O título deste artigo reproduz o de uma tela pintada por Joan Miró em 1976. A obra está atualmente no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo, em exposição que procura enfocar o processo de formação da linguagem de signos do artista catalão e sua experimentação com a matéria. Entre 1930 e 1970, Miró baseou-se em um exercício constante de redução da imagem até chegar a um vocabulário de conceitos universais composto pelas figuras da mulher, do pássaro, da estrela, da lua, e de um amplo, vago e moldável “personagem”. Combinados e conjugados em frases pictóricas, esses elementos também são chaves de leitura para os jogos poéticos travados com escritores catalães, franceses e o brasileiro João Cabral de Melo Neto, com quem Miró estabeleceu uma de suas colaborações mais estreitas. Elaborou para ele ilustrações, ganhou um ensaio e tornou-se personagem de dois de seus poemas, numa relação simbiótica parecida à que hoje acontece entre Dominique Gonzalez-Foerster e o escritor Enrique Vila-Matas, que fez da artista francesa protagonista de seu mais novo romance, Marienbad Électrique, a ser lançado em setembro, em Paris.
Constelações
Dado o interesse de Joan Miró pelos movimentos do céu e da terra, frequentemente atribui-se ao espaço pictórico de suas composições a qualidade de cosmogonia. Nela, os elementos plásticos conectam-se caligraficamente sobre superfícies neutras e os títulos das obras formam frases concisas, espécie de haicais, em que os elementos do céu e da terra são conectados: O Diamante Sorri ao Crepúsculo ou Dois Personagens Caçados por um Pássaro.
“Todas as fontes culturais ligadas às mitologias mediterrâneas fazem referência à mulher, como símbolo da vida e da fertilidade; aos astros, que marcam o transcorrer do tempo e o ciclo da vida; e aos seres alados, a meio caminho entre a essência terrena e a divina”, aponta Rosa Maria Malet, diretora da Fundació Joan Miró, que recebeu seLecT, juntamente com um grupo de cinco jornalistas brasileiros, para uma imersão no universo do artista.
O personagem (personatge), presente nos títulos desde os anos 1930 – quando o artista se muda para Palma de Maiorca –, é um elemento menos evidente e mais aberto a interpretações. “Na obra de Miró, a figura feminina é um elemento central, gerador de vida. O ‘personagem’ é o princípio masculino, mas ele ocupa um segundo plano”, opina Jordi Clavero, responsável pelo departamento educativo da Fundació Miró de Barcelona.
A pintura Homem e Mulher Diante de uma Pilha de Excrementos (1935), considerada uma das obras mais preciosas do acervo da Fundação, é uma das poucas em que o artista se refere diretamente ao homem. É importante porque pertence à série das “pinturas selvagens”, realizadas um ano antes da eclosão da Guerra Civil Espanhola, e considerada premonitória. Mas também chama atenção pela ênfase que dá ao excremento. Nela estaria delineada sua prática de limpeza da imagem, extraindo o supérfluo da matéria, até chegar ao conceito essencial.
O lixo remete à operação de redução, tão fundamental e constitutiva da poética do artista, desde que ele entrou em contato com os surrealistas, em Paris, nos anos 1920. Sobre sua opção pela síntese, deixando os elementos à solta em suas composições, foi comparado pelo etnógrafo e escritor Michel Leiris à prática mística tibetana de “compreender o vazio”. “A partir da eliminação do supérfluo, ele chega a uma composição aparentemente simples. Mas o que quer é uma obra próxima da poesia: motivar o espectador com o mínimo, assim como os escritores fazem só com a sonoridade das consoantes”, diz Rosa Maria Malet.
Por meio do recurso da redução ao essencial, assistimos ao fenômeno “da migração para a pintura de características típicas da poesia”, segundo define o escritor português Valter Hugo Mãe, em texto escrito para o catálogo da exposição “Joan Miró, a Força da Matéria”.
Teias
Embora a livre gravitação das figuras no espaço pictórico seja uma característica marcante das composições de Miró, na série Constelações ele chega à expressão máxima de sua linguagem, conectando os conceitos de sua cartografia simbólica do mundo em uma só rede, desenhada por uma linha fina e sinuosa que guarda relação visual com a teia da aranha.
É nessa trama de conexões que Miró vem a estabelecer um elo com procedimentos da arte contemporânea, mais especificamente com a obra de Dominique Gonzalez- Foerster, que constrói sua obra como uma teia de apropriações e citações de obras de outros artistas e de textos literários. A lista de autores cujas vozes foram 69 assimiladas pelas instalações de Gonzalez-Foerster pode ser longa demais para reproduzir aqui, mas a artista ressalta que, entre os mais importantes, estão JG Ballard, Philip K Dick, Roberto Bolaño, G.W. Sebald, Virginia Woolf, Vladimir Nabokov, Walter Benjamin e Enrique Vila-Matas. Além do intuito de alinhar o mundo em rede, existe nas apropriações de artista, segundo Ana Pato, autora do ensaio Literatura Expandida – O Arquivo e a Citação na Obra de Dominique Gonzalez- -Foerster (Edições Sesc, 2014), uma lógica arquivista que estabelece “um novo fluxo de relações”.

Embora tenha se apropriado do nome do escritor no título da instalação Tapis de Lecture (Enrique Vila- -Matas) (2000-2007) e assimilado seus livros em instalações, Gonzalez-Foerster nega que ele tenha sido em algum momento encarado como personagem de sua obra. “Mas eu sou certamente um de seus personagens”, afirma por e-mail a seLecT.
Agora ela volta às páginas de um livro de Vila-Matas como uma fabricação fictícia: é a protagonista de Marienbad Électrique, que será lançado concomitantemente à exposição que inaugura no Centre Pompidou, em Paris, em setembro próximo. O livro sucede a Impressions de Kassel (2014, ainda inédito no Brasil), nas incursões de Vila-Matas ao universo da arte contemporânea. Em seus exercícios de liberdade, Joan Miró também entrou no território da poesia não apenas como agente criador, mas como criatura. Dominique e Miró são, afinal, dois personagens caçados por um mesmo pássaro: o escritor.