Durante as três semanas que duraram as atividades da oficina Escrever o rio, que desenvolvi com apoio da quarta edição da residência Arte Celeste – para não falar dos meses dedicados à preparação das aulas –, fiquei pensando sobre o termo “experimental” e o que esse adjetivo significa em um mundo onde toda a transgressão parece ter sido sequestrada pela retórica da publicidade. No transcorrer dos dias, à medida que fui conhecendo meus alunos com o olhar filtrado por tantas leituras – Ricardo Piglia, Olga Tokarczuk, Aline Motta, Jean-Paul Alègre, Rebecca Solnit e Milton Santos foram bons pontos de partida –, me afeiçoei à noção de que uma oficina “experimental” seria aquela que valorizasse, antes dos resultados obtidos, os processos desenvolvidos na elaboração desses resultados.
Além disso, me interessava pensar uma oficina cujo percurso fosse alterado – e reconstruído – durante sua realização. Ideias debatidas, pontos de vista cruzados, contradições, epifanias, tudo o que acontecesse durante um encontro viria a recair sobre si para seguir avançando em direção ao próximo, fortalecido pela própria experiência. Mais ou menos como um rio.
O Rio Pinheiros, entretanto, não é um rio. Fora do léxico das placas de rua e conversas informais, ninguém o chama assim – chamam de canal. A razão disso são as mutilações que sofreu ao longo do último século. Sua retificação, a inversão do curso das águas para o fornecimento de energia, a instalação de usinas como a Traição e a quantidade de resíduos ali despejados fazem com que aquele “rio” esteja mais para um fantasma. Ou melhor, uma ficção.
Quem explica tudo isso é P., curadora do projeto, ajoelhada sobre uma poltrona da van que nos leva até o Parque Linear. Penso como faz sentido que o dia esteja cinza e chuvoso. É difícil avaliar o que eu estava sentindo naquele momento. Havia nervosismo – inerente ao experimentalismo –, mas também um sentimento mais complexo: a convicção de que aquele grupo seria capaz de erigir algo significativo. Após a tarde caminhando juntos sob a garoa, observando a forma como a chuva perturbava o reflexo dos arranha-céus, em que as conversas pareciam ir seguindo o ritmo lento dos nossos passos, e toda uma semana de introspecção e escrita, minhas suspeitas se confirmaram.
No sábado seguinte, mais uma vez, estou na rua de pedras onde fica a redação da celeste – espaço que, por alguma razão, faz com que eu me sinta tão calmo. Espero as pessoas chegarem. Enquanto isso, observo como o sol de outono imprime a folhagem das árvores sobre minha camiseta branca e o jeans azul. Abstratas e apagadas, as formas se desfazem em um segundo. A delicadeza dessa cena parece prefigurar o que senti poucos instantes depois, quando todos nós, reunidos em círculo, conversamos sobre a caminhada e cada um compartilhou o que havia confeccionado em termos de texto.
O que foi lido naquela tarde, razão de uma alegria que eu ainda não saberia nomear, é o que se apresenta nesta edição da revista. A seguir, leitores do futuro conhecerão os “sujeitos-rios” de Bruno Bispo, que, em uma curiosa inversão do sistema hierárquico, soube criar personagens represados, retificados, canalizados, sujos; verão a si mesmos nas reflexões especulativas de Camila Alba, bem como as sombras de seus espectros na “cidade-vodu” vislumbrada por ela no lusco-fusco das representações; escutarão os murmúrios de águas que conversam com suas margens e tentam entender limites no poema elíptico-linear de Vitor Melo; e, por fim, realizarão a travessia a bordo dos poemas-infiltração de Pedro Martins, cuja sensibilidade foi capaz de perceber algo de orgânico na paisagem de plástico.
De todas as coisas que vimos naquela tarde de caminhadas, a que mais me tocou foi a imagem da Ponte Velha do Morumbi, interrompida em um meio-lugar entre a promessa e a ruína. A estrutura de cimento coberta por ervas daninhas e arbustos, junto à percepção de que às vezes uma ponte pode não levar a lugar algum, me fez pensar nas mudanças da minha vida neste último ano, as tantas coisas que foram arrastadas pelo curso implacável do tempo. Fiquei triste por um instante, mas logo vi os guarda-chuvas dos meus alunos lá embaixo e percebi como, naquele momento, quem construía pontes éramos nós – que, mais que escritores, havíamos nos convertido em engenheiros. Engenheiros do invisível. Empenhados em nossa tarefa de escrever – e reescrever – o rio.


