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Mujer sin Pies ni Cabeza (série Quadrus Negrus) (1987), Marga Ledora [Filipe Berndt /Janaina Torres Galeria]
Postado em 18/08/2025 - 3:00
Desenho em quadro negro
Apesar da atraente resplandecência desempenhada pelas cores, é no traço que está a ênfase da prática de Marga Ledora

As 23 obras da série Quadrus Negrus são o destaque da retrospectiva A Linha da Casa, que apresenta a produção das últimas quatro décadas da artista Marga Ledora. Simplificando a complexidade, seu olhar arguto renova o ato de enxergar por meio da busca da profundidade das coisas, ampliando o imaginário e fazendo do ver uma ação criativa e propositiva. Produzida entre 1987 e 1992, a série pode ser incluída no experimentalismo técnico proposto pela Geração 80, em que a liberdade material se opunha à imaterialidade das obras conceituais da década anterior. 

Composta predominantemente por desenhos em pastel seco sobre papel preto, a obra da artista alça o desenho – a fundação das manifestações artísticas visuais e de pensamento – ao protagonismo. Misturando influências como o ancestral e o infantil, a geometria e a expressividade, Ledora afirma sua personalidade artística por meio da construção de uma visualidade sensível e potente. A natureza dos materiais escolhidos torna evidente uma preparação disciplinada no feitio das obras, dado que o pastel seco é dificilmente apagado ou sobreposto. A geometria expressiva da série carrega uma ambiguidade que se revela a partir de um olhar mais demorado do espectador. Isso se dá, principalmente, ao notar as características do riscado que define os espaços. Com a assistência de réguas e esquadros, as linhas alcançam precisão, mas, em outros momentos, o desenhar parece guiado pela intuição, refletida na gestualidade do traço. 

Essa ambivalência em Quadrus Negrus também se revela no deslocamento habilidoso que a artista faz entre o representativo e o abstrato, acentuando o tom investigativo de sua produção. Nas obras da série, o objeto representado flutua no centro de um quadro escuro, com leve inclinação à abstração pura. O alicerce em preto contribui para o caráter luminoso das cores empregadas. Mesmo não sendo esta uma série em que o virtuosismo cromático é o foco, Marga Ledora se serve de esquemas sucintos de cores análogas e complementares e variações de tom do mesmo matiz, construindo uma paleta regrada, porém surpreendente em efeitos luminescentes. 

Em Atadu III (1988), Fendidu III (1988) e Penduradu (1988), a paleta de cores puras se desdobra em grande variedade de tonalidades, em composições que tendem à abstração. Em Penduradu, as formas se acumulam e sobrepõem no alto da composição, revelando o fundo azul vibrante na parte inferior. Em Máquina (1987), a textura do grafismo do pastel influencia diretamente a relação entre percepção cromática e sensibilização da superfície. As cores detêm sua integridade no interior do espaço que lhe é designado e seu impacto cromático é potencializado quando as linhas que as limitam aproximam-se, quase sempre sem tocar-se. Um espaçamento em que o preto é apreciado como linha delimitativa está presente em diversos momentos na série, criando uma divisão visual, mesmo que mínima, entre as áreas de cor. Em algumas oportunidades, como em Muro (1987), o preto é utilizado também como espaço negativo no interior da forma.

Máquina (série Quadrus Negrus) (1987), Marga Ledora [Foto: Filipe Berndt /Janaina Torres Galeria]

Do Barroco

É inevitável intuir um certo barroquismo nas obras da série, seja pelas luminosas formas emergindo do vistoso breu como um chiaroscuro, amplamente utilizado por artistas do período, ou ainda pela distorção empregada na arquitetura barroca que Ledora transporta para suas casas e geometrias. Mesmo contando com o apoio de réguas que simulam a perfeição estéril, quem dá a última palavra é o gesto e a expressividade – atitude   que nos remete ao fato histórico do significante empenho artístico de pessoas afro-brasileiras  durante o período colonial ter sido relevante e determinante ao desenvolvimento do estilo no país. 

