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A Feira de Arte de Goiás, a maior feira de negócios em arte do Centro-Oeste, chega à 5ª edição. Na foto de Sara Rangel, fachada da 4ª edição, em 2022
Postado em 23/05/2023 - 10:18
Coordenada: Goiânia
Quinta edição da feira FARGO mobiliza mercado do Centro-Oeste, apontando para Goiás como centro ascendente das artes visuais

Goiânia é uma cidade jovem, que ainda não completou 100 anos, mas seu mercado de arte já vive um segundo “ciclo do ouro”. O primeiro foi nos anos 1980, quando a cidade contabilizava uma dezena de galerias de arte profissionais, representando artistas goianos ou radicados em Goiás, como Siron Franco, Iza Costa, Carlos Sena ou D.J Oliveira, e que faziam circular na região artistas importantes de outras regiões do país. Uma segunda onda se levanta agora, no contexto do cenário econômico superlativo do agronegócio, mas lançando luz a uma das mais ricas e férteis cenas criativas da arte brasileira contemporânea. A quarta cidade brasileira que mais cresce em extensão territorial na atualidade sedia esta semana a quinta edição da Feira de Arte de Goiás (FARGO 2023), no Centro Cultural Oscar Niemeyer, um importante demonstrativo da pujança do novo mercado goiano.

Estande na 4ª FARGO, em 2022 (foto Sara Rangel)

Wanessa Cruz e Sandro Tôrres, diretores da FARGO e do escritório Arte Plena Produção em Cultura, têm feito um trabalho de profissionalização do setor das artes visuais no estado, com um papel de fomento no segmento, realizando exposições e projetos de formação. Wanessa conta à seLecT_ceLesTe que, quando criou a FARGO, em 2017, Goiânia tinha apenas três galerias. “A feira nasceu para atender uma necessidade de circulação da abundância de artistas sem galeria nestas terras”, diz. Para suprir a lacuna, a dupla de diretores tomou a iniciativa de formar coletivos de arte para expor nos estandes, ao lado de escritórios e instituições. “Nesta edição, estamos convidando mais de 30 artistas representados pelo nosso escritório Arte Plena, que é mais um espaço de fomento do que uma galeria”.

Estande na 4ª FARGO, em 2022 (foto Sara Rangel)

Participam da feira dezessete galerias, ateliês e escritórios de Goiânia e Brasília – entre os quais, o Ateliê Sanagê (DF), o ateliê Flavio Lima (GO), o escritório Eliane Miclos (GO) e a Cerrado Galeria (GO) –, ao lado de espaços institucionais que incluem a Faculdade de Artes Visuais da Universidade Federal de Goiás (FAV UFG) e o Sebrae Goiás. Um número menor de espaços em relação a 2022, mas com um recorte qualitativo mais focado na produção do Centro-Oeste. A expectativa é receber a visita de colecionadores de Porto Alegre, Espírito Santo, Salvador, Brasília e São Paulo, que vieram à FARGO no ano passado, atraídos pelo caldeirão de talentos local.

Estande na 4ª FARGO, em 2022 (foto Sara Rangel)

“Goiânia, além de ser um berço de bons artistas, sempre teve uma cena forte e era uma cidade que vendia bastante até 1998. Depois caiu muito. Eu sobrevivi porque vendo para o mercado secundário e trabalho muito no Rio e em SP”, diz a goiana Eliane Miclos, no mercado há quase 40 anos, trabalhando com arte moderna e contemporânea brasileira. Ela começou em 1986, gerenciando a Félix Galeria de Arte e hoje tem seu próprio escritório, participando pela segunda vez da FARGO, com uma seleção de obras que inclui Ianelli e Palatnik. “Como o mercado imobiliário começou a crescer muito nas cidades brasileiras e em Goiânia também, surgiram muitos condomínios fechados, cheios de mansões, com as paredes vazias. Agora está tendo uma retomada do mercado, mesmo porque, as pessoas daqui estão tomando consciência de que Goiás tem muitos bons artistas além de Siron Franco, Poteiro e Marcelo Solá”.

