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Postado em 27/05/2024 - 6:08
Explicando para confundir
Nossas residentes reverberam as discussões e trabalhos apresentados durante o encontro com a artista transmídia antidisciplinar biarritzzz
Print do site de biarritzzz no qual a artista apresenta obras como o trabalho transmídia “Eu Não Sou Afrofuturista” (2020), mencionado por Bruna Fernanda [Disponível em https://www.biarritzzz.com/eu-nao-sou-afrofuturista]
Bruna Fernanda / Vozes Agudas

biarritzzz, em Eu Não Sou Afrofuturista (2020), deflagrou uma conversa muito interessante sobre o conceito de afrofuturismo e sua pertinência no contexto histórico e cultural brasileiro. A concepção de tempo que o estrutura é eminentemente moderna, baseado em noções de linearidade e sucessão progressiva dos acontecimentos. Outras compreensões sobre o tempo, no entanto, são possíveis. Diferentes cosmovisões localizam o futuro em lugares que não à frente, o fim último. Pensar o tempo reconfigura nossa forma de estar e compreender o mundo. Pergunto-me: o que é o futuro?

* A pesquisa artística/teórica em documentos históricos é, talvez, uma aparição do tempo espiralar, que sobrepõe presente e passado, ainda que a partir de aspirações diferentes daquelas do momento em que os discursos foram produzidos.

biarritzzz também trouxe para o debate as linguagens digitais e a tecnologia como objetos de arte. Quais os referenciais que a crítica deve mobilizar quando olha para esse tipo de produção? Lembrei de um livro de que apenas ouvi falar, coincidentemente no mesmo dia da conversa, chamado Feminismo Glitch, da estadunidense Legacy Russel. A curadora propõe a falha dos sistemas eletrônicos como um paradigma para uma organização feminista on e offline que nega os padrões cis-hétero-branco-normativos que se reproduzem nas tecnologias digitais. Também me veio à mente o ciberfeminismo de Donna Haraway, que retoma a dimensão do corpo na relação com as mais variadas tecnologias e nos lembra que é ele o elo entre o virtual e o físico. Os mundos que criamos digitalmente têm um lastro material inegável, mas esquecido: eles são, em algum lugar do planeta, máquinas que guardam as informações; eles têm referências culturais, estéticas, simbólicas e de linguagem que partem dos humanos e, portanto, das estruturas e sistemas humanos que ordenam a sociedade. O compromisso ético e político é, por fim, uma dimensão indissociável dessas produções artísticas e da crítica que a ela se reporta.

Laryssa Machada >>>

Prints do vídeo publicado no canal do African Film Festival, com trecho da fala do escritor e cineasta senegalês Ousmane Sembène no filme Caméra d’Afrique (African Cinema: Filming Against All Odds) (1983), dirigido por Férid Boughedir

Na pedrada “Por que ser um girassol e girar ao redor do sol? Eu sou o próprio sol.”, Ousmane Sembène traduz um pouco da sensação que saí sentindo da agitação de moléculas após o encontro com Bia. Dentre pautas ainda germinantes do encontro anterior (20/05), em desejos de copiar e brincar com as linguagens impopulares dos Arquivos Públicos Imperiais – leia-se, tampouco querer significá-las, talvez apenas quebrar as palavras e torná-las adereço gráfico, inverter a ordem, destituir o que não serve.

Bia faz das memórias da avó, adicionadas aos seus sonhos, imagens que pra europas talvez pouco narrem objetivamente. Mas os próprios símbolos são feitiços quando se é o próprio sol.

Me lembrou muito as fugas de certas obrigações de “temáticas do mercado” – assuntos que são adotados e dissecados até a exaustão pelo circuito da arte -, ainda que ainda dentro deles:

Eu tô te explicando pra te confundir,
Eu tô te confundindo pra te esclarecer,
Tô iluminado pra poder cegar,
Tô ficando cego pra poder guiar.
(Tô, Tom zé, 1976)

Vídeo concebido e performado por Meujaela Gonzaga @meujaela com fotografia e edição de Laryssa Machada @laryssamachada e
trilha adicional de Hugo Coutinho @hugoccoutinho

Link do site de Meujaela Gonzaga: https://meujaelgonzaga.wixsite.com/site/projects-3

Dentro do que viemos discutindo acerca da crítica infraestrutural, mergulho que a própria também se faz a partir da valorização de outras tecnologias – do corpo, da vó, das águas.

sem título (2023), de Laryssa Machada.
Fotografia analógica de câmera que caiu no rio negro

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Paula Alzugaray 

Sobre a linguagem da fotonovela, que surgiu esta semana (ou na passada!), na fala de Laryssa Machada sobre suas pesquisas recentes, anoto uma curiosa relação entre psicanálise, cultura de massas e folhetins, levantada em um trecho de “Os Sujeitos Trágicos (Literatura e Psicanálise)”, a conferência que o escritor Ricardo Piglia deu na Associação Psicanalítica Argentina, em 1997. 

Aponta o autor que, enquanto Vladimir Nabokov, novelista russo, via a psicanálise como um fenômeno da cultura de massa, o argentino Manuel Puig dizia que o inconsciente tem a estrutura de um folhetim: “Ele, que escrevia suas ficções muito interessado na estrutura das telenovelas e dos grandes folhetins da cultura de massa, conseguiu captar a dramaticidade implícita na vida de cada um, que a psicanálise põe como central na construção da subjetividade”.