Lygia Clark faleceu no Rio de Janeiro, em 1988, ocupando a paradoxal posição de um ícone da vanguarda artística brasileira, mas afastada da produção de objetos estéticos e com pouca presença no circuito de exposições. A partir da década de noventa, porém, sua obra vive um processo de resgate e historicização, dentro e fora do Brasil, que parece ainda estar em curso. Prova disso é a sua primeira retrospectiva na Alemanha e na Suíça, que abre hoje na Neue Nationalgalerie em Berlin, quase 40 anos após a sua morte.
Em vida, a artista visitou, expôs e residiu na Europa, especialmente na França onde aprofundou pesquisas que a levaram a um método terapêutico experimental. Na Alemanha, expôs individualmente pela última vez em 1969, em uma galeria comercial e, há dois anos, um recorte da sua obra foi apresentado em diálogo com o artista alemão Franz Erhard Walther, na fundação deste. Mas, é só em maio de 2025 que nossa icônica artista recebe uma mostra individual numa instituição germânica, após um hiato de 55 anos.
Considerada no Brasil como uma das maiores referências da arte moderna e contemporânea, Lygia e seu pensamento radical ainda passam por um processo de assimilação internacional. Sua obra divide-se em fases e ao longo de sua trajetória, suas proposições se tornaram difíceis de categorizar, de localizá-las na historiografia da arte Ocidental ou adequá-las ao aparato museológico tradicional. As práticas de Lygia não eram body art nem happenings ou performance, pois não são orientados para um público observador. E, ainda, os materiais ordinários que conformam seus objetos não delineiam uma poética de signos ou símbolos críticos de seu tempo, como na arte povera, na pop ou conceitual.
Apesar da dificuldade de categorização e de exposição de parte de sua produção, Lygia Clark é identificada como genealogia de certa arte contemporânea no Brasil, estabelecendo-se, assim, um paradoxo que acompanhou a legitimação do seu legado. A exibição póstuma dos seus Objetos muitas vezes aconteceu de modo descontextualizado e desencaixado. Mostrados como relíquias inertes ou como “cadáver” da prática, nas palavras de Suely Rolnik, perdiam a “vitalidade que daria sentido e força para convocar a experiência sensorial particular do receptor”.
Contudo, a complexidade de Lygia ainda desperta tanto o incômodo como o interesse de teóricos e curadores do mundo. Sua obra ganhou algumas retrospectivas no Brasil e internacionais nos últimos vinte anos, com a disponibilização de réplicas de objetos e esculturas para a manipulação do público que lhes dão o sentido vital buscado pela artista.
Em Berlim, a exposição reúne uma rara seleção de pinturas abstratas além de esculturas e proposições, tanto originais como cópias manipuláveis. A montagem elegante encontra harmonia com a arquitetura moderna e também radical do museu projetado por Mies Van der Rohe, cujo enorme pé-direito e paredes de vidro também conectam o visitante com a paisagem externa ao prédio.

Sua originalidade e densidade vêm sendo reconhecidas, e a exposição de Berlim é uma das mais bonitas mostras já feitas. Ainda assim, análises estrangeiras da sua prática podem cair em interpretações folclóricas, que erroneamente a filiam ao Tropicalismo e certa sensualidade festiva brasileira. Na abertura, um evento simpático com caipirinhas e música tropicalista brasileira recebia uma pequena multidão, enquanto um programa público de música brasileira “tropical” é anunciado para acontecer no museu durante o verão. Ao mesmo tempo em que é uma boa estratégia para popularizar a obra de Lygia e trazer um novo público, não deixa de causar constrangimento que ainda não consigamos nos livrar de clichês exoticistas que sempre surgem na recepção de artistas do Brasil, mesmo aqueles com obras complexas e históricas.

Serviço
Lygia Clark Retrospektive
Neue Nationalgalerie
até 12/10