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Cabeça de Cabaças (2023-2024), de Kella Sankofa, na 11 edição da Bienal das Amazônias [Foto: Nay Jinknss/ cortesia da artista]
Postado em 16/10/2025 - 4:02
O rio está vivo?
Keila Sankofa constrói trabalho com a colaboração dos Pankararu residentes nas áreas lindeiras do Rio Pinheiros, questionando processos de expropriação, demonização e negação das culturas tradicionais

Cabeças de Cabaças e os Praiá se encontram na margem do Rio Pinheiros em uma conversa sonora que se movimenta com a ondulação das águas. A obra da amazonense Keila Sankofa é um corpo de cabeças-cabaças, união de saberes das populações negras e indígenas da Amazônia. Seu condutor é o fruto da cuieira (em tupi, cuia ou jamaru), que dá origem a utensílios domésticos, instrumentos musicais e máscaras – uma série de rituais espirituais de culturas indígenas e afrodiaspóricas. No contexto da exposição Águas Abertas, que propõe a ativação do Parque Linear Bruno Covas em São Paulo, a performance conflui com os Praiá, indumentária ritualística dos Pankararu – comunidade indígena migrante do Nordeste que habita as margens do rio há mais de oito décadas, no Real Parque, Zona Sul da capital paulista. Assim como os rios que percorrem o território pindorâmico em uma rede de encontros e bifurcações, a confluência entre totens realiza uma ponte entre referências geograficamente separadas, mas culturalmente muito próximas, ao Norte, Nordeste e Sudeste. Reflete nas águas do Pinheiros – cercadas por edifícios comerciais, símbolos do capitalismo financeiro – os fluxos migratórios, as culturas e o trabalho material que são fundações, apagadas do imaginário geral, da cidade.

O encontro desenvolve-se também em outras camadas, transformando-se em uma série de fotografias de Sankofa, que vão compor a mostra a partir de 9/8, além de dialogar com as entrevistas realizadas pela artista com os Pankararu. As trocas de memórias e poéticas dos residentes serão dispostas ao longo da margem do rio e se desdobram como um imaginário sonoro desse outrora manancial de vida. Via correspondência digital, Keila Sankofa conversou com a celeste sobre os processos de desenvolvimento do trabalho.

A TERRA NA BEIRA DO RIO É DE QUEM?
Cabeça de Cabaças (2023-2024), de Kella Sankofa, na 11 edição da Bienal das Amazônias [Foto: Nay Jinknss/ cortesia da artista]

Você tinha uma relação estabelecida com os Pankararu ou o vínculo se construiu a partir do convite para o Águas Abertas?

Não é possível falar de um território sem antes procurar os mais velhos, aqueles que reconhecem as outras histórias, que estão pelas lentes da ancestralidade. Os Pankararu estão ao lado do Rio Pinheiros e, assim como essas águas, eles resistem, reivindicam e permanecem. O vínculo foi construído através do Caynã Nicó, um historiador Pankararu que compõe a equipe do projeto.

O título da obra permanece Um Monte de Águas Chamado Pinheiros?

Meus processos vão nascendo no movimento e nas vivências. Fixar um nome agora é cercar meu imaginário que ainda está encontrando formas de perguntar o motivo de o rio não ser um rio, mas um monte de água.

De que forma performance, instalação e fotografia dialogam entre si no trabalho? Em seus encontros com os Pankararu existiu uma cronologia ou linearidade nas memórias compartilhadas pela comunidade?

Minhas obras trazem performance, cinema, fotografia, instalação, e esse trabalho, especificamente, abordará todas essas camadas. O tema das águas e das terras que as cercam é uma questão urgente para ser debatida, não apenas o Rio Pinheiros, mas também os outros rios das diversas cidades brasileiras. É latente essa “grilagem urbana” que expropria as populações que já habitavam e habitam esses territórios. Por meio de pressões e violências diversas, elas são “convidadas” a se retirar de seus lugares. O “Brasil” e sua ficcionalização se iniciam no processo de expropriação, demonização, negação da cultura tradicional, seus ritos, e, 525 anos depois, ainda estamos debatendo sobre isso. Atualmente, tenho diversas perguntas, que parecem simples, mas que suas respostas dependem de quem as responde. Fico me perguntando: a terra na beira do rio é de quem? O rio está vivo? Qual o motivo de o rio se encontrar nessa situação? A única certeza que tenho é de que só um mais velho, alguém que carrega em si seus antepassados, é quem poderá trazer uma resposta lúcida para essas perguntas.


Entrevista publicada originalmente na celeste #6 – Travessia em junho de 2025