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Série Notícias de América (2011/2012), de Paulo Nazareth [Foto: Cortesia Galeria Mendes Wood DM]
Postado em 21/10/2025 - 3:40
Eu me lembro
Paulo Nazareth revisita série produzida ao longo de 18 meses de caminhada e comenta imagens produzidas no caminho de Governador Valadares a Nova York

Uma passeata toma o quarteirão formado pelas ruas Barra Funda e Doutor Albuquerque Lins no fim da tarde de uma segunda-feira. A distância, o movimento que interrompe o trânsito de carros e pedestres lembra uma procissão. Na linha de frente, uma faixa anuncia “Assembleia de Deuses”. O artista Paulo Nazareth, idealizador da performance, foi quem organizou a posição dos voluntários, colocando-se no centro da marcha e segurando uma faixa que destoava do léxico evangélico, surpreendendo os desavisados: “Jesus é um homem negro”. 

Este foi o rito de abertura da individual NAZARETHANA, na Galeria Mendes Wood DM, em São Paulo. A exposição se apresenta como uma cartografia de eixos de Paulo Nazareth – familiares, divinas ou territoriais –, que atravessam e são atravessadas por memórias fragmentadas. Ao celebrar sua mãe, Ana Gonçalves da Silva, e sua avó, Nazareth Cassiano de Jesus, em orações como “Glória a deus, glória à deusa! Glória à sua mãe e à minha mãe também!”, o artista reafirma a razão pela qual leva o nome dela em suas caminhadas pelo mundo.

A mais emblemática delas ocorreu há 13 anos. Nazareth partiu de Minas Gerais, seu estado natal, e atravessou a pé, por terra e água, mais de 15 países do continente americano, até chegar em Nova York, nos Estados Unidos. A série Notícias de América (2011-2012), é destaque na lista das cem melhores obras do século 21, publicada pela revista ARTnews, e documenta as nuances que cruzam as fronteiras entre o Sul e o Norte, confrontando questões que perpassam a obra do artista, como imigração, crise climática e colonialismo na globalização. 

Ao mesmo tempo que desmantelava fronteiras, a caminhada de 18 meses desdobrou-se em dimensões éticas, por meio do encontro com outras pessoas, fosse ao compartilhar a vida cotidiana em suas casas ou ao ampliar debates sobre território e costumes que se distanciam e se aproximam na mesma potência entre nacionalidades latino-americanas.

Pouco antes da passeata, Paulo Nazareth e eu nos reunimos na área externa da galeria para revisitar Notícias de América. Nesta entrevista em que as perguntas são imagens das obras da série e as respostas são as memórias e atualizações do artista aos territórios percorridos, com um recuo temporal de quase 15 anos, voltamos à Guatemala, ao Golfo do México, à fronteira entre San Diego, Tijuana, Nicarágua e Nova York.

Busco Barco Para Cuba, da série Notícias de América (2011), de Paulo Nazareth [Foto: Cortesia Galeria Mendes Wood DM]

1 Golfo do México
Busco Barco Para Cuba, da série Notícias de América, 2011

PAULO NAZARETH: Essa imagem foi ali na Costa do México, na costa caribenha, no Mar do México. Repito: o Mar do México. Porque muita gente não entende, não sabe que esse mar é do México – Golfo do México ou Gulf of Mexico, for english understanding. Acho que essa imagem permanece até hoje e fica cada vez mais forte. Eu estava literalmente buscando, no sentido hispânico da palavra, de procurar. O movimento que eu fazia era de procurar barcos para chegar à ilha de Cuba. E, conceitualmente, também buscava isso. Me diziam sempre que todos os barcos seguiam para os Estados Unidos, nesse contexto da América Latina. E esses barcos são proibidos até hoje, por causa do embargo, desde a Revolução Cubana. Algo que é reforçado agora, com a taxação estadunidense e a guerra tarifária. Então, essa fotografia talvez seja no ponto mais próximo do México em relação à ilha de Cuba, ali na Península de Yucatán, quando o continente avança sobre o Golfo. É quase na ponta sul do Golfo, bem perto de Cuba, mas, mesmo assim, não há barcos. Ao fundo aparece um cruzeiro. Se não me engano, ele vinha da Península da Flórida. Muitos cruzeiros chegam ali vindos da Flórida e fazem esse trajeto. Mas Cuba, que está tão perto, não tem essa ligação – por toda essa questão política do embargo.

