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Postado em 28/08/2025 - 5:18
ENCHENTE I

Algo seca e

 

Ontem algo transborda dos veios dos passeios,

Ontem algo enche as caixas d’água,

Ontem algo transfigura as montanhas,

Ontem algo refaz as geografias,

Ontem algo esquece os nomes das ruas,

Ontem algo some sob o barro,

Ontem algo se chama enchente.

– Achei que seus tempos tinham sido;

[Joguei aqui em redundância]

 

Amanhã algo sumiu com os lares,

Amanhã algo esqueceu de olhar o sol,

Amanhã algo refez as bordas da mata,

Amanhã algo afundou os lares,

Amanhã algo encheu os quintais,

Amanhã algo sumiu com as faces,

Amanhã algo se chamou enchente.

 

[tempo ruge]

 

Não há sol e a primavera desexiste e o horário de verão voraciona

um mês adiantado: é como se de sua resiliência vertesse os poucos

Sóis que ainda nos restam.

 

– Você sabe por que viemos até aqui?

 

– O marlboro tá caro, você não acha?

E já são sete da manhã e daquele maço restou um.

Um cigarro e as ruas se enchem e já pensou se as ruas se enchessem

em busca de todos os marlboros seria como um apocalipse zumbi,

levemente mais discernido, porém tudo acabaria.

 

Do marlboro as pessoas iam querer água, e acabando o marlboro

Também não teria água, e as fontes de águas lindoia secariam,

simplesmente para rir de nós.

E então faltando água faltaria cerveja e faltando cerveja faltaria aquele

momento em que você simplesmente desdobra e tudo fica mais fácil.

 

Vem aqui, por favor,

me abraça

e depois da cerveja acabaria o arroz, o feijão, os porcos, as

vacas os mamíferos, e então a luz.

 

Let’s drown baby, I love you

Pois o sal que toma minha boca

cansa o dia e toda hegemonia

da história.

 

Let’s drown baby, I 

love 

you

E amanhã eu vou estar

cansado demais.

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celeste #6   travessia