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[Ilustração de Nina Lins]
Postado em 12/05/2025 - 6:36
Ela é o Boi

Para Arthur Ponte

1.

Na primeira vez que vi Yzara, seu rosto estava iluminado pelas labaredas da fogueira em cujo calor os percussionistas afinavam seus tambores. Em cada uma das cinco ou seis vezes que nos encontramos depois disso, estivesse ela diante de uma xícara de café na cozinha de seu sobrado no Butantã ou estirada na cama de casal do meu apartamento no Centro, eu me lembraria dessa imagem inaugural: seu rosto dourado pelas chamas, um baú lotado de moedas preciosas.

No vagão que me levara até o Morro do Querosene, no intervalo entre as estações da Linha Amarela, a última coisa que eu pensava era em me apaixonar. Na verdade, minha cabeça estava cheia de preocupações: a revista na qual escrevo havia encomendado uma matéria sobre as ações da comunidade local para a abertura do Parque da Fonte, onde nasce o Peabiru, e o saneamento das águas do córrego, que deságua no Rio Pinheiros e ainda hoje serve de esgoto. A pauta era importante, eu admirava aquelas pessoas pela sua disposição em negociar com o poder, mas havia algo que não funcionava – provavelmente, o repórter. Não sentia que eu era o cara certo para escrever sobre a iniciativa, tudo me parecia pueril demais, inocente até, e se havia me disposto a chacoalhar no metrô até a Vila Pirajussara naquela noite de dezembro era porque achava que na Morte do Boi, evento que encerrava o ciclo de festividades anuais da Festa do Boi – nascimento, batizado e morte –, eu encontraria um ponto de inflexão, a demão subjetiva que afastaria meu texto das reportagens dum jornaleco qualquer.

As preocupações desvaneceram no momento em que, por baixo da fantasia, os cabelos cacheados de Yzara revelaram seus olhos verdes acesos pelo fogo, um pouco antes de a procissão sair em seu andor.

2.

Você está morrendo. Quem te diz isso não é o assassino que acabou de cravar um punhal em suas costas, não é o soldado aliado que te segura no colo em meio à selva, nem mesmo a entidade que te visita em sonhos. Não: quem te diz isso é o médico pálido a quem você talvez esteja pagando demais. No elevador, ombreado por dois senhores quase tão velhos quanto você, refletindo sobre a forma como sua barba cresceu nos últimos meses, você se lembra de um poema de Manuel António Pina que diz que a morte é um rio que corre em direção à nascente. Valcir está te esperando encostado no carro, sob a luz do estacionamento subterrâneo e, antes que ele te pergunte como foi a consulta, você lhe dá um beijo demorado e segura sua cintura com toda a força que a doença lhe permite. Já em casa, de banho tomado e com uma caneca de chá apoiada na mesinha de mogno da sala, você se demora diante da prateleira dedicada aos livros que escreveu. Prêmios, traduções, adaptações para o teatro, festivais. Ainda há tempo de escrever alguma coisa? Energia? Você senta na poltrona de couro e considera que, se lhe fosse dado um desejo final, pediria uma última história. Talvez uma história relacionada a este rio sujo sob os pés do edifício, o Rio Pinheiros, esse rio que já não é rio. Esse rio que, na verdade, não passa de um fantasma.

3.

Moleque magro, herpes no lábio, com um pé para dentro do boteco, mata o cigarro e atira na vala. Mãos suadas na camisa de cobrador, depois na franja preta, seu desejo é ser grandão. Detrás do balcão, Seu Plínio avisa que o pessoal tá nos fundos. O aguardam. Ainda ouve o velho sussurrar às suas costas quando empurra a porta que dá para o pátio – esse não é cobra, mas vive enrolado. “E aí”, solta o Coruja, que é quem preside a mesa de dominó, o rosto recortado por garrafas de Antarctica. “Cadê o saldo?” O molecão vai tirando do bolso: celular, relógio, um leque de cartões de crédito. “Tá certo. O velho?” A expressão 3×4 no RG assombra o garoto, na véspera o cara tinha bem mais barba. Rumina um tanto, aceita o americano, faz charme: “Virou comida de rato-do-banhado”. Mas a verdade é que as mãos ainda tremem.

4.

Duas semanas depois, eu estava de volta ao Querosene. Fui recebido por Dona Ciça em sua casa. No pouco trabalho de investigação, tinha ficado claro que não ia conseguir avançar sem falar com ela. Aquela mulher atarracada, dentes da frente divididos, era quem comandava a operação: em 1998, ela redigira o pedido de tombamento da área da nascente e, desde então, se dedicara a conscientizar a vizinhança. Sob sua administração, a Vila tornou-se referência na recuperação da vegetação e em ações culturais. Todos os anos, músicos, poetas, costureiras e bonequeiros se apresentam ali, sem falar na Festa do Boi, celebração com data guardada no calendário da cidade. Ah, sim – e ela era a mãe de Yzara. Sua filha estava interpretando o boi naquele ano e, quando Dona Ciça derramou um pouco de café, achei que seu nervosismo advinha da suspeita de onde o forasteiro sentado à sua mesa havia passado longas horas das semanas anteriores: no sobrado a duas quadras, despido e feliz, comparando a linha das costas de Yzara com o curso de um rio. Um rio que abastecesse toda uma cidade. Mas não, o motivo do nervosismo era outro. Ao que parece, o pessoal da Usina Elevatória da Traição tinha encontrado um corpo entre as garras de contenção. Quando isso acontece, informou Dona Ciça, é uma dor de cabeça para todo mundo. Concordei, distraído.

5.

Como quer escrever sobre o rio, você transfere as caminhadas diárias na esteira para as margens dele. Apesar dos protestos de Valcir, que se preocupa com sua saúde, a violência urbana e tudo mais, às 21 horas você calça o tênis, ajusta o relógio de batimentos cardíacos, põe a máscara e vai andar. A extensão da margem do Rio Pinheiros é de 8 quilômetros. No geral, você se contenta em andar um quarto disso, mas numa noite quente de dezembro se sente tão energizado que decide caminhar um pouco mais. De todas as coisas que viu nas últimas semanas, a que mais te marcou, voltando agora como uma gravura, foi a imagem de um casal que estava sentado na grama com um livro aberto e uma garrafa de vinho, rindo e se beijando. Essa cena, o afeto brotando como uma erva daninha sob o açoite dos arranha-céus e o veneno da poluição, você pensa, é o motor de sua nova história. É sobre isso que quer escrever. A inspiração te absorve de tal forma que você mal percebe o sujeito que chega por trás e encosta a lâmina em suas costas. Passa tudo, ele diz. Seu peito se contrai. E, num clarão, de fato, tudo passa.

6.

As tardes transcorrem mornas, balofas. O silêncio só é atravessado pelo matraquear de britadeiras e Makitas. Parece que vão construir um shopping lá para os lados da usina. Quadra de esportes, praça de alimentação, coisa grã-fina, pondera o moleque. Dá uma bicada na Pitú, rói a unha, espera. O quê? Pensou que, apagado o velho cujo trajeto diário tinha se ocupado de mapear, do Coruja ia finalmente ouvir o pio. Confiança, banco da frente, camarada, coisa e tal. Passa o tempo, porém, e nada. Só as capivaras viram o que aconteceu. Aqueles bichos tapados foram testemunha: assim que encostou a faca, o coração do velho tropeçou. Ter jogado o corpo no rio, bem, isso foi puro destempero.