Meio da tarde.
Dia de nuvens.
Absolutamente nada.
O último homem da última vila se levanta em um movimento brusco, repentino e repleto de vontade. Ele se levanta com a audácia que tinha décadas atrás: levanta como que impelido, como que sendo levantado. O último homem da última vila olha para além da última casa e se levanta. Vê, longe, e começa a andar.
O fato é que as décadas passaram não para aquele homem mas por ele, e não naquela vila mas com ela. O homem sabe, e sente. Mas seja por destino ou por qualquer poder inominado, a hora de o último homem passar, ele mesmo, pela última vila finalmente chega.
Ele se levanta e começa a andar, primeiro colocando os pés no asfalto liso que ele encarava todos os dias, o asfalto quente. O homem sente a rigidez das pernas e, ao sair da sombra, o calor do espaço. Ele dá os primeiros passos pelo portão metálico da própria casa e sob o brilho do sol sua pele reluz a óleo, mas sem lustre e manchada de ferrugem. Nas rachaduras do pavimento, a grama seca resiste a uma brisa fraca que também falha em agitar o cabelo e a barba cinzenta despontando entre as rugas do homem.
O tempo ali é vago, de uma forma estranha passa exatamente na mesma velocidade em que aquele homem dá seus passos. O último homem da última vila. Passam-se mais de uma dúzia de passos quando o ponto em que ele mirava, para depois da última casa, deixa de ser um ponto abstrato no espaço e vira uma mancha absoluta naquele céu antigo. Seria a fúria dos deuses, o triste destino, seria a natureza agindo ou o mais puro acaso, o poder inominado. Certamente é o que dá força para aquele homem se levantar, ainda que amarelo de muro velho e vítreo de janela opaca.
A mancha escura cresce com o avanço do último homem através da última vila, cresce e incendeia. Aos poucos rasga o céu com um rastro de chamas e fumaça, desce violento sobre as últimas casas. Mas na verdade só saberia ele mesmo, como na lenda da árvore que cai solitária fazendo estrondo num bosque vazio: quem dirá? Quem dirá que foi assim que passou a vila? Houve mesmo uma vila? Quem dirá que havia ali um homem? Feito do tijolo seco, da hera verde, da madeira bruta? Para aquela pedra que descia do céu restava apenas uma testemunha silenciosa, o último homem, o cúmplice da farsa.
Uma farsa ímpar. Incrível mas inegável. Onde todos encenam e ninguém assiste. Naquele teatro de sombras, dançam os homens antes do último, passo sim passo não, fazendo sua troça. Impondo sobre ela a realidade bruta das suas vilas. Fazendo dela sustento, respiro, alento, martírio. Inadvertidos, nascendo e morrendo em nome dela. Ela. Ela que agora rasgao céu em uma orbe em chamas. Inevitável como sempre havia sido.
Com a sola do pé no asfalto, enraizado pelas próprias veias, o último homem sustenta sua estatura, abre o peito e mira o céu. Sabendo que suas próximas palavras podem ser as últimas jamais pronunciadas, ele, calado, ensaia seu discurso. Todas as pessoas que passaram por ali, as que construíram aquela vila e tantas outras antes dela; todos os que puseram no lugar o seu próprio tijolo, tomando para si uma fração daquele espaço; todos os que a enfrentaram em algum momento, padeceram dela mesma. Exalaram seu último sopro de vida com o fôlego dela, sibilando seu nome, fosse em graça ou maldição, não tendo chance de dizer outra palavra. Agora esperavam pela redenção no que diria a ela o último deles, o último homem.
“Mãe?”
“Sim. Muito me agrada o reconhecimento, filho meu. Me sentia esquecida.”
“Como poderíamos esquecê-la?”
