sentimental de Peter O Sagae, o eterno branco de Ana Paula Albé e os outros textos que, ainda que não tenham encontrado sua forma final, acenderam as manhãs geladas de Computer Love, em que, atravessando circuitos de máquinas, computadores e padrões, arriscamos um jeito particular de encarar a nós mesmos. Esses eternos desconhecidos.