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Detalhe da instalação TH.2058 (2008), de Dominique Gonzalez-Foerster, na Tate Modern, em que a artista dispôs livros para leitura do público. Na imagem, leitora do romance O Mal de Montano, de Enrique Vila-Matas (Foto: Jon Cartwright)
Postado em 05/07/2015 - 8:00
Dois personagens caçados por um pássaro
De que forma artistas como Dominique Gonzalez-Foerster e Joan Miró tornam-se personagens senão da própria obra, de textos de escritores com quem têm o hábito de dialogar

O título deste artigo reproduz o de uma tela pintada por Joan Miró em 1976. A obra está atualmente no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo, em exposição que procura enfocar o processo de formação da linguagem de signos do artista catalão e sua experimentação com a matéria. Entre 1930 e 1970, Miró baseou-se em um exercício constante de redução da imagem até chegar a um vocabulário de conceitos universais composto pelas figuras da mulher, do pássaro, da estrela, da lua, e de um amplo, vago e moldável “personagem”. Combinados e conjugados em frases pictóricas, esses elementos também são chaves de leitura para os jogos poéticos travados com escritores catalães, franceses e o brasileiro João Cabral de Melo Neto, com quem Miró estabeleceu uma de suas colaborações mais estreitas. Elaborou para ele ilustrações, ganhou um ensaio e tornou-se personagem de dois de seus poemas, numa relação simbiótica parecida à que hoje acontece entre Dominique Gonzalez-Foerster e o escritor Enrique Vila-Matas, que fez da artista francesa protagonista de seu mais novo romance, Marienbad Électrique, a ser lançado em setembro, em Paris.

Constelações
Dado o interesse de Joan Miró pelos movimentos do céu e da terra, frequentemente atribui-se ao espaço pictórico de suas composições a qualidade de cosmogonia. Nela, os elementos plásticos conectam-se caligraficamente sobre superfícies neutras e os títulos das obras formam frases concisas, espécie de haicais, em que os elementos do céu e da terra são conectados: O Diamante Sorri ao Crepúsculo ou Dois Personagens Caçados por um Pássaro.

“Todas as fontes culturais ligadas às mitologias mediterrâneas fazem referência à mulher, como símbolo da vida e da fertilidade; aos astros, que marcam o transcorrer do tempo e o ciclo da vida; e aos seres alados, a meio caminho entre a essência terrena e a divina”, aponta Rosa Maria Malet, diretora da Fundació Joan Miró, que recebeu seLecT, juntamente com um grupo de cinco jornalistas brasileiros, para uma imersão no universo do artista.

O personagem (personatge), presente nos títulos desde os anos 1930 – quando o artista se muda para Palma de Maiorca –, é um elemento menos evidente e mais aberto a interpretações. “Na obra de Miró, a figura feminina é um elemento central, gerador de vida. O ‘personagem’ é o princípio masculino, mas ele ocupa um segundo plano”, opina Jordi Clavero, responsável pelo departamento educativo da Fundació Miró de Barcelona.

A pintura Homem e Mulher Diante de uma Pilha de Excrementos (1935), considerada uma das obras mais preciosas do acervo da Fundação, é uma das poucas em que o artista se refere diretamente ao homem. É importante porque pertence à série das “pinturas selvagens”, realizadas um ano antes da eclosão da Guerra Civil Espanhola, e considerada premonitória. Mas também chama atenção pela ênfase que dá ao excremento. Nela estaria delineada sua prática de limpeza da imagem, extraindo o supérfluo da matéria, até chegar ao conceito essencial.

O lixo remete à operação de redução, tão fundamental e constitutiva da poética do artista, desde que ele entrou em contato com os surrealistas, em Paris, nos anos 1920. Sobre sua opção pela síntese, deixando os elementos à solta em suas composições, foi comparado pelo etnógrafo e escritor Michel Leiris à prática mística tibetana de “compreender o vazio”. “A partir da eliminação do supérfluo, ele chega a uma composição aparentemente simples. Mas o que quer é uma obra próxima da poesia: motivar o espectador com o mínimo, assim como os escritores fazem só com a sonoridade das consoantes”, diz Rosa Maria Malet.

Por meio do recurso da redução ao essencial, assistimos ao fenômeno “da migração para a pintura de características típicas da poesia”, segundo define o escritor português Valter Hugo Mãe, em texto escrito para o catálogo da exposição “Joan Miró, a Força da Matéria”.

Teias
Embora a livre gravitação das figuras no espaço pictórico seja uma característica marcante das composições de Miró, na série Constelações ele chega à expressão máxima de sua linguagem, conectando os conceitos de sua cartografia simbólica do mundo em uma só rede, desenhada por uma linha fina e sinuosa que guarda relação visual com a teia da aranha.

É nessa trama de conexões que Miró vem a estabelecer um elo com procedimentos da arte contemporânea, mais especificamente com a obra de Dominique Gonzalez- Foerster, que constrói sua obra como uma teia de apropriações e citações de obras de outros artistas e de textos literários. A lista de autores cujas vozes foram 69 assimiladas pelas instalações de Gonzalez-Foerster pode ser longa demais para reproduzir aqui, mas a artista ressalta que, entre os mais importantes, estão JG Ballard, Philip K Dick, Roberto Bolaño, G.W. Sebald, Virginia Woolf, Vladimir Nabokov, Walter Benjamin e Enrique Vila-Matas. Além do intuito de alinhar o mundo em rede, existe nas apropriações de artista, segundo Ana Pato, autora do ensaio Literatura Expandida – O Arquivo e a Citação na Obra de Dominique Gonzalez- -Foerster (Edições Sesc, 2014), uma lógica arquivista que estabelece “um novo fluxo de relações”.

Dois Personagens Caçados por um Pássaro, de Miró [Foto: Divulgação]
Com Enrique Vila-Matas a colaboração é ainda mais intensa. Em 2011, Dominique Gonzalez-Foerster mandou- lhe um e-mail convidando-o a escrever um ensaio para o catálogo da instalação TH.2058, montada na Turbine Hall da Tate Modern, em Londres. A partir do recebimento da mensagem, a artista automaticamente entrou para as páginas de Dublinesca, romance sobre o qual o escritor catalão trabalhava naquele momento. Quase um exercício de criação literária, TH.2058 imaginava o museu londrino em um futuro não muito longínquo, transformado em abrigo da população durante um dilúvio. As grandes obras da arte, do cinema e da literatura mundial também ganhavam a guarda do museu. O espaço instalativo na Turbine Hall era, assim, inteiramente varrido por beliches, réplicas de esculturas e livros, entre eles O Mal de Montano (2002), de Vila-Matas.

Embora tenha se apropriado do nome do escritor no título da instalação Tapis de Lecture (Enrique Vila- -Matas) (2000-2007) e assimilado seus livros em instalações, Gonzalez-Foerster nega que ele tenha sido em algum momento encarado como personagem de sua obra. “Mas eu sou certamente um de seus personagens”, afirma por e-mail a seLecT.

Agora ela volta às páginas de um livro de Vila-Matas como uma fabricação fictícia: é a protagonista de Marienbad Électrique, que será lançado concomitantemente à exposição que inaugura no Centre Pompidou, em Paris, em setembro próximo. O livro sucede a Impressions de Kassel (2014, ainda inédito no Brasil), nas incursões de Vila-Matas ao universo da arte contemporânea. Em seus exercícios de liberdade, Joan Miró também entrou no território da poesia não apenas como agente criador, mas como criatura. Dominique e Miró são, afinal, dois personagens caçados por um mesmo pássaro: o escritor.