A ressignificação tem lugar de destaque nas práticas artísticas e na crítica e, de alguma forma, vicia o ato criativo e a leitura dos mesmos. Há uma familiaridade com esse termo que por vezes se confunde com o real sentido dessa prática. Ressignificação seria o ato de reler algo pré-existente e disseminar outras narrativas sobre isso. Gombrich, numa análise da noção moderna de invenção em contraposição à noção de semelhança da arte medieval, afirma: “creio que a verdadeira resposta é que o artista moderno quer criar coisas […], algo que ele sente ser mais real do que os objetos baratos da nossa existência banal”. Contudo, hoje, diante das demandas sociais, o diagnóstico de Gombrich ganha outros sentidos. No caso da produção do artista carioca Antonio Ton, há uma crítica veemente aos “objetos baratos da nossa existência banal”, porém com uma atenção não apenas à camada subjetiva, mas também ecológica da sobrevivência humana.
Em termos sócio-políticos, para entendermos o lugar que a prática da ressignificação tem hoje, recorremos aqui a Judith Butler. Neiva Furlin afirma que a filósofa estadunidense toma ressignificação como uma “agência que rompe com lógicas hegemônicas e permite ressignificar práticas sociais e subjetividades, colocando em cena novas cadeias reiterativas, que criam as condições para os processos de mudanças socioculturais”. Ressignificar práticas sociais e subjetividades é fundamental para diversas proposições artísticas, políticas e sociais das últimas décadas. Mas qual o papel dessa ressignificação nas ações contundentes nos três campos? Qual seria uma outra ação conjunta à ressignificação no campo da arte? Como ampliar o acesso às ressignificações propostas por artistas? Talvez exista uma prática recorrente, determinante na História da Arte e das sociedades: atuação nas ruas. Tanto no campo político quanto artístico.
NATUREZA URBANA
O artista carioca Antonio Ton fez de um lema sua pesquisa e proposta: “Do ponto de vista do mundo, não existe externo”. Ao integrar o coletivo de arte urbana Sonacorreria, Ton entende a arte como meio de comunicar presenças ditas externas a determinados espaços e, assim, despertar a curiosidade, interesse e emoção nos olhos alheios. Através da arte urbana, Ton começa a trabalhar com objetos, lugares e atos descartados que são reativados e relidos por meio de sua interferência artística. Assim, desde o início da sua pesquisa, assume como poética o enaltecimento das infinitas possibilidades de criação diante de uma utilidade que parece finita, descartável. Revela assim os diálogos e ações que podem levar uma comunidade a edificar outro comportamento no seu próprio espaço.

Em 2016, Charlotte Wegener, no livro Creativity: A New Vocabulary (Criatividade: Um Novo Vocabulário, em tradução livre), afirma que “reuso é a prática de pegar algo que é descartável e transformá-lo em algo de maior valor. Portanto, quando fazemos reuso, criamos algo melhor a partir do que já temos à mão. O reuso contesta o argumento de que um objeto não tem valor uma vez descartado, ou que ele deve ser destruído antes de poder ser (re)inserido em um novo ciclo de produção e criação de valor”. A partir dessa definição, podemos entender a relação sutil existente entre o reuso e a ressignificação. Podemos também imaginar o primeiro como ação política mais ou menos coletiva que, a depender do uso, pode se tornar capaz de ampliar o acesso às ressignificações e até mesmo gerar inscrições documentais e poéticas num coletivo.

ARTE E JOGABILIDADE
A pintura das quadras proporciona uma espécie de transformação radical daquilo que se entende como Arte. A começar pela distinção entre arte e utilidade. Uma vez que pintando as quadras o artista percebe a pintura como elemento de ação no ambiente e diálogo com a comunidade. A obra tem como objetivo ser capaz de gerar um efeito prático: retomar a atividade num espaço abandonado de forma que mantenha a jogabilidade da prática esportiva. As cores, além de enunciar a pesquisa que Ton faz das formas, também servem para delimitar os limites espaciais e atender aos parâmetros predefinidos para os jogos. Nesse sentido, a pesquisa formal do artista se desdobra na necessidade da quadra e a arte ressurge com funcionalidade esportiva e comunitária. Durante os dias de pintura geralmente dezenas de moradores se envolvem, constroem a revitalização do espaço em conjunto e assim os mesmos reativam o senso de pertencimento e cuidado com aquela obra-quadra que juntos pintaram. Podemos pensar que esse movimento gera resultados que vão muito além do uso esportivo. Afinal, as quadras que Ton pinta são obras de arte cuja posse está nas mãos da comunidade à qual ela (a obra) pertence. Cabe às pessoas daquele território decidir como se beneficiar da obra, quais narrativas sobre ela sustentar e como reverberar sua existência. Assim, Ton exercita uma ampliação da posse e usufruto da obra. As quadras não saem da sua comunidade. O contrário: só fazem sentido ali dentro e se feitas em coletivo. Afirmando que “do ponto de vista do mundo, não existe externo”, Ton nos leva a pensar que para que uma obra faça sentido, ela precisa ser incorporada por uma ou mais pessoas. No caso do trabalho desenvolvido na arte urbana, a proposta de pintura que chega de um artista estrangeiro àquela comunidade, logo passa a ser desenvolvida em parceria com seus moradores e assim deixa de ser uma ação externa. Como resultado, pessoas que estavam alheias à quadra voltam a frequentá-la. A comunidade, a arte e o esporte, juntos, promovem uma ação de ressignificação e reuso.

O GIRASSOL
Pensando obras-espaços Antonio Ton recentemente realizou pinturas numa casa que servirá para gravação de um reality. Mobilizando quinas, recompondo noções espaciais e plásticas, o artista se aproxima de mais uma forma de reinventar o espaço através das cores e formas, estabelecendo uma intervenção na arquitetura de forma que o quadro se dissolve pela composição do espaço – aquilo que Ferreira Gullar, se referindo ao neoplasticismo, definiu como “integração da pintura na arquitetura”. Isso significa que o exercício da pintura se torna não apenas um elemento de subjetivação da tela, mas também do seu entorno, beirando assim a plasticidade de uma construção. É possível observar a atuação de Ton e lembrar do Hélio Oiticica sobre quem Celso Favaretto, no artigo “transformar a arte, mudar a vida”, escreveu: “(seus trabalhos) propõem o experimentalismo (o experimental, como ele prefere) e a crítica cultural como vultos de um mesmo processo de ressignificação da arte. (…) Inconformismo estético e social, radicalidade e marginalidade (nada circunstancial), exemplares na vanguarda brasileira”. Favaretto mais complexo e poético continua: “a extensão da arte na vida, a proposta da criatividade generalizada, inicialmente pela conquista do ‘espaço real’, fora do quadro, paulatinamente com a proposição de âmbitos e ‘estruturas germinativas’ para comportamentos, embora insistindo na tônica sensorial, desligam os efeitos perceptivos e afetivos de uma espontaneidade irracionalista e anticonceitual (…) A tensão entre ‘o conceituai’ e ‘o fenômeno vivo’ não subscreve a adesão ou abandono, ao vivido mistificado ou folclorizado; propõe a abertura como fundação de estruturas-comportamento, ‘células-comportamento’, que implicam redimensionamento cultural dos participantes”. No caso de Antonio Ton, pensando a importância de “redimensionar” ou ressignificar, nos salta a contundência da arte urbana. Pensando a importância dos materiais que integram uma obra e nas suas variadas formas de fazê-la, se ressalta a radicalidade do reuso.

