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Quadra do Cesarão em Santa Cruz, no Rio de Janeiro, com intervenção de Antonio Ton (2022) [Foto: cortesia do artista]
Postado em 19/02/2025 - 5:41
Entre reuso e ressignificação
Arte urbana, o uso de material descartado e a revitalização de quadras abandonadas no trabalho de Antonio Ton

A ressignificação tem lugar de destaque nas práticas artísticas e na crítica e, de alguma forma, vicia o ato criativo e a leitura dos mesmos. Há uma familiaridade com esse termo que por vezes se confunde com o real sentido dessa prática. Ressignificação seria o ato de reler algo pré-existente e disseminar outras narrativas sobre isso. Gombrich, numa análise da noção moderna de invenção em contraposição à noção de semelhança da arte medieval, afirma: “creio que a verdadeira resposta é que o artista moderno quer criar coisas […], algo que ele sente ser mais real do que os objetos baratos da nossa existência banal”. Contudo, hoje, diante das demandas sociais, o diagnóstico de Gombrich ganha outros sentidos. No caso da produção do artista carioca Antonio Ton, há uma crítica veemente aos “objetos baratos da nossa existência banal”, porém com uma atenção não apenas à camada subjetiva, mas também ecológica da sobrevivência humana.

Em termos sócio-políticos, para entendermos o lugar que a prática da ressignificação tem hoje, recorremos aqui a Judith Butler. Neiva Furlin afirma que a filósofa estadunidense toma ressignificação como uma “agência que rompe com lógicas hegemônicas e permite ressignificar práticas sociais e subjetividades, colocando em cena novas cadeias reiterativas, que criam as condições para os processos de mudanças socioculturais”. Ressignificar práticas sociais e subjetividades é fundamental para diversas proposições artísticas, políticas e sociais das últimas décadas. Mas qual o papel dessa ressignificação nas ações contundentes nos três campos? Qual seria uma outra ação conjunta à ressignificação no campo da arte? Como ampliar o acesso às ressignificações propostas por artistas? Talvez exista uma prática recorrente, determinante na História da Arte e das sociedades: atuação nas ruas. Tanto no campo político quanto artístico.

“DO PONTO DE VISTA DO MUNDO, NÃO EXISTE EXTERNO"
Artista trabalha em revitalização de pista de skate no Rio de Janeiro com o coletivo Ademafia para a série “Faz Teu Corre”, disponível no GloboPlay (2023) [Foto: cortesia do artista]

NATUREZA URBANA
O artista carioca Antonio Ton fez de um lema sua pesquisa e proposta: “Do ponto de vista do mundo, não existe externo”. Ao integrar o coletivo de arte urbana Sonacorreria, Ton entende a arte como meio de comunicar presenças ditas externas a determinados espaços e, assim, despertar a curiosidade, interesse e emoção nos olhos alheios. Através da arte urbana, Ton começa a trabalhar com objetos, lugares e atos descartados que são reativados e relidos por meio de sua interferência artística. Assim, desde o início da sua pesquisa, assume como poética o enaltecimento das infinitas possibilidades de criação diante de uma utilidade que parece finita, descartável. Revela assim os diálogos e ações que podem levar uma comunidade a edificar outro comportamento no seu próprio espaço.

Escultura da série “Natureza Urbana” (2017), de Antonio Ton [Foto: cortesia do artista]
Em 2017, Antonio Ton realiza a exposição Natureza Urbana no Galpão das Artes Hélio Pellegrino, um espaço da Companhia Municipal de Limpeza Urbana do Rio de Janeiro (Comlurb), no qual o artista apresenta seu projeto de conclusão de curso de Design e Artes Visuais na PUC-Rio. A exposição consistia em obras realizadas a partir de resíduos encontrados em caçambas de lixo de diversos bairros do Rio de Janeiro. O birro – parte das latas de tinta spray utilizadas no pixo e grafite – se torna um dos fósseis da urbe. A partir desses resíduos, Ton tece uma elaboração do descarte no cotidiano das cidades. Nos anos seguintes, essa pesquisa se desdobra por meio do projeto Travessia Ecológica Stone House, em que um grupo de surfistas e biólogos saem de diferentes praias do Rio de Janeiro em direção às ilhas inabitadas e praias selvagens para recolher lixo marítimo. A partir desse lixo, era feita a triagem para determinar seu descarte mais adequado. Nesse momento, Ton recolhia alguns materiais que percebia como capazes de provocar uma reflexão sobre noções de finitude e descarte. Assim, mais uma vez, se apropriava do que foi expelido. Com esse material, entre 2018 e 2020, realiza anualmente a exposição denominada Travessia na Casa de Pedra. O público visitante teve acesso a obras elaboradas a partir da união de diversos resíduos ornamentados de forma que remetiam a objetos do cotidiano, esculturas e abstrações. Não demorou até que o artista também enxergasse nos resíduos da própria produção artística uma fonte inesgotável de novas possibilidades para reinserção dos seus resíduos em forma de obras. Afinal, do ponto de vista do mundo, não existe externo.

