Jovem, muito jovem, no interior da Escola Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro, ele participa de uma aula de modelo vivo ao ar livre, no pátio central.
Nuvens de conhecimentos me colocam a seu alcance.
Ainda que pouco, ainda que quase nada.
Encontro-o trajado conforme os padrões de início do século XX, e hoje reside apenas em fotos de um álbum de artistas; em uma pintura de “menina com fita no cabelo”; em quatro frases de enciclopédia digital.
Pele negra, muitos desejos, a mesma pose e postura. Entre uma foto e outra, em uma, alguma surpresa, já na outra, todos posam para um registro. Quem pode, ganha nome: José Pereira Dias Júnior permanece concentrado a desenhar a menina em pose profissionalizada. Ela não difere das mulheres e homens a posarem como modelos vivos, mas provavelmente o cachê é mais barato, ou nem há. Talvez uma conhecida? Exposta, nua, num tempo que fazia crer não haver maldade nos olhares e aproximações de sua inocência e de seu anonimato. Ali é a única em desimportância de nome. Os outros são Moysés da Silva e Manoel Domeneck, artistas com diferentes tempos de desenho já desenvolvidos nesse registro. Vejo as fotos em ordem inversa a apresentada pelos números do álbum de artistas. Troco a 21 e início com a folha número 25. Nessa ordem estão todos desenhando e Silvia Meyer atende ao chamado do fotógrafo – o mesmo que depois organiza o álbum que agora observo. Dias Júnior chega próximo de Silvia para a foto. Silvia assume pose de seu costume com o lugar e a prática do desenho. Esboços, traçados, e é chegado o momento de pensar os sombreados, as luzes da manhã a refletirem na pele da menina. Mas esta aproveita a pausa e senta para descansar. Num mesmo lugar, as sombras são outras.


No álbum, o registro de outra criança nua, em aula de escultura. E sabe-se lá o que essas meninas já viveram e presenciaram a partir de uma pressuposição de pureza e de ingenuidade. Outras mulheres retratadas em outra aula de desenho, e percebo como elas permeiam aquele ambiente, ainda que acabemos conhecendo poucas no período, como excepcionalidades [1] do métier, e mal se fale dos salões e exposições femininos. Uma menina, uma mulher e um jovem negro. Numa mesma fotografia três personagens que sabemos não serem comuns àquela escola em sua origem. Naturalmente, ao verificá-los nesse tempo e nos indícios de tranquilidade e hábito de suas relações com o espaço e a aula de desenho, calculo o que se modificou dos modelos iniciais de ensino, e o que poderiam ter sofrido, agonizado, ou comemorado, exaltado em suas convergentes presenças.

Seus talentos foram descobertos. Situações se apresentam, e Dias Júnior participa de aula-visita a exposições de seus contemporâneos. O ano era 1912 e, embarreirado atrás de uma fileira de homens brancos, seu semblante é de satisfação. Já pertencia ao grupo com estudos há dois anos. E convivia com alguns dos proeminentes personagens da academia, sobretudo escultores, um jornalista, e o próprio artista a expor no local, J. Baptista Bondon, à sua frente.
Sua genuína empolgação não fica evidente na Exposição de Gaspar Magalhães, de 1913. O artista e os demais alunos e professores, aparentam semelhantes olhares surpresos. Não era foto posada, mas registra a seriedade do evento a esmiuçar as qualidades das obras em observação. Ela une outros personagens além dos artistas habituais. Dias Júnior vinha na frente, se aproximava das imagens para observá-las em detalhe. Ouvia o autor das obras; os amigos artistas, entre eles, o que fazia troça durante o registro; a opinião da criança que os acompanhava.


No desembarque do artista Anibal Mattos, Dias Júnior se posiciona à frente, com confiança e um estado mais “à vontade” que os demais. Uma jovialidade e pertencimento para depois ganhar o prêmio de viagem ao exterior, em 1916. E entre as quatro frases em que consta na enciclopédia digital, ele participou com obras em exposições, mas só a “Menina com fita no cabelo”, de 1910 [?], aparece em seu nome. Com ar melancólico, não foge às qualidades da fatura esperada à época, e os acabamentos pictóricos incluem:
Pinceladas mais ou menos largas,
luzes e sombreamento em forte contraste ao volume corporal,
tratamento do fundo como sugestão ótica de revestimento floral,
linhas de contorno visíveis,
assinatura dentro dela.
Onde ele também estava presente “dentro dela”? Em sua melancolia, ou paralelo a sua mocidade. A menina não é tão mais jovem que seu pintor em sua breve vida de 1897 a 1921. Como um texto curto, cheio de mistérios e vontades de continuidade.
As legendas cursivas em títulos, e a cada imagem do álbum, mostram nomes conhecidos pelo seu organizador, Nogueira da Silva. Vão claramente configurar a importância arquivística daqueles momentos e de sua gente envolvida. Ele se coloca junto, diante e sabidamente historiografando suas relações. As folhas do álbum amarelam, as fotografias esmaecem e se eternizam em acervos digitais. O acesso não traz os cheiros, a poeira, as texturas, a destruição eminente com a gordura das mãos. Isso fica para a memória tátil de privilégio das experiências. Como diz Mbembe [2], o destino de tudo aquilo está na história que ele possibilita. Para cá são trazidas as porções do tempo em nova organização ao forjar suas conexões. E então, antes de fechar o álbum, recoloco uma imagem entre os demais artistas em destaque. Antes, um a um colocado em folha numerada. Acrescento uma folha de uma escrita de história do tempo breve, jovial, perspectivo, de crescimento que perdura enquanto nossa imaginação.

Referências
[1] SOARES, Débora Poncio. ENTRE APAGAMENTOS E LEMBRANÇAS: A artista Sylvia Meyer (1889 – 1955). Monografia. Universidade Federal do Rio de Janeiro. 2021. p. 12.
[2] MBEMBE, Achille. O poder do arquivo e seus limites. Trad. Camila Matos. In: Refiguring the archive. Springer, Dordrecht, 2002. p.19–27. p.3.
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Fabiana Ferreira de Alcantara é doutoranda em História da Arte, no Programa de Pós-Graduação em História da Arte (PPGHA), da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, com Mestrado em História da Arte (PPGHA-UERJ) e Mestrado em Design (PUC-Rio). É professora de ensino fundamental I e da Pós-Graduação em Ensino de Artes Visuais no Colégio Pedro II, Rio de Janeiro.
E-mail: fabiana_alcantara@hotmail.com