O Clube do Flamengo, o time do povão, fica exatamente entre Leblon, Gávea e Lagoa. Uma tríade dos bairros mais caros da Zona Sul carioca. Estranho? Ou seria só mais um exemplo daquilo que torna o Rio de Janeiro uma cidade de contrastes? São muitas as contradições que resultam tanto em uma beleza estonteante, como em uma violência atroz, explicitada tanto na vida, como na arte.
Eu, por exemplo, não sou flamenguista, nem do povão, mas cresci dentre as pessoas blindadas dessa violência sendo o muro do Clube do Flamengo um desses espaços que delimitavam meu bem-estar. Do lado de fora, porém, emparedada no mesmo muro rubronegro, sofri meu primeiro assalto. Tinha 12 anos, a mesma idade que os 3 meninos que exigiram minha bicicleta também deveriam ter.
Quando fui ver a nova série Clube do artista Maxwell Alexandre, sobre os Banhistas da Gávea, estava pronta para o fogo cruzado real e metafórico que permeia a cidade onde cresci. A exposição acontece no Solar Grandjean de Montigny, um casarão localizado dentro da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, cujos muros sempre foram, igualmente, meu abrigo.
Como boa visitante que sou, iria operar as associações entre a semiótica da imagem dos corpos brancos familiares aos títulos das obras – geralmente carregados de denúncia social, no papo reto das letras de rap que acompanham a trajetória de Maxwell. Fui então preparada para oferecer a minha culpa burguesa ao escrutínio das obras, como oferenda no culto ao artista, disposta a me conformar com a narrativa de elucidação dos privilégios brancos burgueses que me qualificam e que o mundo da arte hoje aconselha.
Mas não foi isso o que aconteceu. O que vi foram figuras imponentes que me remeteram às esculturas neoclássicas. Assim como retratos feitos a partir de um domínio de luz e cor que me lembraram aos impressionistas. E os títulos? Quase inexistentes. Parafraseando Caetano, onde queres violência, sou beleza, onde procuras denúncia, mansidão. Os grandes paineis pardos estavam ali, mas a disputa política, não.
Desarmada, não consegui encontrar respostas que satisfizessem meu ego de pessoa elucidada. Vi apenas um artista que, como muitos outros, consegue com esmero encontrar a força da expressão humana no mundano e exprimir isso no papel. Papel pardo, no caso: na mesma técnica de outrora, é verdade, mas com resultado distinto.
Até que me deparei com uma pequena obra: metade muro vermelho e preto, metade Cristo Redentor. Uma visão que pairava na minha retina da infância, ali, exposta em singelo enquadre, quase do tamanho de um cartão postal. Foi então que eu refleti. Aquela exposição, afinal, não era sobre os banhistas da Gávea, mas sobre o novo ponto de vista do artista. Esse artista que ascendeu economicamente pelo domínio da sua arte e que agora gozava do privilégio de usufruir dos espaços de elite, dos cartões postais, de estar dentro do muro e ver através dele.

O resultado das obras é diferente porque a circunstância é diferente. A tal crítica social foi feita, não da forma expressiva de Pardo e Papel, mas refletida e traduzida na minha própria postura: de uma branquitude que insiste em se colocar no centro do debate. Me impliquei na exposição enquanto sujeito, quando, na verdade, eu era objeto. Percebi que, onde buscava um desvio, encontrava alguém perfeitamente integrado. O mesmo artista, com o mesmo olhar inquiridor sobre a sua realidade circundante. Realidade esta que antes era as vielas da Rocinha, e que hoje, é, também, as idiossincrasias do clube do qual é sócio.
E o que acontece quando o artista inverte a ordem afirmativa do domínio da imagem e do discurso? Quando um homem preto se coloca como sujeito participante de uma sociedade que o exclui e, não só, transforma aqueles que o excluíram em objetos da sua prática, controlados por ele?
Já despida de obrigações, me pus a observar novamente as obras e a seguir esse questionamento. A beleza das figuras me provocava, mas o tema parecia por demais próximo para me oferecer respostas. Pensei então como era um tema novo ao artista e que, talvez, com o mesmo espanto que os gringos capturam os bichos-favelados em seus safaris urbanos, Maxwell encara os bichos-burgueses.
Se olharmos para a História da Arte ou mesmo para os cliques dos turistas, é fácil encontrar muitas obras que retratam de forma bela a miséria humana. Uma miséria que sempre teve a ver com a penúria do corpo, contrastada, muitas vezes, pela riqueza da alma. Agora, Maxwell captura o bicho-burguês em sua miséria e revela o que os seus privilégios ocultam. Mas que miséria é essa?

Em contraste com as figuras dançantes e brincantes dos seus primeiros painéis, vemos nestes pessoas taciturnas e desconfiadas. Os grandes monolíticos pardos estão quase vazios, sem cores, como se o preço da privacidade, valor tão caro à burguesia, fosse a solidão. No lugar da comunidade, temos a propriedade. Os donos de títulos de clube não gostam de dividir seus espaços com ninguém, é verdade – atire a primeira pedra o burguês que nunca deu um sorriso amarelo quando alguém decide sentar na espreguiçadeira ao lado da sua, à beira da piscina – mas muito menos com pessoas que parecem não pertencer ali, pelo menos não enquanto iguais. As famosas piscinas Capris que permeiam o casarão do século XIX, nesse ambiente, são inexoravelmente uma instalação artística, jamais um convite para a convivência.
Ao ocupar esse espaço e mostrar ao mundo que ocupa esse espaço e que também é dele proprietário, Maxwell segue sua retórica de que o preto venceu, com toda a sofisticação que sua trajetória artística permite. A ascensão social a partir da arte, que sempre foi um tema caro ao artista, atinge com a série Clube seu ponto de virada: é quando a profecia da sua série pregressa, O Novo Poder, se realiza. Maxwell dominou sua Arte, dominou o Mercado da Arte e com isso o artista atinge o grau zero do privilégio de classe: a pura contemplação.
SERVIÇO
Pavilhão Maxwell Alexandre 5 Clube: estudos de tipo
Até 28 de junho de 2025
Seg – sex, 10h – 17h
Solar Grandjean de Montigny Museu universitário – Rua Marquês de São Vicente, 225, Rio de Janeiro
Entrada franca
A trajetória de Manuela Moog une prática artística, investigação acadêmica e curadoria. Mestre em Artes Cênicas (FCSH-Lisboa) e especialização em Arte e Filosofia (PUC-Rio), dedica-se à curadoria como mediação de composições autorais na contemporaneidade. Fundadora da Cariboa, plataforma artística entre Rio e Lisboa.