No dia 15 de maio, peguei o trem de Paris a Bruxelas e, em seguida, a Liège, onde assisti à abertura de AIPOTU. Um retrato às avessas de Françoise Schein — exposição no Grand Curtius. Sair de casa, da cidade, organizar horários e trajetos são ações que, quase sem que eu percebesse, já participavam da lógica da exposição. Porque, no trabalho de Françoise Schein, não se trata apenas de ver, mas de atravessar e perceber seus circuitos.

©️ Françoise Schein – ADAGP
A posição daquele que observa cede lugar à de quem se inscreve. Em AIPOTU (UTOPIA lida ao contrário), coexistem o corpo de Schein, os corpos que seu trabalho mobiliza e os nossos. A exposição nos incorpora aos agenciamentos espaciais, textuais e humanos ativados pela artista e seus colaboradores. Em tempo real. Como se ouve no diálogo entre Pasolini e Agnès Varda (transcrição fiel), registrado em Agnès Varda – Pier Paolo Pasolini – New York – 1967:
“Não há diferença entre realidade e ficção, porque o cinema é a realidade que se expressa por si mesma. Na realidade, posso filmar um homem caminhando na rua. Ele não tem consciência de estar sendo filmado, e isso é realidade. Se escolho um ator para fazer esse homem, então existe outra realidade, a realidade do ator. Ainda assim, é sempre realidade, nunca ficção. Eu escolho sempre um ator pelo que ele é. Não gosto que ele atue. Não posso escolher um homem bom para fazer o papel de um homem mau. Isso é impossível para mim, é repugnante. Sempre penso o cinema como uma realidade audiovisual, e o diálogo é uma parte da realidade, é uma parte da imagem.”
Para Pasolini, não se tratava de rejeitar a arte dramática, mas de preferir, em certos gestos, a energia bruta da existência à mediação formal do ofício. Schein, à sua maneira, compartilha essa postura: ela não favorece as formas pensadas para serem exibidas, mas aquelas que surgem do contato direto entre o corpo e o espaço, o sujeito e a cidade. A exposição, quando se separa da experiência, tende a neutralizar aquilo que há de inaugural no instante em que alguém se entrega ao mundo com uma sinceridade radical.
É a partir das pessoas que o espaço e a linguagem se organizam. Da infância à maturidade, elas são apresentadas na exposição como figuras à deriva. Mapas, cartas, traços, inscrições e rabiscos se propõem como cartografias íntimas entre o corpo e a terra que se habita, que se percorre, que se imagina.

O que distingue seu trabalho de tantos outros é que ele não exige frontalidade, nem postura contemplativa: nada que imponha distância. Ao contrário, permite a circulação, convida ao retorno. Pode-se atravessar sua obra como se atravessa uma rua conhecida — até o dia em que se decide parar, escutar, observar o que a rodeia.
A exposição, concebida com atenção precisa às relações e percursos pelas curadoras Betina Zalcberg e Lohana Schein, instaura um espaço de engajamento. O que ali se manifesta, reativa um desejo já inscrito em muitos de nós.
Wagner Schwartz é escritor, performer e coreógrafo. Vive em Paris. Lançou em 2023 o romance A nudez da cópia imperfeita (Editora Nós), finalista do Prêmio São Paulo de Literatura. Formado em Letras, construiu uma trajetória entre a literatura e as artes do corpo. É também autor do livro Nunca juntos mas ao mesmo tempo e de mais de dez performances criadas desde 2003.