Lembro também que, enquanto fazia essas imagens, a polícia me pegou. Me colocaram na carroceria de uma picape e começaram a perguntar de onde eu vinha, para onde ia, a pedir documentos. Disseram que iam me levar para a imigração, mas fizeram um caminho totalmente inverso, me interrogando. Perguntavam que dinheiro eu usava. Talvez fosse estranho, para eles, alguém buscar barcos para chegar em Cuba; e, por outro lado, era uma polícia interessada em extorquir. Eu dizia que não tinha dinheiro e que “uso qualquer um, o que tiver na mão, mas agora não tenho nenhum”. Queriam saber se eu conhecia alguém no México. Aí eu tinha me hospedado na casa de um amigo, alguém com quem fiz amizade na travessia, então fui nomeando pessoas e lugares onde eu conhecia gente. Até que, no final, me deixaram ir embora. Ainda disseram: “Você não pode usar esse cartaz aqui. Vamos te liberar agora”. Isso era, mais ou menos, 4 horas da tarde, porque a imigração tá fechada. E não tava nessa hora. Então eu dei sorte. Como viram que eu não tinha o que queriam, acabaram me liberando. Esse trabalho fala disso: do barco físico, mas também dessa busca. Do meu movimento em direção a Cuba, mas também da ideia de um barco que rompa o embargo e essa relação de poder entre um Estado bélico e Cuba.

Série Notícias de América (2011), de Paulo Nazareth [Foto: Cortesia Galeria Mendes Wood DM]

2 Guatemala
Série Notícias de América, 2012

Estamos nesse lugar que seguimos até hoje – da exotificação do ser latino, do ser indígena, do ser afro. Essa é uma imagem na Guatemala, com uma família que também conheci pelo caminho. Esse aí até hoje é um grande amigo, compadre e padrinho do meu filho e da minha filha. É a família Apén, que é da parte materna da família Calel. Ricardo, Pedro, Júlio e outros são da família de Vidalia, a mãe e além de suas irmãs. O irmão e filho de Feliciana foi detido e desaparecido pela polícia no princípio da década de 1980, sofreu com a ditadura Guatemalteca. Elas são pessoas Maia Caqchiquel e, nesse período da ditadura, era proibido falar outras línguas que não fosse o espanhol. Outras línguas guatemaltecas, indígenas ou afro, como o garífuna. Se não fosse o espanhol, ou uma língua de origem europeia, era proibido falar.

3 Fronteira entre San Diego e Tijuana
Sem Título, da série Notícias de América, 2011-2012

Série Notícias de América (2012), de Paulo Nazareth [Foto: Cortesia Galeria Mendes Wood DM]
Sem título, da série Notícias de América (2011/2012), de Paulo Nazareth [Foto: Cortesia Galeria Mendes Wood DM]
Aqui é San Diego, bem próximo ao mar e ao muro que separa a cidade de Tijuana. Mas San Diego já é do lado estadunidense, na Califórnia. A cidade de Tijuana é muito colada no muro. Assim, ela acontece por muitos lados e está bem presente do lado do muro. Já San Diego é uma cidade que se afasta. Eles criaram uma reserva ecológica, na verdade criaram não por ecologia, mas para evitar que as pessoas pulassem e já estivessem dentro da cidade. Então é uma área desértica e é fácil pegar as pessoas se elas pularem o muro. Nessa época, estava começando o uso de drones, era uma coisa que não era tão conhecida. E as pessoas falavam de objetos voadores, objetos de luz, já que não sabiam o que era, e invadiam o espaço aéreo de Tijuana e o entorno da cidade. Então eram essas máquinas que hoje são muito conhecidas, que ficavam vigiando a fronteira e invadiam o espaço aéreo mexicano.

Mas depois de anos eu voltei. Na verdade, eu faço esse caminho desde então, eu nunca chego nos Estados Unidos voando, sempre que, por algum motivo, vou aos Estados Unidos, faço o caminho por terra. Então, anos mais tarde, acho que talvez dez anos depois ou mais, os drones já estavam populares e o que estava surgindo eram os robôs-cachorros, que entram debaixo de carros e dentro de bueiros. Essa era a nova arma de fiscalização de imigrantes. Imigração, por sua vez, que sempre acontece pela instabilidade econômica provocada por questões políticas. Ninguém quer sair da Guatemala; povos originários e indígenas não querem sair da Guatemala. Mas, no contexto da ditadura promovida pelos Estados Unidos, as pessoas têm de migrar. As pessoas da Guatemala, Honduras e El Salvador. Toda uma questão de violência que é provocada por outra violência.

4 Arizona
Sem Título, da série Notícias de América, 2011-2012

Série Notícias de América (2011/2012), de Paulo Nazareth [Foto: Cortesia Galeria Mendes Wood DM]
Perto do Grand Canyon, território originário. O que apresento é o direito à paisagem. Esse é um território indígena e muitos povos originários foram expulsos daí. Nessa fronteira, por exemplo, seguindo para Oeste, tem um monte alto que fica do lado dos Estados Unidos, e é uma montanha onde, por muito tempo, bem antes de Colombo, as pessoas subiam para realizar rituais sagrados. E, ao longo do tempo, com a fundação do estado, e agora esse muro, as pessoas que vivem do lado mexicano não podem mais subir o monte em que subiam há milhares de anos porque criaram o muro aí e dizem e têm medo que imigrem para os Estados Unidos. Esse é um território originário, mas que é apropriado e as pessoas são impedidas de realizar seus costumes milenares. 