FOMENTO
Além de movimentar públicos e mercados, a FARGO fomenta as bases da produção artística local, promovendo visitas a ateliês – este ano, os convidados visitam o Sertão Negro de Dalton Paula –, um seminário e concedendo um Prêmio Estímulo. Em 2022, o artista contemplado pelo Prêmio foi André Felipe Cardoso (Minaçu, GO, 1997), que trabalha com colagem em suportes diversos, como cestas de palha e frames de slides. “Acredito que a Feira Fargo, desde a sua criação em 2017, tem por princípio primeiro a formação de público”, opina Cinara Barbosa, curadora do BSB Plano das Artes, de Brasília.

“O formato de programação das feiras propicia reunir galeristas, artistas e especialistas do meio da arte, que ajudam a divulgar e articular diversas relações nessa construção coletiva. A feira, portanto, estimula possíveis organizações do nosso sistema e pode vir a conduzir uma mobilização efetiva da região, para além do fluxo Brasília-Goiânia”, diz a curadora, que participa de uma mesa do Seminário, ao lado de outros agentes como Ademar Britto, crítico e curador independente, responsável pelo programa SOLO da Art Rio, e o pesquisador Nei Vargas, diretor artístico da Aura Galeria, de São Paulo.

Público em Seminário, durante a 4ª FARGO (Foto Sara Rangel)

Em entrevista à seLecT_ceLeste, Nei Vargas, cuja pesquisa de doutorado faz um giro pelo interior do país, observando as especificidades do mercado da arte brasileiro, diz que Goiânia é um case. “A cidade tem uma representação muito específica na história do mercado de arte brasileiro. Foi muito forte fora do eixo Rio-SP, na década de 1980, com mais de 40 estabelecimentos comerciais atuando no mercado de arte, entre eles muitas galerias. De meados dos anos 1980 até meados dos anos 1990, elas foram fechando as portas. Não só pelo problema do confisco das poupanças pelo Collor, que causou uma quebradeira geral, inclusive no mercado de arte paulista, mas por um movimento próprio que os artistas locais provocaram, passando a vender por fora”, diz.

Nei Vargas, durante Seminário da 4ª FARGO

Veterano da FARGO, Vargas participa pela terceira vez como palestrante convidado, mas agora levando também a Galeria Aura, com seus quatro artistas da região Centro-Oeste representados: Emilliano Freitas, Douglas Ferreiro, Fernanda Pacca e Talles Lopes; e três artistas convidados. “A Aura é uma galeria que está sempre buscando, desde sua formação, formas distintas de mercado. E eu, particularmente, entendi que, ao contrário da tendencia das ultimas décadas de internacionalização do mercado de arte, é preciso olhar para o interior do país, porque ainda há muito por se fazer e muitos nichos de riqueza que podem ser trabalhados para o consumo de arte”.

Palestra durante Seminário, na 4ª FARGO (Foto: Sara Rangel)

EXPANSÃO
Ainda que a Aura seja a única galeria do eixo Rio-SP a participar da feira este ano, além do ateliê Azol (SP), outros importantes agentes do mercado nacional estão na área. Lucio Albuquerque, da Casa Albuquerque, de Brasília, e Antônio Almeida e Carlos Dale, sócios da Almeida & Dale Galeria, de São Paulo, estão à frente da recém-inaugurada Cerrado Galeria, no Setor Sul de Goiânia (leia entrevista). “Nós vamos participar esse ano com a Cerrado”, diz Antônio Almeida. “Acho que ela tem um papel fundamental aqui na cidade. A Wanessa é uma guerreira. A feira despertou o olhar do público da cidade e do estado, está fomentando a cena local e, inclusive, até fortalecendo a SP-Arte, porque começa a despertar as pessoas que frequentam a feira daqui a irem ver a feira de lá”.

Inauguração da Cerrado Galeria, em Goiânia, no início de maio (Foto: Paula Alzugaray)

A diretora da SP-Arte, Fernanda Feitosa, que esteve em Goiânia para a inauguração da Cerrado Galeria, em 4/5, afirma estar atenta à formação e impulsionamento de novos polos de mercado de arte pelo país e Goiania é um deles. “Este ano estivemos na cidade em duas ocasiões. Uma antes e outra depois da SP-Arte. Em ambas participamos de encontros com artistas e promovemos recepções em parceria com amigos locais: em fevereiro com a Wanessa, diretora da FARGO, e com colecionadores, e agora, por ocasião da abertura da Cerrado e da mostra do Siron Franco, com a G5 Partners, uma das maiores empresas de gestão patrimonial do país, que promoveu um jantar na casa da família de um dos sócios”, diz Feitosa à seLecT_ceLesTe.

