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Turvo (2025), de Azeite de Leos e Diego Castro [Foto: cortesia dos artistas]
Postado em 03/10/2025 - 10:16
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A instalação Turvo, de Azeite de Leos e Diego Castro, está aberta à visitação apenas hoje, 3/10, e amanhã no espaço Soda

Dois pesados projetores transmitem séries de imagens. Inclinadas, as projeções tomam a forma de fachos de luz, o que são realmente, contradizendo o ilusionismo do fundo plano. Uma máquina de fumaça acionada por controle remoto retém a luz, estende a projeção pelo espaço ao redor, dá corpo às imagens. 

Um canal apresenta recortes de fotografias jornalísticas da repressão ao “fluxo” na Cracolândia paulistana. O outro mostra fotografias de relances do ambiente urbano compondo uma “deriva”, ou “passagem rápida por ambiências variadas”, conforme a definição situacionista (1958). Com algum conhecimento prévio dos artistas facilmente se associa a sequência da deriva a Azeite de Leos, que costuma trabalhar com deslocamentos, e a do fluxo a Diego Castro, que desmente aparentes transparências das mídias. 

Dois alto-falantes serpenteiam à frente dos projetores emitindo uma paisagem sonora em que “notas longas em drones, reverberações e ecos são entremeados por gravações de campo”, conforme a curadora Érica Burini. Os sons, a materialização da luz no espaço e até mesmo a colagem de rebocos com tecido estampado que demarca a entrada proporcionando a obscuridade necessária para as projeções não constituem uma somatória de gestos desconexos, mas os diversos aspectos de uma coisa só, o corpo da imagem, que não é apenas algo pelo que se passa os olhos, mas que, para se ver, é preciso sentir e habitar.

Turvo (2025), de Azeite de Leos e Diego Castro [Foto: cortesia dos artistas]
A relação mais simplificadora que se pode ter com uma imagem é acreditar tê-la visto suficientemente. Na prece, na interpretação dos sonhos, na fruição da obra de arte, diante dos retratos de antepassados, a visibilidade é somente uma parte da experiência com a imagem. Entramos na imagem como se entra em casa. Apesar de sermos constantemente convencidos de sua descartabilidade, inadvertidamente vivemos no interior dos espaços icônicos que competem pela nossa ingenuidade. 

Brecht fez Galileu dizer que “olhar não é ver”. No encontro improvável da deriva e do fluxo, nas linhas de fuga paralelas que se cruzam, os artistas procuram o que é preciso para ver e não apenas olhar.

A RELAÇÃO MAIS SIMPLIFICADORA QUE SE PODE TER COM UMA IMAGEM É ACREDITAR TÊ-LA VISTO SUFICIENTEMENTE

Turvo, de Azeite de Leos e Diego Castro
Espaço Soda (Rua Sebastião Velho, 147, São Paulo)
Das 16h às 20h; em cartaz até sábado, 4/10

 

José Bento Ferreira é doutor em Artes (USP)