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Fotografia de queima da bandeira em Tucuruí (PA) em 2013, parte do fotofilme Árvore (2015) [Foto: cortesia da artista]
Postado em 06/06/2025 - 7:01
Contornos de uma natureza afogada
Paula Sampaio e a documentação do afogamento de memórias e geografias pela criação do lago da barragem de Tucuruí

Mais de uma centena de vezes. Isso é um cálculo grosso de quantas vezes visitei Tucuruí, no sudeste do Pará, cidade onde meus pais se conheceram e minha família materna mora. Durante alguns anos da minha infância, íamos todo fim de semana visitar a família: saindo de Belém, a capital do estado, entre seis e sete horas de carro, um pouquinho mais quando íamos de ônibus. Belém, Ananindeua, Marituba, Moju, Tailândia, Goianésia, Breu Branco, Tucuruí. Era esse o caminho que meus pais me ensinavam. Os olhos preenchiam o meio, os pontos que me faziam reconhecer a distância em que estávamos: o pórtico da Polícia Rodoviária Federal, a Alça Viária, a balsa do Arapari, o longuíssimo dendezal da monocultora Agropalma (meus pais achavam as palmeiras lindas), as igrejas evangélicas, a melhor empada do mundo na lanchonete do posto de gasolina de Moju, o lugar onde quase morremos uma vez quando metade do nosso carro entrou debaixo de um caminhão, a sede da Camargo Corrêa, as curvas, o lago, a usina, a vila dos funcionários da Eletronorte, a casa da minha avó. Depois que ela morreu, há dois anos, nunca mais voltei lá.

Tucuruí é um lugar onde as pessoas tinham sonhos de sorte, como as Cândidas e os Antônios, de Paula Sampaio. A fotógrafa nascida em Belo Horizonte, mas radicada em Belém há mais de 40 anos, desenvolveu por 20 anos a série Antônios e Cândidas Têm Sonhos de Sorte (1990-2010), fotografando as cicatrizes, as esperanças e as vitórias pelas estradas que cortam a Amazônia. Amplamente premiada – recebeu duas vezes o Prêmio Marc Ferrez de Fotografia, o Prêmio de Fotografia Conrado Wessel e o Humanity Photo Award –, Sampaio documenta os fluxos migratórios e as vidas em movimento na Amazônia, com atenção aos impactos socioambientais dos grandes projetos extrativistas.

Rodovia Belém-Brasília, em Açailândia (MA), 1988; foto do projeto Antônios e Cândidas Têm Sonhos de Sorte (1990-presente), de Paulo Sampaio

Fuga da seca

Minha família era uma das inúmeras que migraram para o Pará com sonhos de sorte. Minha mãe, uma das filhas mais novas dos 13 filhos de Dorinha e Epitácio, se mudou de São José da Lagoa Tapada, no Sertão Paraibano, para Tucuruí no fim dos anos 1980 porque os irmãos mais velhos já tinham ido e dito que lá havia trabalho. E não tinha seca. Foram em levas: na última, alguns anos depois da primeira, foram num caminhão dirigido pelo irmão caçula da minha mãe, com 11 anos na época. Alguns foram trabalhar nos garimpos ilegais da Serra Pelada, o formigueiro humano onde todos andavam armados até os dentes. Sonhos de encontro do Eldorado, da riqueza súbita após tanta pobreza. Uma centena de milhares de trabalhadores também era assim, tirando mais de 42 milhões de quilos de ouro do chão.

Em Tucuruí, minha mãe vendia cheiro-verde na feira e produtos por catálogo, até trabalhar numa loja de eletrodomésticos, ser caixa do Banco Real e deixar o trabalho de carteira assinada para costurar cortinas, o que faz até hoje. Meu pai tem uma história próxima: seguiu para Tucuruí porque foi transferido no emprego. Nasceu e cresceu em Alto Parnaíba, a cidade do Maranhão mais longe da capital, onde fazia tijolo numa olaria e tocava bois com o irmão mais velho. Tinha afinco pelo estudo e, contra a corrente, foi aprovado num concurso de nível médio para ser funcionário do Banco da Amazônia. Na euforia econômica que Tucuruí vivia na época da ditadura militar com o monstruoso Projeto Grande Carajás, todos os bancos abriam agências ali e eram para lá transferidos os que misturavam sonho e coragem. Numa ligação para a compensação de um cheque do Banco da Amazônia no Banco Real, meus pais se falaram pela primeira vez e o resto é história. (“Eu me apaixonei pela voz do seu pai”, escutei tantas vezes.) Meu pai foi transferido para Belém na metade dos anos 1990 e minha mãe foi junto, deixando toda a família em Tucuruí. Em Belém, deitaram base, tiveram filhos e moram até hoje.

