A voz grave do locutor norte-americano nos conduz a outro tempo. Ao passado, com certeza. Ele fala do Brasil. Outro locutor conterrâneo lhe dá sequência. Fala da expansão de células nazistas no país. Apesar da atualidade do tema (para nosso infortúnio), entendemos que estamos nos anos 1940. Clarins e baquetas ressoam ao fundo. Não é Carnaval. Os clarins não são de momo. A marchinha? Militar. Os primeiros planos revelam-se à nossa frente: o Planalto está no Catete. Nelson Rockefeller na Guanabara. Logo ali, em Copacabana, Pato Donald flana ao som de Carmem Miranda. Ary Barroso e Watercolor of Brazil; Walt Disney e Zé Carioca; Fordlândia e Siderúrgica Nacional. Pensam: progresso é desenvolvimento, borracha, aço e petróleo, muito petróleo. Bradam: “O petróleo é nosso!”. Outros sussurram: a febre e o mosquito também… Todo esse prateado que salta aos olhos, junto à intensa e crescente trilha sonora do compositor romeno David Balica, nos arremessa ao vórtex delirante da vídeo-colagem de Marcelo Amorim, Vizinhanças (2023).
Foi pelo hábito de vasculhar pilhas empoeiradas de livros e revistas em sebos que Amorim se deparou com a centelha criativa para o seu vídeo, a revista Em Guarda. Produzida entre 1941 e 1946 pelo antigo OCIAA (Office of the Coordinator for Inter-American Affairs), sob direção do empresário Nelson Rockefeller, o periódico se apresenta como um documento da introjeção ideológica do american way of life no Brasil. Essa ideia que, há décadas, carrega nossas fracassadas promessas de progresso e desenvolvimento, aquela “vontade fela-da-puta de ser americano”, como notou Caetano Veloso.
Ao longo dos anos de tiragem da revista, pairava entre os Aliados uma certa preocupação com a expansão da ameaça fascista na América Latina. Assim, o então presidente dos EUA, F. D. Roosevelt, designou Rockefeller para pôr em prática o que ficou conhecido como “política da boa vizinhança” entre os países americanos. À frente da OCIAA, Nelson, esse bom vizinho, traria Walt Disney ao Brasil, selando, com um triplo aperto de mão entre Pato Donald, Zé Carioca e Panchito, uma “aliança” que faria muitas águas rolarem até hoje. O Brasil, com esse apoio, entraria em intensa fase de urbanização e industrialização calcada em modelos clássicos de desenvolvimento, plenamente dependentes de uma matriz energética fóssil.

O Catete foi ao Planalto, levando consigo borracha, aço, concreto e petróleo. A ideia, ignorando como de costume a existência dos povos indígenas: ocupar o interior do país – desabitado, atrasado e selvagem – com uma cidade futurista, Brasília. Por capricho de J. Kubitschek, sem semáforos, com muita gasolina, feita para carros. Por isso mesmo, a borracha e a Amazônia – arrastadas por esse vendaval em direção ao progresso. Henry Ford na selva? Such a wild guy! Esse mesmo sopro desenvolvimentista alcançaria a ditadura, para exaurir seu fôlego na “década perdida” de 1980. Momento em que o Brasil viu seu projeto de industrialização ruir, na mesma toada de muitas outras formações sociais latino-americanas. O saldo disso tudo: uma claudicante indústria apoiada na produção de commodities agrícolas, que reanima, em certa medida, os antigos fantasmas coloniais do sentido agroexportador de nossa economia.
Tagarelando interamericanismos
O vídeo de Marcelo Amorim articula os elementos dessa história, por meio das possibilidades de ressignificação imagética disponíveis a uma colagem. Vozes, em tela preta, encetam o primeiro arco: distintos locutores de rádio estadunidenses enaltecem, sem legendas, as riquezas naturais do Brasil, quase se preocupam com a expansão do nazismo nos trópicos e, como se faltasse cinismo, revelam o mecanismo econômico de nossa dependência: vendemos “raw materials” para comprar “manufactured goods“.
No segundo arco, as imagens entram em cena, através de dois planos retangulares que se sobrepõem até o fim da montagem: no quadro cheio, sempre de filmagens encontradas, crianças carregam a bandeira dos EUA, como prenúncio desse fardo a ser carregado por gerações; sobrepostas, no retângulo concêntrico, imagens e textos de Em Guarda revelam Nelson Rockefeller tagarelando interamericanismos. Trabalhadores suados, no plano anterior, depenam uma floresta e abrem estradas para Os Three Caballeros. O aperto de mão, desses que mais rapinam do que gorjeiam, é ampliado por um jogo de zoom, enquanto um bonde (atrasado? da história?) corta depressa o plano ao fundo.

Em sequência, grãos de prata revelam muitas ampolas de remédio estampadas pelo alerta da revista ao problema das palafitas e alagados: possíveis focos de mosquito em Belém do Pará. Estamos realmente no passado? Para prantos de Quaresma ou bocejos de Macunaíma, diríamos que não exatamente. Passos apressados, feito correição de formigas, nos arrastam para a guerra. Por detrás do pince-nez (não sabemos se azuis), Vargas discursa sem esboçar a dor das picadas: uma siderúrgica em Volta Redonda, Parnamirim Field em terras potiguares. Tudo em ordem, pois um grande Cristo de braços abertos sobre a Guanabara seguiria abençoando pataquadas, papagaiadas e cacarejadas.
Não podemos nos deixar enganar pela sépia das imagens do artista. Definitivamente, não se trata de um debate datado, bastando pensar no contínuo ressurgimento dessa simbologia estrangeira, que inundou os últimos anos da vida estético-política do Brasil, diríamos, por um desagradável vício de nossa história. Com roupagens diferentes, o fascismo renasce nos trópicos; o culto a Washington se rematerializa na continência de um ex-presidente da república à bandeira estadunidense; enxerga-se um Make Brazil Great Again em cabeças de um domingo na avenida Paulista. Muitos elementos daquele kitsch autoritário, identificado por Hal Foster (O que vem depois da farsa? Ubu Editora, 2021) no trumpismo, se espalham pelas redes sociais do país.

E, como se nada disso bastasse, mais recentemente, ouvimos estupefatos o governador Eduardo Leite, diante das inundações de Porto Alegre, disparar que precisaria de um Plano Marshall (1948) para reconstruir o Rio Grande do Sul. Um discurso sintomático da persistência de influências estético-discursivas norte-americanas em nossas vidas, pois estamos falando, justamente, de um Plano arquitetado pelos EUA e marcado a ferro pelo desenvolvimentismo dos 1940. Hoje sabemos (ou deveríamos saber), que esse tipo de ideia está na raiz das catástrofes climáticas que nos acometem. Assim, a impressão que fica disso tudo é que o Papai Noel – em rigorosos trajes de inverno – há muito se entalou nas chaminés industriais da Canícula. Essa mesma Canícula – massa de ar quente estacionária – que já não se envaidece do aconchegante clima dos trópicos, pois agora seu calor emana da catástrofe anunciada do aquecimento global.
Mateus Azevedo participou do Laboratório de Escrita Crítica e Editorial da seLecT_ceLesTe na plataforma Zait. Atua como crítico e integra o núcleo curatorial do Fonte. Mestre em Sociologia (USP).