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Vista da exposição de Richard Serra, no IMS Rio de Janeiro [Foto: Cristiano Mascaro/ Divulgação]
Postado em 01/10/2014 - 4:00
O peso da transparência
Mostra de desenhos de Richard Serra revela parte essencial do seu exercício estético

Para montar sua exposição na Casa da Gávea, antiga residência da família Moreira Salles e hoje sede do IMS, Richard Serra pediu que as estruturas museológicas fossem retiradas, sobretudo painéis, que, para ele, negam a principal característica da casa, a transparência. Agora, da sala que leva ao auditório, é possível avistar os azulejos de Burle Marx e a mata que envolve o terreno. 

Trata-se de uma exposição de desenhos de um artista consagrado pelas esculturas. Mas Serra desenha constantemente enquanto fala. Uma mostra como esta, longe de apresentar obras secundárias, revela uma parte fundamental do seu exercício estético.

Nas duas salas que envolvem o jardim central estão desenhos da série Rifts, formas negras quebradas por frestas que se expandem e comprimem vagarosamente. A sensação é de que ora entramos nesses caminhos e nunca mais saímos deles, como armadilhas, ora eles são rotas de escape que iluminam as telas. Convivem em tensão a pressão dos pretos monumentais, as galerias fluidas e iluminadas, os ambientes íntimos e fechados da casa e a agudeza das linhas de fuga produzidas nas fendas dos retângulos.

A força de atração e repulsão magnética que vivenciamos diante das esculturas também age nos desenhos. A sala mais evidente desse movimento é a da série Reversal. São diferentes volumes de preto em cada tela, que, postas lado a lado, criam uma instalação vertiginosa. O peso dos desenhos cria um lugar instável e perturbador.

A percepção das obras de Serra são experiências intensas e muitas vezes conflituosas, que afetam os corpos fisicamente. Em Drawnings After Circuit, exposta de frente para o jardim central, Serra risca uma sua cartografia afetiva a partir do seu movimento em torno da escultura Circuit.

A mostra irradia certas características do trabalho de Serra, sobretudo a preocupação em dar materialidade à força da gravidade, aquilo que é comum, mas singulariza os corpos, e os espaços desorientados que cria a partir disso. Serra produz obras que pendulam entre o peso da história, ou do negro de seus desenhos, e a imprevisibilidade da experiência, apenas apreendida por fissuras e transparências.

*Crítica publicada originalmente na edição #19