Uma passeata toma o quarteirão formado pelas ruas Barra Funda e Doutor Albuquerque Lins no fim da tarde de uma segunda-feira. A distância, o movimento que interrompe o trânsito de carros e pedestres lembra uma procissão. Na linha de frente, uma faixa anuncia “Assembleia de Deuses”. O artista Paulo Nazareth, idealizador da performance, foi quem organizou a posição dos voluntários, colocando-se no centro da marcha e segurando uma faixa que destoava do léxico evangélico, surpreendendo os desavisados: “Jesus é um homem negro”.
Este foi o rito de abertura da individual NAZARETHANA, na Galeria Mendes Wood DM, em São Paulo. A exposição se apresenta como uma cartografia de eixos de Paulo Nazareth – familiares, divinas ou territoriais –, que atravessam e são atravessadas por memórias fragmentadas. Ao celebrar sua mãe, Ana Gonçalves da Silva, e sua avó, Nazareth Cassiano de Jesus, em orações como “Glória a deus, glória à deusa! Glória à sua mãe e à minha mãe também!”, o artista reafirma a razão pela qual leva o nome dela em suas caminhadas pelo mundo.
A mais emblemática delas ocorreu há 13 anos. Nazareth partiu de Minas Gerais, seu estado natal, e atravessou a pé, por terra e água, mais de 15 países do continente americano, até chegar em Nova York, nos Estados Unidos. A série Notícias de América (2011-2012), é destaque na lista das cem melhores obras do século 21, publicada pela revista ARTnews, e documenta as nuances que cruzam as fronteiras entre o Sul e o Norte, confrontando questões que perpassam a obra do artista, como imigração, crise climática e colonialismo na globalização.
Ao mesmo tempo que desmantelava fronteiras, a caminhada de 18 meses desdobrou-se em dimensões éticas, por meio do encontro com outras pessoas, fosse ao compartilhar a vida cotidiana em suas casas ou ao ampliar debates sobre território e costumes que se distanciam e se aproximam na mesma potência entre nacionalidades latino-americanas.
Pouco antes da passeata, Paulo Nazareth e eu nos reunimos na área externa da galeria para revisitar Notícias de América. Nesta entrevista em que as perguntas são imagens das obras da série e as respostas são as memórias e atualizações do artista aos territórios percorridos, com um recuo temporal de quase 15 anos, voltamos à Guatemala, ao Golfo do México, à fronteira entre San Diego, Tijuana, Nicarágua e Nova York.
1 Golfo do México
Busco Barco Para Cuba, da série Notícias de América, 2011
PAULO NAZARETH: Essa imagem foi ali na Costa do México, na costa caribenha, no Mar do México. Repito: o Mar do México. Porque muita gente não entende, não sabe que esse mar é do México – Golfo do México ou Gulf of Mexico, for english understanding. Acho que essa imagem permanece até hoje e fica cada vez mais forte. Eu estava literalmente buscando, no sentido hispânico da palavra, de procurar. O movimento que eu fazia era de procurar barcos para chegar à ilha de Cuba. E, conceitualmente, também buscava isso. Me diziam sempre que todos os barcos seguiam para os Estados Unidos, nesse contexto da América Latina. E esses barcos são proibidos até hoje, por causa do embargo, desde a Revolução Cubana. Algo que é reforçado agora, com a taxação estadunidense e a guerra tarifária. Então, essa fotografia talvez seja no ponto mais próximo do México em relação à ilha de Cuba, ali na Península de Yucatán, quando o continente avança sobre o Golfo. É quase na ponta sul do Golfo, bem perto de Cuba, mas, mesmo assim, não há barcos. Ao fundo aparece um cruzeiro. Se não me engano, ele vinha da Península da Flórida. Muitos cruzeiros chegam ali vindos da Flórida e fazem esse trajeto. Mas Cuba, que está tão perto, não tem essa ligação – por toda essa questão política do embargo.
Lembro também que, enquanto fazia essas imagens, a polícia me pegou. Me colocaram na carroceria de uma picape e começaram a perguntar de onde eu vinha, para onde ia, a pedir documentos. Disseram que iam me levar para a imigração, mas fizeram um caminho totalmente inverso, me interrogando. Perguntavam que dinheiro eu usava. Talvez fosse estranho, para eles, alguém buscar barcos para chegar em Cuba; e, por outro lado, era uma polícia interessada em extorquir. Eu dizia que não tinha dinheiro e que “uso qualquer um, o que tiver na mão, mas agora não tenho nenhum”. Queriam saber se eu conhecia alguém no México. Aí eu tinha me hospedado na casa de um amigo, alguém com quem fiz amizade na travessia, então fui nomeando pessoas e lugares onde eu conhecia gente. Até que, no final, me deixaram ir embora. Ainda disseram: “Você não pode usar esse cartaz aqui. Vamos te liberar agora”. Isso era, mais ou menos, 4 horas da tarde, porque a imigração tá fechada. E não tava nessa hora. Então eu dei sorte. Como viram que eu não tinha o que queriam, acabaram me liberando. Esse trabalho fala disso: do barco físico, mas também dessa busca. Do meu movimento em direção a Cuba, mas também da ideia de um barco que rompa o embargo e essa relação de poder entre um Estado bélico e Cuba.
2 Guatemala
Série Notícias de América, 2012
Estamos nesse lugar que seguimos até hoje – da exotificação do ser latino, do ser indígena, do ser afro. Essa é uma imagem na Guatemala, com uma família que também conheci pelo caminho. Esse aí até hoje é um grande amigo, compadre e padrinho do meu filho e da minha filha. É a família Apén, que é da parte materna da família Calel. Ricardo, Pedro, Júlio e outros são da família de Vidalia, a mãe e além de suas irmãs. O irmão e filho de Feliciana foi detido e desaparecido pela polícia no princípio da década de 1980, sofreu com a ditadura Guatemalteca. Elas são pessoas Maia Caqchiquel e, nesse período da ditadura, era proibido falar outras línguas que não fosse o espanhol. Outras línguas guatemaltecas, indígenas ou afro, como o garífuna. Se não fosse o espanhol, ou uma língua de origem europeia, era proibido falar.
3 Fronteira entre San Diego e Tijuana
Sem Título, da série Notícias de América, 2011-2012