“Brincaram comigo primeiro, depois brincaram de mim. Meus filhos queridos, brincaram de fazer as coisas como eu os fiz. Fizeram seus lugares e fizeram suas vidas. Destruindo e construindo ao próprio gosto e para o próprio gozo aquilo que eu mesma lhes dei. Chamaram de doença e eliminaram outras criaturas que saíram de mim, do meu peito. Chamaram de catástrofe minhas obras mais intensas de expressão, de pura vida. Insatisfeitos com meu trabalho, com meu amor, fizeram da minha criação o que lhes agradava. Foi assim que esqueceram, criaturas tristes, se fazendo de mim e esquecendo que eu não fui a lugar algum.”
“Mas não estava aqui o tempo todo? Como firmei meus pés na sua terra? E como me nutri do verde que brota dela? E a carne que me fez? E o sangue que bebi? Não era você, minha mãe, que me fazia? Que nos fazia?”
“Quem senão o último de vocês para me ver como viram os primeiros, não é? Um ciclo perfeito. Por isso ainda está aqui.”
“Mas desapareço, mãe, nessa vila. Em cada pedaço que me vejo, me desfaço.”
“Sim. Assim como os outros antes de você.
Vocês crescem ao me consumir, avançam, se engrandecem; tudo às minhas custas e por nada senão pela minha vontade. Assim também é como morrem: pela minha vontade. Quando morrem eu os consumo, avanço, me engrandeço.
Dessa forma eu esperei todos vocês voltarem para mim. A diferença é que você, último dos homens, não vai conhecer a morte antes de conhecer quem sou.”
“Mãe, eu vejo como você vem.”
“Vou na minha forma mais viva. Carrego o calor de mil sóis e chego em breve. Mas não tema, meu filho, você não vai mais estar onde está. Seus pés já não são diferentes do meu chão e seu sopro não é diferente do meu vento. Sua paz não é diferente da minha fúria.”
“Antes, minha mãe, preciso falar por eles. Por nós.”
“Enquanto ainda puder fazer soar a sua voz separada da tempestade que eu trago, fale.”
“Falo para que não morram comigo essas palavras. Falo para colocá-las no mundo em que estou, em que estivemos:
Que no solo em que pisamos fique a lembrança do que fomos. Nas pedras que moldamos, a nossa existência.
Que no som do vento que soprará ainda nessa terra ecoem os gritos do nosso povo, que buscou as estrelas e lutou com justiça.
E se, das cinzas, de nós surgir a chama de outros, que para eles essas nossas marcas sejam lição.”
“Filho meu, de vocês, nada restará. Não haverá pedras cujos moldes lembrem suas mão ou palavra que ecoe sua língua.
A existência a que se apegaram termina aqui.
Acaba assim.”
“Eu não entendo.”
“Não?
Eu existo e ocupo este lugar há tanto tempo quanto o próprio tempo existe. Já vocês, nasceram de mim. Deram tantos passos quanto eu permiti. E só. Caminharam comigo. E só.
Quando, em breve, eu chegar nessa forma, será o fim de vocês e de tudo o que fizeram, sem pedra sobre pedra. Mas essas mesmas pedras são o que eu sou.
Quando arruinarem suas cidades, caírem seus monumentos, arderem seus jardins, suas vestes e sua pele, voltarão ao pó. Esse pó que também é o que eu sou.
Entende? Vocês acabam assim queridos filhos.”
“Perdoa, mãe, os antepassados. Viveram pela conquista, aprenderam a violência, permaneceram de própria força. Se eles sonharam com o poder, eu , sem força alguma, clamo pela lembrança. Quero ficar.”
“Não há o que perdoar pois não erraram em fazer o que lhes cabia, e não haverá onde ficar pois eu também não erro e farei o que me cabe.”
Calou-se. A última palavra foi dita. O último homem já não o era mais.
A chama desceu pesada e implacável, abraçando no calor tudo de que era feito aquele mundo. Todas as vilas começando pela última, todos os homens além do último. Por toda a volta, abaixo e acima, tudo se incendeia.
Resta pedra, resta pó. Resta tudo o que ela é, esse poder inominado. Mas para o último homem, acaba assim.
Fim de tarde.
Tempo aberto.
Absolutamente nada.