O objeto pode ser inerte, jamais inocente. Sobre o pesado móvel de jacarandá, repousa o álbum de família. Em suas páginas, cenas de uma privacidade a ser preservada. Hábito social cultivado com zelo pelas famílias ligadas ao poder do açúcar, sobretudo em Pernambuco e na Bahia, ou no Vale do Paraíba, entre São Paulo e Rio de Janeiro, o álbum de fotografias indica também o poder material de atores sociais com acesso a imprimir suas memórias.
No registro de alegrias e tristezas, batizados, casamentos e funerais, o léxico visual indica as equações do trinômio patriarcado-latifúndio-escravidão. Há ali uma crônica para a manutenção dos mesmos sobrenomes no teatro do poder. Centralizando a cena, sempre a figura essencial do senhor de engenho, fonte arquetípica de autoridade sobre terras, mulheres, filhos e seres humanos, além de sua linha de cor de pele.
Na ontologia dessas imagens, não há apenas representações do real. Mas argumentos imagéticos sobre como o real deve ser mantido e entendido para o equilíbrio dos desequilíbrios. Mais de meio século depois daquele momento histórico, o projeto Retratistas do Morro habita um lugar proponente na reordenação de um cânone visual brasileiro.
Ao tirar o assunto das gavetas e ampliar a leitura sobre um conjunto de até 250 mil imagens produzidas por fotógrafos autônomos do conjunto de favelas do Aglomerado da Serra, em Belo Horizonte, este projeto evidencia um estatuto da imagem além da lógica colonial e exotizante do “popular” como uma das invenções de longa duração do modernismo brasileiro.
COMUNALIDADES
“Aqui, a gente vê um outro tipo de ciclo da imagem, que é um ciclo virtuoso, de imagens pautadas na mais-valia, na dignidade, no reconhecimento, na autoestima, na beleza, na potência”, diz Guilherme Cunha, um dos idealizadores do projeto e curador da exposição em cartaz no Museu de Arte do Rio (MAR). Com cerca de 220 fotografias impressas em grandes dimensões sintetizando mais de meio século de um léxico social brasileiro historicamente invisibilizado.
“Há ciclos de pensamento que organizam a sociedade, viciosos ou virtuosos. A imagem é fruto disso. Essas imagens do projeto comunicam aquilo que a gente tem chamado de comunalidades, que é reconhecer o valor daquilo que é comum e do que pertence a todos. São imagens à potência da beleza e da altivez. Esse conceito é central para o entendimento do acervo, porque no ciclo vicioso o importante é o que é exclusivo e concentrado. Aqui, na comunalidade, o importante é o que é partilhado e o que é comum. Não é só o que é exclusivo e o que é concentrado, é o que é partilhado e o que é comum”, segue o curador.

Criado há cerca dez anos, quando Guilherme Cunha e equipe produziam um livro sobre o Aglomerado da Serra, considerado o segundo maior conjunto de favelas do Brasil, o projeto se estruturou na organização e catalogação de um acervo de imagens do cotidiano e suas exceções na vida daquela população periférica e predominantemente negra. Do conjunto, acabaram por se destacar fotografias produzidas por João Mendes e Afonso Pimenta, ambos com atuação desde os anos 1960, quando tinham ainda menos de 15 anos de idade e se viram com câmeras fotográficas na mão como instrumentos para ganhar a vida.
“Nunca imaginei que isso um dia pudesse ser entendido como arte”, diz Afonso Pimenta. “Isso era para ganhar minha vida, eu ia fazer dez anos de idade, estudava de dia e trabalhava de noite, e meu trabalho era bater esterco pra vender de dia. Aí, um amigo me disse que a fotografia poderia me dar dinheiro para eu comprar um apartamento. Nunca comprei”. Também formado em fisioterapia e educação física, “seu” Afonso também atuou como ator em filmes de artes marciais – personagem de si próprio em autorretratos que estão entre as imagens expostas.
ALÉM DA DOCUMENTAÇÃO
Não havia qualquer desconfiança de que um dia esse conjunto de imagens pudesse ser integrado ao sistema das artes. “A fotografia começou como nosso trabalho. A gente fazia desde as festas até as fotos dos cadáveres para o trabalho da perícia e da polícia”, diz João Mendes, que no estúdio mantido entre 1960 e 1979 fotografou, com sua Yashika Mat de médio formato, rostos em preto e branco para documentos e fotos “postais”. “Estas eram fotos usadas como lembrança para serem enviadas aos parentes do interior”, diz ele, cujo trabalho testemunhou e documentou pelo menos quatro gerações e a própria formação populacional do Aglomerado da Serra.
“Uma das funções desse projeto é fazer a ocupação dos espaços de poder para o reposicionamento do lastro simbólico brasileiro”, comenta o curador Guilherme Cunha, rejeitando a classificação de documentação como a mais cômoda para o entendimento do trabalho dos mineiros. “A documentação pressupõe um distanciamento objetivo em direção ao objeto. O que não é o caso. Eles faziam e fazem parte de maneira muito espontânea do universo retratado”.

Em parte do acervo exposto no MAR, está um recorte da coleção de monóculos da moradora Ana Oliveira, um rosário da beleza ética e estética dos retratos de família na comunidade. “Em nossa pesquisa para o livro, ela nos chamou e mostrou seu ‘tesouro’. A partir do encontro com suas fotos, demos início ao Retratistas do Morro”, lembra o curador.
No agrupamento das imagens, gestos contidos ou expandidos, poses mais deliberadas que espontâneas, centralidades na composição, os personagens articulam, por meio da frontalidade, a afirmação de suas subjetividades, a projeção da autoestima e de agências sobre as próprias existências. “A imagem é fundamentalmente um vetor de transmissão de ideias. Carrega as ideias das pessoas. Sofre a herança maldita da segregação. Temos uma história de imagens pautadas em ideias de segregação, de menos-valia, subalternidade e violência. A história das desigualdades é também a do apartheid simbólico, que é um espaço de segregação da imagem do outro que não está na dominância do poder”, diz o curador.
A recuperação crítica desse acervo de imagens, ao borrar fronteiras entre a escritura de afetos e a documentação, entre o estético e o antropológico, contribui para uma contra-história da visualidade brasileira – e a progressiva retração de seus apartheids tão simbólicos como reais num país onde imagens ainda são muros.
SERVIÇO
Retratistas do Morro
Museu de Arte do Rio (Praça Mauá, Centro, Rio de Janeiro-RJ)
Até 28/10/2025