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Cartão postal (1929-2025), de Victoria Lobo, realizado na oficina Gráfica Fluvial, de Nina Lins, durante a residência Arte Celeste #4
Postado em 11/06/2025 - 5:50
Palavras andantes
Leia o Manifesto Editorial da celeste #6 - Travessia

Palavras são como barcos. Movem-se, de território em território, cultura em cultura, carregando sentidos que se bifurcam, perdem e, eventualmente, se reencontram. A palavra utopia, por exemplo. Na reunião de pauta da celeste #6, começamos discutindo que sentido faria em pensar as relações entre as cidades e as águas em uma chave utópica e lançamos a palavra para alguns dos entrevistados e colaboradores da edição. 

Bonaventure Soh Bejeng Ndikung, curador-geral da 36ª Bienal de São Paulo (que inaugura em 6/9), a fim de explicar por que não concorda com a associação que propomos entre utopia e estuário, coloca que, embora a etimologia da palavra utopia sugira a ideia de um não lugar, ela passou a significar um espaço imaginado. “Já o estuário é um espaço muito concreto. Sua concretude reside na negociação entre ambientes de água doce e água salgada”, diz Ndikung em entrevista a Yuri Sugai e Beatriz Ferro. Estuário (onde o rio converge com o mar) intitula um dos três fragmentos que compõem a proposta curatorial da Bienal. As páginas da entrevista, diagramadas pela diretora de arte Nina Lins, estão banhadas por imagens aéreas dos estuários do Rio Tâmisa com o Mar do Norte, do Rio Amazonas com o Oceano Atlântico e do Delta do Rio Ganges-Brahmaputra na Baía de Bengala, na Índia. “Entendo que, do ponto de vista humano, especialmente em tempos de conflitos econômicos e guerras, a ideia de negociação, compromisso e cuidado pode soar como utopia, mas, para todos os seres que habitam esse espaço [o estuário], é realidade.” 

A relação, portanto, está dada. João Paulo Quintella, da equipe curatorial do projeto Águas Abertas (que inaugura em 9/8), no Rio Pinheiros, afirma nesta edição que a primeira utopia é uma ilha. Seu ensaio atravessa as variações pelas quais passou o conceito – desde a ideia de um contramundo, no século 16, até a hiper-realidade atual, passando pelos corpos utópicos e as heterotopias de Foucault e o trabalho da artista estadunidense Agnes Denes –, para desembocar no que seria “uma nova utopia aquática” para a cidade de São Paulo. Uma hidrotopia. 

Para Sandra Benites e Anita Ekman, perguntamos qual seria a palavra indígena mais próxima de utopia. A resposta alonga-se na Coluna Móvel, escrita a quatro mãos, Caminhar e Desenhar Utopia. Elas relacionam o conceito à palavra guarani tenonde, que poderia ser traduzida como “futuro inacabável”, em direção ao qual se caminha. “Guata, caminhar, é a própria essência do viver”, escrevem. Em convergência de águas, o texto faz uma curva e traz em epígrafe a frase do cineasta argentino Fernando Birri, pescada do livro Las Palabras Andantes, de Eduardo Galeano: “A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar”.

O caminhar foi o fio condutor do projeto desenvolvido por Ian Uviedo, escritor residente da edição, que ministrou a oficina Escrever o rio. Aos quatro encontros com escritores inscritos na experiência de criação literária gratuita, Uviedo trouxe exuberantes fontes para trocas e discussões. Propôs uma longa caminhada ao longo da margem chuvosa do Pinheiros, que funcionou como disparador literário e confirmou a tese da escritora argentina Magalí Sequera de que “o rio não é somente essencial para o relato, senão o relato mesmo”. Em projeto espelhado, Nina Lins, artista residente, ministrou a oficina Gráfica Fluvial, convidando os participantes a construir cartazes, zines, folhetos e outros materiais gráficos como comentários visuais à experiência da caminhada junto ao rio. Nesta edição da celeste, publicamos exercícios criativos dos 14 participantes da 4ª Residência Arte Celeste, que se propôs um programa público de aquecimento do projeto Águas Abertas. 

Nossa série de guias de rios e córregos canalizados da cidade de São Paulo também ganha uma nova entrada, dedicada ao Córrego das Corujas. O roteiro de caminhada proposto por Yuri Sugai inicia na praça que, descobrimos, tem o nome de uma líder revolucionária comunista na Guerra Civil Espanhola que recebeu a alcunha de uma flor, La Pasionaria, a flor da paixão. É a Praça Dolores Ibárruri (1895-1989), também conhecida como Praça das Corujas.

Metáforas fluviais abundam nos projetos navegados na celeste #6.  Atravessamos deltas, estuários, mananciais, afluentes, desvios, derivas – palavras que nomearam as edições anteriores – para aportar, finalmente, na palavra Travessia, que nomeia a quarta e última edição da celeste dedicada a pensar as relações entre águas urbanas, espaços públicos e clima.

Mas, para não deixar de caminhar, quando Ian Uviedo anota no seu texto Escrever o rio sobre sua percepção de que, às vezes, uma ponte pode não levar a lugar algum, me lembro do mântrico ponto de Exu: 

Rio vai enchendo, vai de monte em monte
O rio vai enchendo, vai de monte em monte
Pra Marabô passar, não precisa ponte
Pra Marabô passar, não precisa ponte 

 

Paula Alzugaray
Diretora de Redação

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