Pigmentos e fibras naturais, técnicas tradicionais, manuais e regionais, saberes coletivos e geracionais. Pelos corredores da 21ª edição da SP-Arte, atentamos para galerias nacionais e internacionais, instituições culturais e espaços autônomos que resgatam a representação de tecnologias ancestrais e, simultaneamente, integram sua desconstrução formal. A seleção da redação celeste reflete sobre as influências da produção artística contemporânea a partir do deslocamento do uso de materiais e a descentralização dos polos. Se o olhar especializado para a produção nacional é uma linha curatorial de Rotas Brasileiras, feira organizada por Fernanda Feitosa desde 2022 que acontece sempre em agosto, nesta edição da SP-Arte no Pavilhão da Bienal as marcas de regionalismo deixam de ser um apêndice e se tornam a atração principal.

ENTRE AS TRAMAS
A arte têxtil é uma forte tendência este ano. Mais continuidade do que ruptura – já se falava da alta da arte têxtil desde 2012, quando Sheila Hicks teve obras de envergadura apresentadas na Bienal de São Paulo, presença que marcou também o ano passado, a partir de exposições como Woven Histories no MoMA-NY, Entre a Cabeça e a Terra: Arte Têxtil Tradicional Africana, na Pinacoteca do Estado de São Paulo, e Unravel: The Power and Politics of Textiles in Art [Desvendar: O Poder e a Política dos Têxteis na Arte], no Barbican Center, em Londres. Na Biennale, em Veneza, o trabalho da artista indígena argentina Claudia Alarcón com o coletivo Silät chamou a atenção da crítica, bem como as imagens engajadas da turca Güneş Terkol. Em 2025, o têxtil se alinha a vontades manifestas na arte atual: resgatar e reconstruir tradições e conhecimentos locais, pensar sobre a origem comunal e coletiva do fazer artístico e elevar o status de técnicas consideradas femininas e a participação de artistas mulheres para uma crítica e um mercado que, por muito tempo, foi cético para essas manifestações.
A SP-Arte 2025 é um espaço privilegiado para observar como a arte têxtil está forte no mercado brasileiro. No exterior, a abertura para trabalhos como os de Alarcón já existe há anos, de acordo com a galerista chilena Andrea Brunson em conversa com a celeste. Dividindo um estande no segundo andar, o Espacio Andrea Brunson exibe obras da chilena Isidora Villarino, enquanto a galeria londrina Cecilia Brunson Projects, dirigida pela irmã de Andrea, apresenta os trabalhos de Alarcón e do paraguaio Osvaldo Pitoé. Na ausência de Cecilia, Andrea responde sobre a decisão de trazer trabalhos recentes de Alarcón para o Brasil: por um lado, a visibilidade do nome da artista e de seu coletivo tornam o momento propício para a escolha e, por outro, o interesse dos mercados latino-americanos pela produção de artistas indígenas faz com que as tramas de Alarcón e as cenas de Pitoé entrem no radar brasileiro.
No estande da galeria Zipper, no segundo andar, três obras usam fios naturais para construir objetos têxteis, referenciando práticas e campos do conhecimento distintos. De similar, apenas a autoria: todas são feitas por artistas mulheres. Esse poderia ser um dado irrelevante, mas não é: quem confirma é Osmar Santos, sócio-diretor da galeria, em conversa com a celeste.
Santos começa nos apresentando o trabalho de Laura Villarosa, artista nascida na Itália e radicada em Niterói, no Rio de Janeiro. Os galeristas tomaram contato com seu trabalho, até então pouco conhecido, durante a última edição do Salão dos Artistas Sem Galeria, sediado pela Zipper em São Paulo. A artista já acumulava uma vasta e íntima produção independente, que continuou no âmbito privado ao mesmo tempo que criava seus filhos. Villarosa desenvolveu uma técnica mista de pintura, tapeçaria e bordado sobre telas – uma herança atribuída a imagens e tradições familiares – e construiu um mundo amplo de paisagens naturais em sua pesquisa estética própria.