5 Talvez na Nicarágua, não me recordo exatamente
Sem Título, da série Notícias de América

Sem título, da série Notícias de América (2012), de Paulo Nazareth [Foto: Cortesia Galeria Mendes Wood DM]
No agronegócio, o Estado insiste em continuar sendo um vendedor de matéria bruta. A gente não vende doce de banana, a gente prefere vender banana e depois comprar o doce. A gente prefere vender laranja e comprar o suco engarrafado. Eu falo dessa industrialização que fica pela metade. Então, quando o Juscelino Kubitschek fala ali 50 [anos] em 5, não tem sucesso. A gente continua sendo um país fornecedor de matéria bruta, seja banana, seja ferro ou qualquer mineral. Em nome desse progresso que não chega até nós, e sim às multinacionais. Desse trabalho, por exemplo, eu tenho outra obra que está na Guatemala agora, que é uma banana imersa, talvez a gente tenha até um desenho aqui [na exposição da Mendes Wood DM]. Metade da banana é imersa no petróleo, criando essa conversa entre matérias-primas. 

6 Mérida, México
Sem Título, da série Notícias de América

Sem Título, da série Notícias de América, de Paulo Nazareth [Foto: reprodução]
Esse azul se transforma em vários trabalhos. Você pode ler ele como uma grande piscina ou como o próprio oceano. Em 2022, por exemplo, apresentei no The Power Plant, em Toronto, uma grande piscina feita com um contêiner. Ela é pintada, cheia de água e ácido. Piscina é, ao mesmo tempo, piscina, mar e contêiner – já que muita gente emigra dentro de contêineres. Então, o lugar da piscina é o lugar da mercadoria. Quando falo das pessoas que são levadas para Barbacena [MG], como minha avó, ela vai dentro de um trem; mandam ela num trem que transportava gado e mercadorias. Isso aconteceu muito nos anos 1990 e, na virada dos 2000, muita gente chegava de Angola em Salvador em container, por exemplo – e isso ainda acontece. Muitos chegam às Américas assim, atravessando o mar dentro de um contêiner, que é a piscina e o oceano. É também o cinema tropical [referência à obra em exibição na Mendes Wood DM, que reúne três projetos audiovisuais sobre a promessa de um filme ainda não realizado]. Como promessa de uma vida melhor. A piscina sempre foi um símbolo de status. As piscinas na favela, por exemplo, chegam a despertar ira na polícia: se existe uma piscina no morro, logo dizem que é de traficante. Os helicópteros e drones voam vigiando a fronteira de Tijuana e San Diego, as favelas do Rio de Janeiro, de Belo Horizonte e São Paulo.

7 New York
Sem Título, da série “Notícias de América”, 2011

Sem Título, da série Notícias de América
(2011), de Paulo Nazareth [Foto: Cortesia Galeria Mendes Wood DM]
Esse é “Não me esqueçam quando eu for um nome importante”. Esse está em inglês mas tem uma versão em espanhol, que faz um jogo com ‘homem’ e ‘nome’: “No me olvides cuando yo sea un nombre importante”. Então fica ‘un nombre’ e ‘un hombre importante’ ou um nome importante. Aí é um momento antes de eu ser um nome conhecido dentro do circuito das artes visuais, mas esse jogo também com o tempo, a promessa e o jogo da arte. O que jovens artistas sonham? Pensam? Um jogo com esse lugar da humanidade.

8 Cidade do México
Sem Título, da série Notícias de América, 2011-2012

Sem título, da série Notícias de América (2011/2012), de Paulo Nazareth [Foto: Cortesia Galeria Mendes Wood DM]
A poeira nos pés durante todo esse trajeto representa esse acúmulo. Mas, ao mesmo tempo, é o ato de pisar sobre a bandeira que muitas vezes nos é imposta. Uma bandeira que sempre esteve muito presente por meio dos filmes, da música e das roupas. É uma bandeira que se apropria, e foi fincada na lua. Tanto é que as pessoas a confundem como sinônimo de patriotismo.

E o México é um grande corredor. Eu sou de um lugar onde as pessoas emigram para os Estados Unidos. Desde que me lembro, escuto histórias de quem foi, quem voltou, quem morreu, quem desapareceu, quem teve sucesso, quem não teve. No Vale do Rio Doce, o México sempre foi um lugar de passagem: é preciso atravessá-lo para chegar aos Estados Unidos. E, nesse imaginário, ele surge como um lugar perigoso – não o país em si, mas os caminhos que escolhem em cada caminhada. Visto por esse olhar, o México é o inferno que se deve atravessar para chegar ao céu dos Estados Unidos. O México tem essa relação muito forte com os Estados Unidos, está impregnado por ele e, ao mesmo tempo, luta por um afastamento. Reivindica e valoriza a cultura pré-hispânica e tem orgulho da história anterior à colonização. Há essa dualidade que estando ali se aprende.