A relação entre figura e fundo, tão cara na apreciação da arte do desenho, é abordada preferencialmente a partir da questão da cor nesses trabalhos. O estilo de representação visual adotado isola o tema, buscando impacto visual máximo ao criar uma margem que delimita o espaço onde a composição deve atuar. Apesar da atraente resplandecência desempenhada pelas cores, é no desenho que está a ênfase da prática de Ledora, característica vista também em outros trabalhos não pertencentes à série Quadrus Negrus

As ferramentas de trabalho escolhidas pela artista – o lápis, o giz pastel e o papel – atestam sua propensão mais ao traçar do que ao colorir. Valendo-se destes materiais, a artista desenvolve seu repertório de signos que constrói articuladas composições visuais – sempre partindo de formas básicas e de uma paleta de cores puras. Na obra Barku (1989), uma embarcação é representada com abordagem visual simples e sofisticada. No desenho, as formas triangulares em branco sobrepostas sugerem o movimento das velas da jangada, que se deformam com o soprar do vento. A poiesis da artista paulistana parece nascer de uma espécie de introspecção reservada, que lentamente sonda o imaginário e retorna com corporificações únicas, eloquentes e inspiradoras. Em De Esquina (1987), a paisagem é tomada como motivo: as formas dos elementos que compõem a cena (casa, árvore, calçada) são analisadas e sintetizadas em uma representação minimalista, mas ainda identificáveis. 

De esquina (série Quadrus Negrus) (1987), Marga Ledora [Foto: Filipe Berndt /Janaina Torres Galeria]

Do território

Em seus exercícios de observação e transmutação, em sua linguagem gráfica coesa, algumas obras dão passos largos em direção à construção de uma ideia, à transmissão de um argumento sobre determinado tópico e ao desenvolvimento de novos discursos através da visualidade. Reflexões sobre territorialidade emergem de representações de temas e motivos como paisagem, moradia e gênero, em três obras da série. 

A década de 1980 foi palco e cenário de intenso debate público e movimentação política sobre a Reforma Agrária. Esta reflexão é incitada no trabalho Regalo (Terra) (1987), de estilização profunda, remetendo a um corte transversal que sugere um muro, uma planta, o solo. Tudo isso, formando um quadrado expressivo, finalizado com um laço, como um embrulho de presente. Hoje, para a consciência nacional, questões de retomada de territórios e o tema da Reforma Agrária estão mais próximos de uma quimera do que de uma realidade palpável como as cores de Ledora. 

Mujer sin Pies ni Cabeza (1987) aponta para a mulher na sociedade, sugerindo questionamentos sobre o trabalho doméstico, a independência financeira e profissional. A obra apresenta a única aparição da anatomia humana na série. A composição, com ângulos retos e agudos, contrasta com a sinuosidade da figura sugerida no título da obra, que ocupa o centro. O fundo, em dois tons de branco – que se assemelha a um telhado de uma casa, visto de cima –, contrasta com o laranja vibrante do corpo da mulher sem pés nem cabeça. Nesta relação entre figura e fundo, existe uma ambivalência: o dorso está à frente do espaço em branco, como um escudo, ou está inserido nele como peça constitutiva de sua engenharia?  

Vaso de Flores para um Homem (1988) interpela papéis de gênero, por meio do insólito gesto de presentear um homem com flores (pelo menos dentro de uma relação heteronormativa) além de sugerir a prosaica representação interior do lar, onde geralmente se alocam vasos com flores. O gesto dedicatório presente no título induz a uma relação de afetos que possibilitariam transformar uma casa (como construção civil) em um lar. 

Impactado pelos brinquedos educativos desenvolvidos por Friedrich Froebel, o arquiteto estadunidense Frank Lloyd Wright certa vez afirmou que “por sorte, os seres humanos são realmente infantis, no melhor sentido do termo, quando instigados por formas simples e cores puras, brilhantes”. Em tempos de inteligência não humana, que já nasce alfabetizada e verborrágica, os mais de 100 trabalhos de Ledora em exposição nos induzem a enxergar, sempre que possível, as coisas para além de seu invólucro. 

 

SERVIÇO
‘Marga Ledora: A Linha da Casa’, até 15 de março de 2026
De quarta a segunda, das 10h às 18h (entrada até 17h) 
Pinacoteca do Estado de São Paulo (Edifício Pina Estação)
Largo General Osório, 66, Santa Efigênia, São Paulo
https://.pinacoteca.org.br


Bruno Bispo é designer visual, publicitário, atualmente integra o grupo de estudos ‘À Luz dos 120 anos’ na Pinacoteca de SP e realizou a oficina Escrever o Rio, no âmbito da quarta edição da Residência Editorial Arte Celeste