Refletindo sobre a representação recente de Villarosa, perguntamos a Santos se algo mudou de anos para cá que possibilitou essa presença, majoritariamente feminina, de artistas que trabalham com meios considerados artesanais. O galerista responde com sinceridade: décadas atrás, nos anos 1990, trabalhos como esse seriam tidos pelo mercado como menores ou relegados aos campos do artesanato e da decoração. Por mais internamente rigorosas que sejam as telas de Villarosa, a descoberta tardia da artista diz sobre a disposição recente do mercado para outras formas de arte. Santos pontua, inclusive, que por mais acidental que seja a exposição de obras “têxteis” de três artistas mulheres de gerações diferentes, o fato da prática ter tradicionalmente uma marcação de gênero significa que a exclusão e inclusão das obras acaba afetando, sobretudo, a participação de mulheres no mercado.
Mas o galerista também pontua a grande diferença entre as obras. Por exemplo, a artista Jéssica Costa está muito mais próxima de um estudo de moda, modelagem e tapeçaria contemporâneas, panos de fundo para a modelagem estrutural que faz com as tramas naturais e técnicas contemporâneas como o tufting, que virou um hobby popular nas redes sociais. Ainda assim, sua referência ao tricot recupera o mesmo marcador de gênero de outras tradições como o bordado, emprestando força disruptiva para a maneira como modela objetos semelhantes a órgãos mutantes e dispõe de vísceras coloridas sobre suas telas.


O ramo das ciências computacionais, aliás, nunca esteve longe nem da produção têxtil moderna e nem do trabalho feminino. Lembremos das pioneiras da computação, como a célebre Ada Lovelace, mas também os computadores humanos, em sua maioria mulheres, que precederam a máquina digital. A obra de Ximena Garrido-Leca no estande da Vermelho recupera a relação histórica entre tramar e computar: entrelaça fios de cobre e fios naturais em tramas abertas de tear, uma visualização que remete a um fluxo de informações.

Falando em computação, é difícil olhar de relance a obra de Gabriel Pessoto no estande da Luciana Caravello sem pensar em pixels. O bordado em ponto cruz e outras técnicas em tapeçaria, afinal, funcionam da mesma forma. Pessoto transforma a imagem ampliada de carreiras de tricot em uma tapeçaria que, de longe, lembra a imagem digital. Seus suportes, por outro lado, encerram suas peças em um contorno duro, industrial e fechado, contrastando com as bordas e limites abertos tradicionais. Com isso, o artista encontra outras formas de dispor a imagem tramada no espaço.
RELEITURAS DO BARRO
Ao extrair pigmentos naturais ou adaptar suas formas de uso, o barro permanece ressoando como uma técnica ancestral que atravessa diferentes gerações de artistas, linguagens e suportes no mercado da arte. Em um diálogo entre cerâmica, bordado em linho e alumínio, os artistas Cristiano Lenhardt e Amanda Melo da Mota criaram Caixilhos (2024), a partir de uma vivência coletiva na zona rural de Recife. Neste contexto, a matéria-prima retirada do solo é a moldura e o espaço de intersecção entre as pesquisas que potencializaram ferramentas para imantar a terra – o jumbo borda retratos no linho e o alumínio é perfurado para criação da imagem alegórica do Murucututu, coruja da Mata Atlântica do canto grave que os dois passaram a escutar sua entoação juntos, como um chamado para honrar a terra. No ano passado, realizaram uma exposição em conjunto na Amparo 60, em Recife, e agora os visitantes da SP-Arte podem visitar um fragmento do trabalho no estande da galeria pernambucana.

A Claraboia é um dos grandes destaques dessa edição. Apenas em seu segundo ano de participação na feira, o espaço de arte (que está em reforma e será reaberto em São Paulo no final deste mês) apresenta um conjunto especial voltado (quase) integralmente para a cerâmica. As peças de Julia Isídrez, Ediltrudis Noguera e Carolina Noguera compõem o estande que aponta para as visualidades da cerâmica paraguaia – uma tradição indígena, guarani, com base pré-colombiana. As artistas do barro exprimem a visceralidade potente da expressão popular do país na qual são baseadas, a partir de uma técnica laboral que aprenderam com suas mães, e estas com suas mães, em uma cadeia contínua do período colonial até os dias atuais. Longas formas esféricas, como vasos ou urnas, incorporam-se a faces de animais no trabalho de Julia Isídrez; Ediltrudis elabora grandes figuras zoo e antropomórficas: casais nus e animais domésticos, de perfis redondos e irrefutáveis, além dos cântaros que fogem do uso exclusivamente doméstico e se transformam em um objeto de arte; e sua irmã Carolina Noguera utiliza uma técnica a partir da fumaça da queima de folhas ou capim para criação de novas formas dos objetos do cotidiano. Apesar de manterem sinais da tradição compartilhada, sobretudo, acerca da força da memória e resistência das identidades das mulheres indígenas, cada uma desenvolve sua produção motivada por sua subjetividade. O conjunto é um recorte da exposição Das Mãos e do Barro, exibida na Galeria Millan em 2017, com curadoria de Aracy Amaral. Na SP-Arte 2025, Daiara Tukano integra a seleção com pinturas da série intitulada Hori, com padrões geométricos, cores vibrantes e inserções de luz que compreendem as mirações alcançadas por meio da medicina do kahpi (ayahuasca), tradicional do povo indígena Tukano.

