ENQUANTO LABORATÓRIO DE PENSAMENTO E IMAGINAÇÃO GRÁFICA, A OFICINA GRÁFICA FLUVIAL FOI UM EXERCÍCIO DE OBSERVAÇÃO CRÍTICA DO ESPAÇO, QUE CONVIDOU OS PARTICIPANTES A PENSAR SOBRE AS OCORRÊNCIAS SOCIAIS, AMBIENTAIS E DEMOGRÁFICAS DO COTIDIANO ATRAVESSADAS PELAS ÁGUAS URBANAS.
A atividade foi dividida em três partes. O primeiro encontro abordou a linguagem gráfica de fanzines principalmente de ficção científica e cartazes relacionados a questões políticas e sociais no contexto urbano, a partir do livro Fanzines, de Teal Triggs, professora de desenho gráfico e colecionadora de fanzine, e o livro sobre cartazes políticos The Design Of Dissent, escrito e organizado pelos designers gráficos Milton Glaser, Mirko Ilic e Tony Kuschner. No segundo encontro, visitamos o Parque Bruno Covas, na margem do rio,em um dia nublado e chuvoso, o que contribuiu ao clima distópico estudado no primeiro encontro. Finalmente, em dois encontros no ateliê Firma, onde desenvolvo minha pesquisa gráfica como artista, os participantes da oficina colocaram a mão na massa para a produção de cartazes, postais e zines, nas técnicas de serigrafia e estêncil. Contamos com o auxílio da artista Thais Suguiyama, com quem divido o ateliê.
Os projetos realizados experimentam graficamente o conceito de resíduo e aproximando o contexto histórico e social observado com a linguagem escolhida. Enquanto Paula Halker trabalha com sobreposições de camadas imagens de postes de energia, prédios ondulados pelo reflexo da água e gotas de tinta prata que simulam resíduos de poluição, reforçando o cenário nublado da caminhada, Tadeu Jungle desenvolve sua pesquisa de poesia visual, desenhando letras a partir de figurações da paisagem.
Victória Lobo lida com a memória e a fotografia como resíduo. Sobre fotografias do Rio Pinheiros do começo do século 20, imprime a paisagem atual em tinta translúcida magenta. Com marcas comerciais em cartazes de propaganda colecionados durante o percurso no Parque, Raaby Sanchez elabora um cartaz que discute a privatização das margens do rio. Já com resíduos materiais de sacolas plásticas, Thais Suguiyama imprime flores e baratas em serigrafia. Luisa Pereira e Thiago Olival constroem uma fotografia para a ficção do filme a ser gravado, Tieta do Tietê, uma personagem que se banha com Coca-Cola e maços de cigarro. Douglas Cortinovis, que pesquisa formas de linguagem textual, decompõe a palavra DISCURSO com resíduos da própria impressão, construindo novos elementos gráficos e leituras.
Os trabalhos trazem à tona as ideias de Teal Triggs sobre os conteúdos de resistência do fanzine, em que a intenção política do produtor é reforçada por meio de uma linguagem gráfica de dissidência, quebrando todas as regras sobre layout de design, tipografia e legibilidade.