À primeira vista, o espectador pode se intrigar com o pequeno volume de obras dispostas no amplo espaço do Pivô, na mostra de Regina Parra. Não há gratuidade nessa disposição das obras, porém. Ao contrário, as distâncias a percorrer entre os trabalhos são vazios e silêncios justos para se criar a sensação de isolamento e desconexão – metáfora da relação do Brasil com seus hermanos de fronteira. Ponto alto da curadoria de Ana Maria Maia, que imprime coesão ao conjunto de trabalhos, as legendas das obras estão em espanhol. Leem-se uma, duas, procura-se uma tradução que não há. O que resta é a tentativa de compreensão do idioma tão próximo, mas que em certos pontos do Brasil é mais “gringo” que o inglês.
De cimento são os dois marcos de fronteira que compõem a obra Política Sem Imaginação É Burocracia. Eles são posicionados dentro do espaço expositivo e em uma rua do Centro da cidade. Em vez de propor limites rígidos, são munidos de rodas que permitem seu deslocamento e uma outra forma de compreensão das relações, sejam geopolíticas ou interpessoais.
O trajeto que se faz, pelo terraço, de uma sala para outra se contamina com a sonoridade da rua e é permeado por narrativas em espanhol sobre a entrada de imigrantes no Brasil, em busca de um Eldorado que muitas vezes não se concretiza. Construído dessa forma, o roteiro da exposição remete à caminhada realizada no vídeo 7.536 Passos, em que Parra anda da Praça da Sé até a Rua Coimbra, no Brás (SP), onde acontece uma feira boliviana. Ali, o brasileiro é o estrangeiro.
Em um mundo onde a globalização parece diluir nacionalidades e identidades, o questionamento dos parâmetros que caracterizam o sujeito é fundamental. Seja para sair da superficialidade da razão mercantil ou para permitir que os encontros entre pessoas e as relações entre culturas dispam-se de preconceitos. Como no trabalho em que Parra instala em uma parede duas mesas de pebolim trazidas da Bolívia por imigrantes. Nelas, o jogo perde o caráter de rivalidade pela impossibilidade de ver o gol. Resta ao jogador deixar o controle de lado e brincar com o que o acaso e o outro reservam.
*Crítica publicada originalmente na #select21