Dois pesados projetores transmitem séries de imagens. Inclinadas, as projeções tomam a forma de fachos de luz, o que são realmente, contradizendo o ilusionismo do fundo plano. Uma máquina de fumaça acionada por controle remoto retém a luz, estende a projeção pelo espaço ao redor, dá corpo às imagens.
Um canal apresenta recortes de fotografias jornalísticas da repressão ao “fluxo” na Cracolândia paulistana. O outro mostra fotografias de relances do ambiente urbano compondo uma “deriva”, ou “passagem rápida por ambiências variadas”, conforme a definição situacionista (1958). Com algum conhecimento prévio dos artistas facilmente se associa a sequência da deriva a Azeite de Leos, que costuma trabalhar com deslocamentos, e a do fluxo a Diego Castro, que desmente aparentes transparências das mídias.
Dois alto-falantes serpenteiam à frente dos projetores emitindo uma paisagem sonora em que “notas longas em drones, reverberações e ecos são entremeados por gravações de campo”, conforme a curadora Érica Burini. Os sons, a materialização da luz no espaço e até mesmo a colagem de rebocos com tecido estampado que demarca a entrada proporcionando a obscuridade necessária para as projeções não constituem uma somatória de gestos desconexos, mas os diversos aspectos de uma coisa só, o corpo da imagem, que não é apenas algo pelo que se passa os olhos, mas que, para se ver, é preciso sentir e habitar.

Brecht fez Galileu dizer que “olhar não é ver”. No encontro improvável da deriva e do fluxo, nas linhas de fuga paralelas que se cruzam, os artistas procuram o que é preciso para ver e não apenas olhar.
Turvo, de Azeite de Leos e Diego Castro
Espaço Soda (Rua Sebastião Velho, 147, São Paulo)
Das 16h às 20h; em cartaz até sábado, 4/10
José Bento Ferreira é doutor em Artes (USP)