Neste ano, o Festival Videobrasil comemora três décadas e se estabelece como uma das principais plataformas da arte contemporânea no país. Desde a década de 1990 o evento vem lançando seu olhar no chamado Sul geopolítico (América Latina, Caribe, África, Oriente Médio, Europa do Leste, Sul e Sudeste Asiático e Oceania), o que pode ser constatado na mostra competitiva Panoramas do Sul, composta por trabalhos enviados dessas regiões durante a convocatória de 2012.
Atualmente, a divisão do mundo em hemisférios perdeu um pouco de seu glamour político, muito em razão da globalização, da queda da União Soviética e da ascensão da China ao patamar de superpotência. Mas, em termos artísticos, faz todo o sentido, levando em conta o mercado e a conseqüente evidência de trabalhos do “primeiro mundo” dentro do sistema das artes. Logo, iniciativas que mapeiam e revelam expressões oriundas de geografias “dissidentes” são mais do que bem-vindas.
A comissão curadora do Panoramas do Sul analisou mais de dois mil projetos inscritos e selecionou 94 artistas, abrangendo 32 países (sendo nove países da América Latina, sete da África, cinco do Oriente Médio, cinco do Sudeste Asiático, quatro do Leste Europeu e dois da Oceania). A revista seLecT realizou uma “sub-curadoria”, selecionou oito das 105 obras escolhidas pela comissão e montou um especial. O critério foi – além, claro, da notória qualidade dos trabalhos – incluir na seleção um artista de cada região do Sul geopolítico, o que resultou em uma espécie de “representação supranacional”.
Ali Cherri, Pipe Dreams, LÍBANO

Legenda: Still de Pipe Dreams (2012), videoinstalação, 6′
Videoinstalação composta por um monitor e uma projeção. No monitor vemos imagens oficiais da histórica conversa telefônica entre Hafez El Assad (1930 – 2000), ex-presidente da Síria, e o astronauta sírio Mohammad Fares. Como pano de fundo, há uma projeção de imagens recentes de autoridades sírias desmontando as estátuas do antigo líder, com temor de atos de vandalismo durante os protestos que provocaram a guerra civil. Assombrado por imagens de estátuas destruídas ao longo da história (Stalin, Saddam Hussein, etc.), o regime tenta controlar o inevitável, sacrificando o “símbolo” para salvaguardar a “imagem”.
Bakary Diallo, Tomo, MALI

Legenda: Still de Tomo (2012), vídeo digital em PAL, 6’53”
Neste vídeo emblemático intitulado Tomo, Bakary Diallo denuncia a violência que grassa em seu país. Na língua bambara a palavra do título significa um território abandonado em razão da guerra. É uma reflexão “metafísica” sobre males físicos e traumas psicológicos engendrados em todas as situações de conflito. Na história, um personagem psicologicamente perturbado por sua experiência subjetiva da violência caminha por uma aldeia devastada, habitada por espíritos daqueles que viveram lá. Eles são representações em chamas, ectoplasmas esfumaçados, espíritos inquietos que insistem em continuar suas atividades domésticas, como se nada tivesse acontecido. Tomo já foi apresentado em vários festivais de cinema no mundo, sobretudo em Túnis.
Dor Guez, Scanograms #1 (2010), ISRAEL

O Arquivo Cristão Palestino é um projeto em pleno andamento e o objetivo é pesquisar e documentar uma comunidade de minoria cristã no Oriente Médio, um grupo étnico que até agora não teve o devido reconhecimento dentro dos Estudos Culturais. A série em questão inclui 15 imagens da vida de uma mulher chamada Samira, que datam de 1938 a 1958. Cada imagem documenta um fato importante de sua família, antes de se dispersarem da cidade de Jafa para Amã, Chipre, Cairo e Londres, como resultado da ocupação israelense. Tirar fotos naquela época era um ato cuidadosamente planejado, sendo que apenas momentos marcantes eram retratados: um casamento, uma foto de passaporte, uma nevasca inesperada e assim por diante. Guez manipula fotografias antigas para condensar eventos importantes em quadros individuais. Este trabalho em particular mostra o marido de Samira, Jacob, antes de se casarem.
Marcellvs L., 9493, BRASIL

