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Constelação com estrela vermelha (1986), de Delson Uchôa [Foto: Rafael Salim]
Postado em 17/04/2025 - 3:18
Geração expandida
Fullgás relativiza a preponderância do Parque Lage na arte brasileira dos anos 1980

Há dois anos, parte do pensamento crítico brasileiro deteve-se a relativizar a centralidade catalisadora do grupo paulistano, quando se deu o centenário da Semana de Arte Moderna de 22. Da capital fluminense, Ruy Castro publicou que o Rio não precisou forjar bravatas modernistas – pois já seria moderna uma “Metrópole à beira-mar”. Com seu livro Modernidade em Preto e Branco (2022), Rafael Cardoso informou que o modernismo oficializado negligenciou o samba e outras urbanidades incipientes como expressões. De minha parte, mais distante, publiquei Pernambuco Modernista (Cepe, 2022), para historiografar como o Recife de Cícero Dias, dos irmãos Monteiro e de Lula Cardoso Ayres, em diálogo com o regionalismo freyriano, tinha já uma concreta agenda modernista em andamento e além dos gritos no Teatro Municipal de São Paulo.

Agora, depois de três meses em cartaz no monumental CCBB-RJ e prestes a itinerar pelas outras unidades da instituição pelo país, a grandiosa mostra Fullgás relativiza – sem deixar de lhe prestar o necessário tributo – a centralidade da (agora histórica) exposição Onde Está Você, Geração 80?, evento que, a despeito da relativa pouca produção acadêmica em seu torno, vem ocupando a posição de mito centralizador da sensibilidade oitentista.

Amparados por consultores de cidades várias, os curadores Amanda Tavares e Talisson Melo, chefiados por Raphael Fonseca, se detiveram no esforço de evidenciar um dos grandes trunfos de Fullgás: o de informar que os legados estéticos e poéticos da chamada Geração 80 não podem ser resumidos apenas à eclosão da, inegavelmente fundamental, exposição realizada no Parque Lage – quando 123 artistas se reuniram na instituição carioca de ensino de artes sob a curadoria de Marcus Lontra.

“Não que Fullgás tente reescrever a história, mas deixar claro que havia gente fazendo arte em diversas partes do Brasil, embora no Parque Lage não houvesse apenas artistas do Rio e São Paulo, é importante deixar isso claro – posso citar rapidamente, por exemplo, Delson Uchoa, de Alagoas”, confirma Fonseca.

A exposição, portanto, avança em afirmar que a descolonização da história da arte não pode ser uma negociação apenas entre os chamados Sul e Norte Global – colocando em horizontalidade artistas validados, embora de origens mais amplas, por instituições sudestinas. Não foi apenas a partir do Parque Lage que o país teria se contaminado pela agenda oitentista. Fullgás apresenta mais de 300 obras de quase 250 artistas de todas as regiões brasileiras.

A exposição faz o público imergir nos partidos legados pelos artistas em atividade na primeira década pós-redemocratização do país – considerando, aliás, a “década” em seu tempo existencial expandido, a saber: da revogação do AI-5, em 1978, ao revigorante e ao mesmo tempo traumatizante impeachment de Fernando Collor, em outubro de 1992. Nesse aspecto, artistas e obras são sintetizados pelo ethos dos 80: o retorno à pintura figurativa, a subjetivação da paisagem, a reconciliação com a imagem – também em mídias insurgentes como o vídeo – em arranjos cromáticos antes banidos pelo “bom gosto”. Como também a adoção de materiais corriqueiros e pouco nobres, uma poética do corpo e do prazer com a afirmação de sexualidades além de heteronormatividade, o feminismo e questões afrodiaspóricas temperados pela refrescante cena pop de FMs e da tevê.

Perdia o protagonismo a austeridade da arte conceitual e anticomercial, uma certa ditadura anterior, em favor da emergência de um mercado mais sólido, capitaneado pela “amada e odiada” pintura. Aquela foi a década a parir as primeiras grandes estrelas vivas de trânsito internacional, nomes como Varejão, Cildo, Milhazes, Leonilson e Zerbini, por exemplo.

Constelação com estrela vermelha (1986), de Delson Uchôa [Foto: Rafael Salim]

QUE PAÍS É ESTE

Escrutinar uma década inteira de um país tão diverso, e, então, pouco integrado midiática e territorialmente, não é objetivo declarado de Fullgás. Mas, entre seus núcleos, a exposição lança luzes sobre movimentações ainda subscritas – o público sai da exposição, por exemplo, mais curioso sobre o Videobrasil, lançado em 1983 no MIS-SP como o primeiro festival a organizar a produção de vídeos, performances e instalações como expressão de novos criativos, entre eles José Celso Martinez Corrêa. Ou sobre as experimentações da TV Viva, de Olinda, de atuação militante abordando sobre a redemocratização. De qualquer forma, fica como lacuna a abordagem curatorial de movimentos de declarado apoio à redemocratização e popularização da arte, como as muitas brigadas muralistas que tomaram conta do País na década.

Para que a geração de 80 não pareça um grande mingau disforme em que o prazer e a urgência do corpo curavam a ressaca da ditadura recente, a exposição nos induz a ler a década por núcleos temáticos, informando também como artistas se revezavam em interesses. São cinco, no total, batizados com canções com poder de síntese, em textos apresentados em placas luminosas, outro sintoma do pop como espírito condutor.

Um dos núcleos é Que País é Este?, em que a canção da brasiliense Legião Urbana convida para um conjunto de trabalhos que refletem sobre a transição para a democracia (e para a instabilidade econômica da chamada década perdida, como no humor da obra 10 Centavos Assalta 1 Cruzado (1987), de Barrão.

O núcleo Beat Acelerado reúne artistas partidários de coreografias de cores em adesão aos “amores efêmeros” e ao prazer de uma nova ordem sentimental. É o caso de Overgoze (1981), de Eduardo Kac, do Movimento de Arte Pornô. Já o núcleo Diversões Eletrônicas – título de música de Arrigo Barnabé – ilustra o diálogo da arte com o futurismo oitentista de computadores gigantes, fotografias, videocassetes, VHS e walkmen. O paisagismo crítico, como antecipação de discussões ambientais, está em Pássaros na Garganta, que inclui uma icônica pintura da série Césio 137 (1986), de Siron Franco.

O Tempo Não Para, quinto e último núcleo da exposição, pondera sobre a melancolia – como aparece nas obras do pernambucano José Paulo e do paraibano José Rufino, que articulam histórias da ditadura e da própria família –, a finitude, a iminência do fim da liberdade sexual com o advento da (perversamente deturpada) epidemia de HIV e a busca do prazer urgente como cura e prevenção. Um núcleo que, mais explicitamente, conecta-se a Fullgás, título da exposição tomado de empréstimo da canção de Marina Lima e do irmão Antônio Cícero. Esta, desde 1984, um hino político e hedonista.

Ao abraçar o pop como estratégia, a exposição pretere academicismos herméticos em favor de uma linguagem ordinária e fluente e dilui barreiras. Devolve a década a quem a viveu e informa aos que vieram depois que os anos 80 têm cronologia dilatada. É uma época não encerrada em seus limites.

 

SERVIÇO

Fullgás
CCBB Brasília, até 27/4
CCBB SP, de 21/5 a 4/8
CCBB BH, de 27/8 a 17/11

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