“Importantíssimo o reposicionamento e a multiplicação dos mercados de arte em varias cidades do país. Goiânia tem uma história de colecionismo e mercado nos anos 1980 que hoje está sendo revivido. O Centro-Oeste é um centro de desenvolvimento econômico e de geração de riqueza que se traduz numa cena emergente de consumo cultural e de luxo também. Uma cena emergente e pulsante”, diz.

TALENTO
Publicações e iniciativas independentes são outro ramo forte da cena artística com forte acolhida na feira. O artista Marcelo Solá, expoente da arte goiana desde os anos 1990, participa com a Hidrolands Grafish Atelie, sua editora de livros e edições gráficas, representando artistas outsiders e icônicos do estado. Estão previstos os lançamentos de livros da escritora Narjara Medeiros e do artista Estêvão Parreiras, uma serigrafia de seu Chico Silva e uma gravura de Seu Demir.

Capa do livro de Narjara Medeiros que será lançado no estande da Grafish Atelier Hidrolands
Serigrafia de Marcelo Solá, em lançamento no estande da Grafish Atelier Hidrolands

A MMarte Produções é editora, produtora independente de cinema e escola de desenho animado. Seus fundadores, Márcia e Márcio Júnior, trabalham com ações relacionadas a quadrinhos, artes visuais, literatura, rock, arte urbana e cinema fantástico. Márcio foi um dos criadores da Monstro Discos, cena do rock alternativo, e é fundador da Mostra Crash, evento anual de cinema fantástico, que em dezembro próximo fará, em sua 15ª edição, um recorte do cinema queer mundial. “Independente do que acontecer, a gente vai fazer”, brinca Márcio Jr., dando sua definição de cena cultural independente. Seu estande na FARGO expressa e aglutina essa diversidade, lançando pela MMArte os livros Burlador (2023), do artista Hofstatter, e Vitralizado – HQs e o Mundo (2023), do jornalista Ramon Vitral e capa do ilustrador Fabio Zimbres, e acolhendo outros realizadores e editores, como a Lote 42, de São Paulo, e a seLecT_ceLesTe, que com essa bem-vinda parceria disponibiliza o bookzine Arte e Política em Goiânia.

Capa de livro do jornalista Ramon Vitral, a ser lançado no estande da MMArte

AFETOS
Guerreira, liderança, mobilizadora, articuladora. São muitos os adjetivos usados pelos entrevistados desta matéria para definir a atuação da fundadora. “Tenho visto os esforços da Wanessa Cruz e do Sandro Tôrres, no sentido de ampliar a oferta de atividades. Em abril, estive lá dando uma palestra sobre arte e investimento para 40 pessoas. A Wanessa é uma liderança no campo das relações públicas da arte no estado dela. Uma pessoa com acesso e capacidade de mobilizar públicos, capaz de articular e conectar pessoas, criar novas reflexões, provocar debates. Uma pessoa super querida por todo mundo”, diz Nei Vargas.

Wanessa Cruz e Sandro Tôrres, diretores da FARGO

O curador e historiador da arte Aldones Nino, que em 2021 realizou junto ao Instituto Inclusartiz um projeto de edital de residência para artistas do Centro-Oeste na Delfina Foundation, de Londres, é outro entusiasta.  “Ela trabalha constantemente para que a cultura da região seja reconhecida e apreciada não só em Goiás, mas em todo o Brasil. Desde a primeira vez que fui apresentado a Wanessa Cruz por Frances Reynolds, quando estávamos desenvolvendo projetos de impacto com foco regional no Centro-Oeste, pude perceber sua dedicação e interesse genuíno, mostrando-se extremamente engajada em prol da execução de uma exposição proposta pelo Instituto. Estou certo de que seu trabalho e dedicação terão impacto duradouro na forma como a arte do Cerrado é percebida e valorizada, tanto localmente como em um contexto mais amplo”, diz Nino.

Com obras de sete artistas, a mostra Para Além dos Martírios, curadoria de Aldones Nino a partir da pesquisa no Centro-Oeste, deverá chegar em breve a um grande museu pelas mãos e mediação desta grande dama das artes goianas.

 

5ª FARGO- FEIRA DE ARTE GOIÁS
Centro Cultural Oscar Niemeyer, Galerias do MAC GO
25 a 28/5, 2023, das 14h às 22h