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Residência artística Muxirum de Férias, na Casa Vítuka [Foto: Cortesia Casa Vítuka]
Postado em 15/09/2025 - 4:38
Muxirum pelo clima
Destaque do centro-oeste no Prêmio ABCA, Casa Vítuka, em Cuiabá, promove atividades artístico-culturais formativas voltadas à valorização dos saberes indígenas

Na década de 1990, um grupo de teatro se formou pela primeira vez no quintal da casa de Naine Terena, em Cuiabá (MT), organizado pela família e em especial por seu pai, o artista plástico e indigenista Antonio João de Jesus. O impacto daquela mobilização na comunidade do bairro Parque Cuiabá despertou na artista, curadora e pesquisadora o desejo de retomar a experiência, criando um espaço dedicado à formação, criação e valorização das culturas indígenas.

Dessa semente nasce a Casa Vítuka, que une arte e educação com foco na reativação do pensamento comunitário. O espaço é gerido por Naine ao lado do artista Gustavo Caboco, que mantém seu ateliê no local e contribui na administração. Hoje, cerca de 80% da equipe da Casa é composta por professores, mentores e profissionais indígenas.

“É uma missão: colocar os profissionais indígenas em contato com o entorno. Embora Mato Grosso tenha mais de 40 povos indígenas, o diálogo nesse campo de formação ainda é bastante restrito. Por isso, nosso espaço é composto majoritariamente por indígenas, com foco em processos formativos, tanto no campo cultural quanto artístico”, afirma Terena à celeste.

Retrato de Gustavo Caboco e Naine Terena [Foto: Cortesia Casa Vítuka]

Embora tenha começado com atividades em artes visuais – o ateliê aberto de Caboco e o programa de residência artística –, a Casa já recebeu um lançamento de livro, um cineclube sobre autismo entre indígenas e uma feira de arte com empreendedores locais. “A vida é o tema. E como ela atravessa todas as linguagens artísticas”, diz a idealizadora.

A residência Muxirum de Férias – do tupi guarani muxirum, ou união por um objetivo comum –, em junho deste ano, recebeu 15 artistas e pesquisadores de diversas gerações e regiões do Brasil, para pensar o clima e os saberes indígenas. A temática que percorre a vivência de Terena e dos mentores participantes no movimento indígena no estado, como Caboco, Libério Boe Bororo e Kaya Agari, além do artista cuiabano Gervane de Paula, integrante da 36ª Bienal de São Paulo, possibilitou a criação de um espaço de encontro e debate sobre as relações entre arte e meio-ambiente. 

Registro da residência artística Muxirum de Férias, na Casa Vítuka [Foto: Cortesia Casa Vítuka]
Gervane de Paula durante a residência artística Muxirum de Férias, na Casa Vítuka [Foto: Cortesia Casa Vítuka]

A Casa também é sede do Ponto de Cultura Acervo Indígena e Indigenista, voltado à preservação da memória de Antonio João de Jesus. O espaço cataloga e digitaliza registros fotográficos, textos e produções artísticas do indigenista, além de incentivar outros profissionais a compartilhar documentos audiovisuais relevantes para a história indígena no Brasil. O acervo, em constante expansão, está disponível online.

Em seu primeiro ano de funcionamento, a Casa Vítuka é destaque do centro-oeste pela Associação Brasileira dos Críticos de Arte (ABCA), na premiação anual da mais antiga associação brasileira de profissionais das artes visuais, reconhecida pelo amplo impacto em processos educativos e espaço de formação artística fora do eixo do mercado nacional.

Naine reflete sobre a importância de mobilizar um grupo de artistas fora dos grandes centros comerciais e sobre sua decisão de dialogar com esse mercado em busca de um reconhecimento mínimo. “Isso não significa integrar o grande circuito. Nesse processo, surgem debates sobre mercado e políticas públicas. Mas acredito que, quando conseguimos reunir artistas que passam a pensar não somente em suas produções individuais, mas também como coletivo, já abrimos uma nova perspectiva para essa discussão”, afirma.