Em 2016, Charlotte Wegener, no livro Creativity: A New Vocabulary (Criatividade: Um Novo Vocabulário, em tradução livre), afirma que “reuso é a prática de pegar algo que é descartável e transformá-lo em algo de maior valor. Portanto, quando fazemos reuso, criamos algo melhor a partir do que já temos à mão. O reuso contesta o argumento de que um objeto não tem valor uma vez descartado, ou que ele deve ser destruído antes de poder ser (re)inserido em um novo ciclo de produção e criação de valor”. A partir dessa definição, podemos entender a relação sutil existente entre o reuso e a ressignificação. Podemos também imaginar o primeiro como ação política mais ou menos coletiva que, a depender do uso, pode se tornar capaz de ampliar o acesso às ressignificações e até mesmo gerar inscrições documentais e poéticas num coletivo.

Escultura da série “Natureza Urbana” (2017), de Antonio Ton [Foto: cortesia do artista]
Também em 2016, ocorre uma parte muito importante da atuação artística de Antonio Ton. Junto ao coletivo Sonacorreria, o artista realiza o projeto Escombros, de ocupação de áreas abandonadas nos bairros Estrada das Canoas, Barra da Tijuca, Tijuca, Recreio, Barra e Gávea. Essa atividade era um desdobramento da necessidade de ocupar com arte espaços mal utilizados. Essa perspectiva se mantém presente nas mais de 30 quadras esportivas e pistas de skate abandonadas que Ton pintou e reativou nos bairros e comunidades Santa Cruz, Madureira, Complexo do Alemão (Morro do Adeus), Cidade de Deus, Comunidade dos Guararapis, Rocinha, Morro do Santo Amaro, Jacarezinho, São Gonçalo, entre outras.

Praça Melhoria localizada na comunidade Santo Amaro, na Zona Sul do Rio de Janeiro, com intervenção de Antonio Ton (2024) [Foto: cortesia do artista]

ARTE E JOGABILIDADE
A pintura das quadras proporciona uma espécie de transformação radical daquilo que se entende como Arte. A começar pela distinção entre arte e utilidade. Uma vez que pintando as quadras o artista percebe a pintura como elemento de ação no ambiente e diálogo com a comunidade. A obra tem como objetivo ser capaz de gerar um efeito prático: retomar a atividade num espaço abandonado de forma que mantenha a jogabilidade da prática esportiva. As cores, além de enunciar a pesquisa que Ton faz das formas, também servem para delimitar os limites espaciais e atender aos parâmetros predefinidos para os jogos. Nesse sentido, a pesquisa formal do artista se desdobra na necessidade da quadra e a arte ressurge com funcionalidade esportiva e comunitária. Durante os dias de pintura geralmente dezenas de moradores se envolvem, constroem a revitalização do espaço em conjunto e assim os mesmos reativam o senso de pertencimento e cuidado com aquela obra-quadra que juntos pintaram. Podemos pensar que esse movimento gera resultados que vão muito além do uso esportivo. Afinal, as quadras que Ton pinta são obras de arte cuja posse está nas mãos da comunidade à qual ela (a obra) pertence. Cabe às pessoas daquele território decidir como se beneficiar da obra, quais narrativas sobre ela sustentar e como reverberar sua existência. Assim, Ton exercita uma ampliação da posse e usufruto da obra. As quadras não saem da sua comunidade. O contrário: só fazem sentido ali dentro e se feitas em coletivo. Afirmando que “do ponto de vista do mundo, não existe externo”, Ton nos leva a pensar que para que uma obra faça sentido, ela precisa ser incorporada por uma ou mais pessoas. No caso do trabalho desenvolvido na arte urbana, a proposta de pintura que chega de um artista estrangeiro àquela comunidade, logo passa a ser desenvolvida em parceria com seus moradores e assim deixa de ser uma ação externa. Como resultado, pessoas que estavam alheias à quadra voltam a frequentá-la. A comunidade, a arte e o esporte, juntos, promovem uma ação de ressignificação e reuso.

