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Circumambulatio (1972-1973), de Anna Bella Geiger [Foto: Thomas Lewinsohn]
Postado em 24/07/2025 - 6:06
O gesto de Circumambulatio, de Anna Bella Geiger, é a busca dos gestos

Traz ancinho, traz pá.

Circumambulatio (1973) desdobra a experiência de Anna Bella Geiger ao ministrar um workshop no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro em 1972. Fotografias e reproduções em preto e branco rodeiam as bordas da exibição. Notas e citações escritas à mão intercalam-se às imagens. Um slideshow de imagens de Geiger e seus alunos brincando na areia da Lagoa de Marapendi oculta-se no centro. 

Circumambulatio: andar em torno de. A Babel de Doré e o Stonehenge se juntam a Eliade sobre o centro do mundo. Uma espiral celta fica ao lado de um poema de Pessoa. Klee reflete sobre a criação e oferece um desenho. Uma pintura navajo se enovela com as nervuras que o close-up de uma folha revelam. Marmelo, Repolho, Melão e Pepino de Juan Sánchez Cotán está perto de um poema de João Cabral de Mello Neto: “de fora para dentro/ da casca para o fundo”.

“Copacabana”, “Jardim Botânico”, “a praia”. Os alunos de Anna Bella perguntaram aos transeuntes qual era o seu centro. “O centro é onde estou,” “O centro é meu apartamento”. Muitas respostas foram anotadas sobre os papéis A1. Panorâmicas de planos urbanísticos e do estádio do Maracanã ilustram. Gropius escreve que a Bauhaus perseguiu a criação de formas adequadas à vida. 

Você não sabe a sua busca. Mas você é um artista, você tem que buscar uma estética.

Ruínas sucedem o chão rachado. Os estudantes empilharam areia ao redor de Geiger e sua cabeça erupciona com um sorriso. Vemos pegadas e então o sulco que seu corpo esculpiu. Algumas fendas sugerem uma espinha. Os arados circulares se sobrepõem e então surge um slide de um anfiteatro grego. Uma criança brinca num anfiteatro de areia. A Babel de Bruegel transforma-se numa pirâmide. Pinturas rupestres justapõem grafite. Seus estudantes cobrem-se de tecido e marcham pela orla com escudos e lanças. Presenciamos longamente as teias, espirais e círculos que um trator deixou na areia. Uma voz diz: “O centro, desconhecido em si mesmo, age como um ímã”; “um poder sobre-humano capaz de garantir nosso desejo de amar e interagir”.

Para a exibição de 1973, a artista entrou em contato com a embaixada estadunidense para conseguir fotografias da pisada na Lua. Ela as usou para criar Aqui É o Centro, uma série de fotogravuras em metal. Aqui, as crateras da natureza se avizinham das nossas. As marcas deixadas pelo corpo, pela pá e pelo trator demandam contemplação. Em nosso tempo, poderíamos pendurar Gilbert Simondon (Sur la Technique), nas paredes:

O que se rompeu em algum lugar foi esse contato, este tomar das coisas sobre o indivíduo e do indivíduo sobre as coisas (…) O gesto feito coisa suscita a coisa feita gesto, evoca o gesto depositado nas estruturas (…) Não a harmonia, mas a expectativa e a vontade que, rica em potenciais, precisa do organizador que ela própria produziu.

Circumambulatio (1972-1973), de Anna Bella Geiger [Foto: Thomas Lewinsohn]
O gesto de Circumambulatio é a busca dos gestos. Cidades, torres e folhas inventam suas direções. Há toda uma inventividade no que nos excede. Anna Bella Geiger medita junto às marcas de pneu. Nosso destino de inventores é aqui celebrado. A ação humana revela aqui toda uma nova dimensão de sentido. Nossos artefatos cristalizam soluções e invenções provisórias, sempre por fazer. É preciso celebrar a coisa e o gesto em sua transitoriedade, e ter coragem de criar. Para Simondon, o ato verdadeiramente livre é aquele que só tem sentido na estrutura que cria.

Esta exposição reemerge em bom tempo. Muitos dos tropos da arte contemporânea – a investigação, a conceitualização, a abertura – nela figuram. Porém, há aqui uma confiança que se perdeu. A heterogeneidade do chão não impede o movimento. Uma curiosidade genuína permite que essas práticas contemporâneas existam para além do truque. Nossas imagens apresentam inadequadamente os movimentos do nosso mundo; Circumambulatio abre-se então para a experiência. Tudo se dispersa, arranha, indenta, e essa prática artística repara. Uma forma de habitar foi ofertada e o presente ainda pode ser aceito. Andamos por Circumambulatio, espiralamos por ela. Então temos que dar espaço para que ela se mova em nós.


João G. O. Moraes é pesquisador, escritor e ilustrador. Estuda a obra de Gilbert Simondon em seu mestrado e está se certificando em Arte & Curadoria pelo The New Centre for Research & Practice.

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