Já no setor do design, espaço de constante crescimento e valorização nesta edição da feira, a cerâmica, tradição centenária, ganhou uma nova leitura ao ser combinada com um mecanismo tecnológico. O Superlimão, escritório de arquitetura e design paulista, atraiu os olhares do público com sua máquina de impressão 3D, capaz de moldar objetos decorativos em cerâmica. O experimento Linhas da Terra desenvolve um código para a máquina produzir superfícies e tramas orgânicas em argila, explorando novas volumetrias e estruturas. “Apesar de termos o controle do digital, ainda enfrentamos a limitação do próprio material”, afirma Diogo Matsui, coordenador de design do Superlimão, ressaltando que fatores como umidade do ar, tempo de secagem, retração natural da argila e variações de temperatura até a queima influenciam diretamente no resultado final da peça — que se torna única.

De volta ao setor de arte contemporânea, Andrey Guaianá Zignnatto reflete sua identidade Tupinaky’ia e Gûarini no movimento de apropriação e tensionamento dos objetos e materiais usados para construir a “realidade”. Nesta edição, a galeria Janaina Torres exibe Ensaios de Imaginação Espacial, projeto em parceria com Alexandre Araujo Bispo, que explora a ideia de espaço como um fenômeno em constante transformação. Zignnatto é neto de um pedreiro, do qual foi ajudante durante a adolescência; hoje seu trabalho emerge do universo da olaria ou construção civil, e as matérias primas são sacos de cimento, tijolos, juntas de argamassa e fragmentos e sobras de intervenções urbanas.
PASSADO CONSTRUÍDO
A retomada e predileção por técnicas e estilos de tradições nacionais e regionais, sobretudo as que trabalham o fazer artístico manual, se sobrepuseram em expressividade na feira àquelas que remetem a um tempo atual digitalizado. Trabalhos como o painel de Guerreiro do Divino Amor, no estande da carioca Portas Vilaseca, e o vídeo de Gabriel Massan, em tela gigante na Yehudi Hollarder-Papi, são minoria. Parece haver um desejo no mundo da arte de se afastar da distopia presente e buscar mundos apagados, esquecidos ou desvalorizados pela ocidentalização e globalização estéticas; técnicas que permaneceram existentes em comunidades locais, mas sem a visibilidade que podem tomar agora; e mitologias fundadoras que perderam lugar para o ceticismo contemporâneo.
Alguns trabalhos invertem o impulso de buscar no passado uma visão que faça novo sentido no presente, projetando uma visão do presente para um novo passado. Selecionamos aqueles que constroem sua ancestralidade como uma ficção, ou melhor, uma hiperstição paradoxalmente projetada para a memória coletiva, modificando as tramas que constroem nosso presente e futuro.

A galeria Baró traz ao seu estande o trabalho de Citra Sasmita, artista de Bali que integrou a última Bienal de São Paulo, Coreografias do Impossível, em 2023. Suas pinturas em tecido remetem à mitologia balinesa e usam o estilo tradicional de pintura Kamasan, com uma diferença: substitui os homens retratados por mulheres que se abrem, andam sobre fogo, surgem de árvores e estão em constante transmutação. Sasmita pinta sobre o tecido tradicional Kamasan mais que uma releitura de mitos: ela refunda a mitologia propriamente dita, sem qualquer cinismo da descrença. Por isso, suas pinturas são mais que “ao estilo de”, emanando sua própria força espiritual.
No estande da paulistana Vermelho, o trabalho de Estevan Davi realiza uma montagem cenográfica de achados arqueo-antropológicos de origens ocidentais, cuidadosamente modelados e pintados. Surpreendente é um bom resumo: em conversa com Jan Fjeld, soubemos que o jovem de 25 anos foi abordado pela galeria pelo Instagram, após a equipe ter analisado seu portfólio. Vindo da prática do grafite, Davi traz uma pesquisa técnica rigorosa, fazendo seus próprios pigmentos e pintando afresco, por exemplo. O preciosismo se justifica nas imagens que ele evoca, buscando uma fidelidade processual. Com primeira individual na Vermelho no início do ano, Davi é um artista ascendente e em constante processo de aprendizagem e evolução, com o apuro estético de quem leva o trabalho a sério.

Quem passar primeiro na galeria Athena e depois na londrina LAMB perceberá que Ayla Tavares veio com força para a feira. Os fósseis de argila da artista misturam formas de mãos, sóis e amonitas em espirais, com delicadas inserções em grafite que parecem estampadas sobre as peças. Tavares fossiliza o espaço humano, celeste, marinho e geológico em objetos com ares místicos, que ficcionalizam os rastros deixados sob a terra. Assim, condensa temporalmente as eras terrestres em formas metamorfas.