Legenda: Still de 9493 (2011), HDV, 11’4”
Parte integrante da série VideoRhizome, o vídeo 9493 enfoca uma criança brincando numa barraca assolada por uma ventania, que sopra forte do lado de fora. Apesar da sugestão de movimento sugerida pelo som do vento, as imagens capturadas são quase estáticas, deslocando a videoinstalação para fora do tempo. O vídeo trata de duas indiferenças fundamentais: a indiferença da natureza em relação ao humano e a indiferença do humano em relação à realidade compartilhada e estabelecida. O trabalho pretende mostrar como ambas as indiferenças caminham em paralelo sem se contradizerem ou se chocarem. A série homenageia o conceito de “rizoma”, popularizado por Deleuze e Guattari, traduzido pelo artista como uma “imagem do pensamento”.
Charly Nijensohn, El exodo de los olvidados, ARGENTINA

Legenda: Still de El exodo de los olvidados (2011), HDV, 09’50”
Uma reflexão audiovisual sobre a vastidão e os efeitos do isolamento em regiões inacessíveis e desertos de gelo que se estendem além da visão. Basicamente, são geografias que têm atraído o pensamento de exploradores e navegadores fascinados pelo fim do mundo. Filmado na região sul da Cordilheira dos Andes, mais especificamente nos campos de gelo da Patagônia, o vídeo explora o impulso que leva o ser humano a deixar tudo para trás para mergulhar em um território desconhecido. Em seu fascínio pelo abismo e busca pela inalcançável, tais pessoas são unidas em um ato de intensidade.
Daniel Steegmann-Mangrané,Teque-teque, ESPANHA/BRASIL
Legenda: Excerto de Teque-teque (2010), vídeo, 0’38”, projeção em tela suspensa de 115 x 92 cm
Um traveling horizontal na floresta tropical é cortado, desmembrado e recombinado ao ritmo do canto de um teque-teque: a cada trinado do pássaro a imagem muda de direção ou muda de foco, fazendo em 38 segundos de vídeo todas as combinações possíveis. O vídeo é projetado sobre uma tela suspensa e não há nenhuma descrição, além de um texto editado de um guia de aves no Brasil em que um padrão geométrico ligando as letras “o” incita diferentes interpretações narrativas.
Bridget Walker, The Silent Spectre of Motion, AUSTRÁLIA

Legenda: Still de The Silent Spectre of Motion (2012), vídeo, 6’’27’
Independente de experiências anteriores – como Gene Kelly dançando com Jerry no filme Marujos do Amor, de 1945 – pergunta-se: será possível mesclar animação e realidade, não apenas como um efeito especial, mas na vida cotidiana? A resposta – ao menos nesse trabalho que acopla história em quadrinhos, animação e documentação – é certamente sim. Inspirado no livro Cryptic Complex, de Alan Cholodenko, o vídeo é dividido em três partes. A primeira começa com dois acadêmicos que, após resolverem um quebra-cabeça, discutem em um cenário que remete a videogames violentos. Na segunda, a artista se transforma em um fantasma que faz de seu manto um pergaminho. A parte final é uma espécie de documentário sobre o processo de transformação da ficção em realidade, no qual a personalidade da artista é construída por meio de entrevistas com transeuntes.
Leticia Ramos, Capítulo 0, BRASIL
A instalação faz releituras da paisagem do Polo Norte com câmeras construídas a partir de referências antigas dos primeiros exploradores da região. É um mini-museu retrofuturista da história do cinema e das documentações científicas.
Serviço:
Quando: de 6 de novembro de 2013 a 2 de fevereiro de 2014
Onde: Sesc Pompeia, Rua Clélia, 93 | Pompeia | São Paulo, SP | Tel. 11 3871 7700
CineSesc, R. Augusta, 2075 | Cerqueira César | São Paulo | Tel. (11) 3087-0500
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