Somente a área alagada pela construção da hidrelétrica de Tucuruí tem quase três vezes a área  de São Paulo. Pelo relevo acidentado, o lago formou mais de 1.600 ilhas mortas. Essa é a cicatriz de barrar o Rio Tocantins. Minhas primas, que tinham a minha idade, nascidas e criadas em Tucuruí, me contavam que existia uma cidade chamada Breu Preto, que foi alagada, e que o que restou foi Breu Branco. Breu Branco, por mais que seja um paradoxo imagético, é de verdade; enquanto Breu Preto era história de criança. Sempre foi tudo Breu Branco, e o que foi inundado passou a se chamar Breu Velho.

Lago de Tucurul (PA) (2012). Parte do fotofilme Árvore (2015) [Foto: Reprodução/ Cortesia da artista]

Água que é labareda de fogo

Nessa Tucuruí, Paula Sampaio produziu o trabalho Árvore (2012-2015). A série começou com registros em vídeo e foto do tronco de uma árvore balançando, presa a uma corda, como um bicho tentando libertar-se. Perdeu, entretanto, o vídeo: deletou-o sem querer e restou apenas uma foto dessa cena. Sampaio produziu, então, bandeiras com essa foto solitária. Soltou uma delas nas águas, levou outras para serem alçadas em cima de um barco e sentirem o vento. Virou oferenda que seguiu em direção ao mar. Em 2015, Sampaio voltou para Tucuruí e hasteou essa bandeira em um dos troncos, reclamando a força de uma memória afogada. Libertou-a ateando-lhe fogo, a ser apagada da mesma forma como as vidas que ali submergiram. Gravou um vídeo-depoimento com sua voz lendo o escrito abaixo, com a imagem varrendo uma fotografia panorâmica que mostra essa floresta de fósseis.

Atoleiros (1994). tirada em trecho da Transamazonica no municipio de Pacaja (PA). Imagens de Antonios e Candidas Tem Sonhos de Sorte (1990-presente) [Foto: Reprodução/ Cortesia da artista]

Como libertar uma árvore

Quando eu conheci o lago de Tucuruí, as pessoas me chamaram a atenção.

Famílias enormes.

Muitas crianças brincavam nas águas do lago, misturadas aos troncos das árvores cortadas.

Tudo, todos, meio submersos…

Um lago monstro de grande! E as ilhas? Nossa! Mais de mil.

Corpos mal talhados de terra, em trânsito pelo vento.

Daí para a frente, voltei sempre; durante mais de 20 anos, para esse lago…

Buscando o quê? Nem sei…

Até que, em 2011, uma mudança de destino por onde eu navegava

me fez encontrar a floresta fossilizada.

Foi um susto!

Troncos amarrados feito bichos.

Bichos esculpidos em troncos.

Troncos virando gente.

Contornos de uma natureza afogada, que parece um mapa da viagem humana por esse mundo.

Será que a morte tem grito?

Paula Sampaio
Belém, 13 de novembro de 2015

Quando se abrem as comportas, a água da represa abaixa. Meus pais sempre ficavam assustados quando a água estava muito baixa: viam pelas janelas do carro e sabiam que aquilo anunciava uma seca hídrica. (Meus pais sempre me falavam da seca terrível dos lugares de onde nasceram e eu nunca conseguia de fato assimilar. Talvez aquilo os lembrasse de algo de que eles fugiram.) Eu achava que reclamavam porque parecia um cemitério de árvores: uma imagem sombria, como se aquela água que tivesse descido fosse uma labareda gigantesca de fogo. Pororoca e Pentecostes juntos. Enquanto passávamos por cima da usina, cheia de guaritas e quebra-molas amarelos, víamos os troncos fossilizados que brotavam da água, altos e muitos. Apareciam só assim, quando raso, como visagens e assombrações que obedecem a oscilações elementares. Pareciam gente. Ou eram mesmo gente. Imagino as casas, as pessoas, os bichos, as plantas, os fantasmas submersos. (Lembro agora da história de uma mulher que, tão machucada pela vida, pedia para, quando morta, ser enterrada nua e com a cara pra baixo, de costas pro mundo.)

Eu ficava encantado quando a água estava alta. Na paisagem, o lago era azul e largo, e na cheia ficava tão cheio que parava a um palmo da altura da estrada. Significava que, nas próximas horas, as comportas iam abrir. A água fazia um arco do tamanho de uma montanha do outro lado, caindo em câmera lenta, numa névoa branca de gotículas. Sem olhar, meu corpo sabe o tempo que se demora para atravessar a hidrelétrica, assim como sabe o tempo que o elevador demora para subir até o décimo andar no prédio que morei desde que nasci até sair de Belém. Sabia que, quando passávamos pelo túnel que a encerrava, eu estava a duas hidrelétricas de tempo até chegar na casa da minha avó. Tomei como banalidade uma das maiores hidrelétricas do mundo.

Trecho da rodovia Transamazonica no municipio de Medicilandia (PA). (1994) [Foto: Reprodução/ Cortesia da artista]