Primeira quadra no Rio de Janeiro pintada por Antonio Ton (2019) [Foto: cortesia do artista]
Os trabalhos de Ton têm também uma relação com a natureza e as relações filosóficas e artísticas possíveis de se desenvolverem a partir de releituras dela. Do ponto de vista plástico, suas pinturas incorporam e expandem noções há muito discutidas por Cézanne, segundo quem “tudo na natureza pode ser modelado como esferas, cones, cilindros…”, como consta na publicação “Souvenirs sur Paul Cézanne et lettres inédites” na Revista Mercure de France, pelo pintor simbolista Émile Bernard em 1907. Embora a pintura ocupe lugar central no sistema e na História daquilo hegemonicamente denominado como Arte, faz-se necessário alimentar o fluxo de artistas e atuantes que rompem com a centralidade da obra, expandem sua produção ao máximo. No caso de Antonio Ton, suas pinturas e esculturas são absolutamente bem elaboradas em termos plásticos, técnicos e filosóficos. Mesmo assim, são frações de uma prática muito mais contundente e fundamentalmente externa à maior parte dos ambientes expositivos e galerias comerciais. Sua prática começa e se expande nas ruas, quadras, lixos e esquinas. Uma arte que pertence ao mundo em diversos aspectos. Não é a única a ter sua própria “identidade” possuída por diversos sujeitos, é verdade. Mas é também uma das atividades artísticas que insistem bravamente no espaço público e no que dele reverbera. Ton o faz de forma coerente, ética, norteado por pilares construídos ao longo de anos de arte urbana com comprometimento mais voltado para ação coletiva do que para o sistema que rege as Artes. Há nessa perspectiva algo de valioso.

SUAS PINTURAS E ESCULTURAS SÃO ABSOLUTAMENTE BEM ELABORADAS EM TERMOS PLÁSTICOS, TÉCNICOS E FILOSÓFICOS. MESMO ASSIM, SÃO FRAÇÕES DE UMA PRÁTICA MUITO MAIS CONTUNDENTE

O GIRASSOL
Pensando obras-espaços Antonio Ton recentemente realizou pinturas numa casa que servirá para gravação de um reality. Mobilizando quinas, recompondo noções espaciais e plásticas, o artista se aproxima de mais uma forma de reinventar o espaço através das cores e formas, estabelecendo uma intervenção na arquitetura de forma que o quadro se dissolve pela composição do espaço – aquilo que Ferreira Gullar, se referindo ao neoplasticismo, definiu como “integração da pintura na arquitetura”. Isso significa que o exercício da pintura se torna não apenas um elemento de subjetivação da tela, mas também do seu entorno, beirando assim a plasticidade de uma construção. É possível observar a atuação de Ton e lembrar do Hélio Oiticica sobre quem Celso Favaretto, no artigo “transformar a arte, mudar a vida”, escreveu: “(seus trabalhos) propõem o experimentalismo (o experimental, como ele prefere) e a crítica cultural como vultos de um mesmo processo de ressignificação da arte. (…) Inconformismo estético e social, radicalidade e marginalidade (nada circunstancial), exemplares na vanguarda brasileira”. Favaretto mais complexo e poético continua: “a extensão da arte na vida, a proposta da criatividade generalizada, inicialmente pela conquista do ‘espaço real’, fora do quadro, paulatinamente com a proposição de âmbitos e ‘estruturas germinativas’ para comportamentos, embora insistindo na tônica sensorial, desligam os efeitos perceptivos e afetivos de uma espontaneidade irracionalista e anticonceitual (…) A tensão entre ‘o conceituai’ e ‘o fenômeno vivo’ não subscreve a adesão ou abandono, ao vivido mistificado ou folclorizado; propõe a abertura como fundação de estruturas-comportamento, ‘células-comportamento’, que implicam redimensionamento cultural dos participantes”. No caso de Antonio Ton, pensando a importância de “redimensionar” ou ressignificar, nos salta a contundência da arte urbana. Pensando a importância dos materiais que integram uma obra e nas suas variadas formas de fazê-la, se ressalta a radicalidade do reuso.

Quadra no Rock the Mountain (2022) [Foto: cortesia do artista]
“O girassol mesmo morrendo, ainda mira o Sol” é outro lema de Antonio Ton cujo teor filosófico se desdobra nas práticas artísticas. De imediato, nota-se a ode à esperança que definitivamente está nesta formulação e nas práticas do artista. Nos seus grafites, pixos, pinturas, esculturas, podemos perceber a vibração, luz, cores e gestos que miram o Sol – signo de guia e vida. Nos trabalhos de Ton, temos uma proposição que, no fundo, versa sobre algum grau de familiaridade, reinserção, acolhimento no sentido também de convite, provocação. Em termos poéticos são mesmo pontos presentes na rua, no uso, reuso, descarte e vida de tudo. Faz-nos pensar no prazer que um conjunto de formas nos dá, bem como no prazer que tal conjunto numa quadra reativada pode proporcionar. Entre o girassol e a beleza interna/inerente ao mundo, sopros de esperança em direção ao que precisa ser feito (e a rua pede) e àquilo que não é visto mas pode-se revelar. Em verdade, os fósseis da urbe (lixo) utilizados na primeira exposição de Antonio Ton, se reinventam como força motriz de outras vidas, outras formas, muitas cores e, enfim, esperança.