A forma é de arte rupestre desenhada com pigmentos de terra, mas o que vemos é uma pintura sobre tela e feita com tinta a óleo. As obras de Solange Pessoa transitam entre registros do fóssil, das pinturas pré-históricas, do uso tradicional de materiais de origem animal e da produção manual humana de objetos espirituais. Com mais de três décadas de trabalho nessa linha de pesquisa até então pouco convencional, a artista trabalhou formas da tradição ocidental pictórica subvertendo seus conteúdos e refundando suas origens. O resultado são trabalhos simultaneamente localizados no espaço e história, e manifestações de uma humanidade universal e atemporal.

DESIGN E ANTIDESIGN
Sem dúvida, a Galatea ilustrou de forma exemplar o grande ponto de intersecção entre as artes visuais e arquitetura. Do ponto de vista do colecionismo, a expografia desenvolvida por Lucas Jimeno investiga como a experiência cenográfica do ambiente doméstico amplia sua perspectiva estética no diálogo com as obras de arte. A galeria recriou a atmosfera de um apartamento completo – sala de jantar, sala de estar, escritório e quarto –, com exceção da cozinha e do banheiro, claro, como aponta Antonia Bergamin. Mas, afinal, quem moldou o espaço: a obra ou a planta? A sócia afirma que, por exemplo, o majestoso Di Cavalcanti posicionado na entrada da sala de estar, definiu um direcionamento que guiou a proposta para um ambiente que remete à natureza. Já Dois irmãos, Gávea e Pedra Bonita, da série Montanhas do Rio nº 10 (1987), de Wanda Pimentel, foi colocada intencionalmente na lateral da cama, no quarto, para acentuar o caráter “ilusionista” da arte. Afinal, isto é uma janela ou uma pintura? Os dois âmbitos se complementam na construção dos 100m2 do projeto. O mobiliário assinado inclui sete peças da coleção desenhadas por Jimeno em colaboração com Pali Cornelsen.

Ainda no setor de arte contemporânea, alguns elementos arquitetônicos e domésticos também ganham espaço na (des)construção de trabalhos. Densidade urbana (2024), de Milena Ferreira, é um desdobramento da série Habitar é Obra, composta por pinturas acrílicas sobre azulejo e fragmentos de alvenaria, que criam microcosmos coexistentes na relação entre sujeito e o espaço. No estande da RV Cultura e Arte, seu trabalho expande essa ideia para a cidade e traz a parede exposta, um conjunto estrutural que observa as dinâmicas sociais da prática cotidiana, como as frutas da barraca da feira e a organização dos talheres na bancada da padaria. E a interrupção escultural de Gabriel Sierra, na Luisa Strina, Le Creuset (1975), incorpora a panela de ferro fundido à pirita, mineral dourado e brilhante. Em paralelo, a coleção assinada por Ricardo Van Steen também se apropria de azulejos de cerâmica como um revestimento dos aparadores que compõem o estande da Folio, no setor do Design – afirmando a multiplicidade de sua utilização no mercado.
DESTAQUE: ADVÂNIO LESSA NA MARCO ZERO
A Marco Zero, de Recife, preparou dois estandes imperdíveis. No primeiro andar do pavilhão, ocupa o setor do mercado secundário com uma curadoria e disposição que rivalizam em destaque com o melhor do andar de cima (mercado primário de arte contemporânea). Com uma seleção grande de obras para a exposição Insólito Fim, a galeria conseguiu deixar para o segundo andar uma proposta simples, mas interessante, de ocupar o espaço aberto disponível: uma curadoria de Clarissa Diniz com obras dos artistas Advânio Lessa, Maria Martins & Mira Schendel.
A despeito das relações que a curadora constroi sobre os três artistas, a obra de Lessa acaba tomando o espaço como se fosse um site-specific, monopolizando a atenção do visitante pela maneira que nasce na parede branca e espraia suas raízes pelo chão frio do Pavilhão do Ibirapuera. Com técnicas em cestaria que recobrem galhos trabalhados e protegidos nas extremidades por costuras aparentes de pele animal, o artista constroi uma raiz de uma floresta ancestral – mas uma raiz feita por mãos humanas, também ancestrais. Constata que não apenas a ancestralidade é construída, mas a própria natureza, e essa divisão (entre o ancestral e o contemporâneo, a natureza e o humano) são facilmente infiltradas pela relação prática de um artista com a sua obra de arte.