Mas depois de anos eu voltei. Na verdade, eu faço esse caminho desde então, eu nunca chego nos Estados Unidos voando, sempre que, por algum motivo, vou aos Estados Unidos, faço o caminho por terra. Então, anos mais tarde, acho que talvez dez anos depois ou mais, os drones já estavam populares e o que estava surgindo eram os robôs-cachorros, que entram debaixo de carros e dentro de bueiros. Essa era a nova arma de fiscalização de imigrantes. Imigração, por sua vez, que sempre acontece pela instabilidade econômica provocada por questões políticas. Ninguém quer sair da Guatemala; povos originários e indígenas não querem sair da Guatemala. Mas, no contexto da ditadura promovida pelos Estados Unidos, as pessoas têm de migrar. As pessoas da Guatemala, Honduras e El Salvador. Toda uma questão de violência que é provocada por outra violência.
4 Arizona
Sem Título, da série Notícias de América, 2011-2012

5 Talvez na Nicarágua, não me recordo exatamente
Sem Título, da série Notícias de América

6 Mérida, México
Sem Título, da série Notícias de América

7 New York
Sem Título, da série “Notícias de América”, 2011

(2011), de Paulo Nazareth [Foto: Cortesia Galeria Mendes Wood DM]
8 Cidade do México
Sem Título, da série Notícias de América, 2011-2012

E o México é um grande corredor. Eu sou de um lugar onde as pessoas emigram para os Estados Unidos. Desde que me lembro, escuto histórias de quem foi, quem voltou, quem morreu, quem desapareceu, quem teve sucesso, quem não teve. No Vale do Rio Doce, o México sempre foi um lugar de passagem: é preciso atravessá-lo para chegar aos Estados Unidos. E, nesse imaginário, ele surge como um lugar perigoso – não o país em si, mas os caminhos que escolhem em cada caminhada. Visto por esse olhar, o México é o inferno que se deve atravessar para chegar ao céu dos Estados Unidos. O México tem essa relação muito forte com os Estados Unidos, está impregnado por ele e, ao mesmo tempo, luta por um afastamento. Reivindica e valoriza a cultura pré-hispânica e tem orgulho da história anterior à colonização. Há essa dualidade que estando ali se aprende.