icon-plus
Afro, United States of Africa (2021), de Mansour Ciss Kanakassy. Projeto para o Laboratoire de Déberlinisation [Foto: Cortesia do artista]
Postado em 11/06/2025 - 5:00
Pássaros migratórios: os participantes da 36ª Bienal
Fundação Bienal de São Paulo anuncia lista completa de artistas da 36ª edição que abre em 6 de setembro

Utilizando os fluxos migratórios das aves como guia metodológico, a 36ª Bienal de São Paulo anunciou hoje a lista de artistas integrantes da mostra de arte mais importante do país. Trabalhando sob o ponto de vista dos longos deslocamentos e percursos por ar, terra ou água, a equipe curatorial encabeçada pelo curador-geral Bonaventure Soh Bejeng Ndikung e formada pelos cocuradores Alya Sebti, Anna Roberta Goetz e Thiago de Paula Souza; a cocuradora at large [geral] Keyna Eleison e a consultora de comunicação e estratégia Henriette Gallus, foge das classificações por fronteiras de Estados-nação e adota a fluidez dos rios, corpos d’água e estuários de várias regiões do mundo para pensar as rotas de poéticas dos artistas selecionados.

A identidade migrante desta Bienal começa com o programa de Invocações, que ao longo de um ano abriu ciclos de conversas, palestras, oficinas e performances em quatro cidades: Marrakesh, Guadalupe, Zanzibar e Tóquio. Mas os ventos migratórios da 36ª sopram com força desde Berlim, cidade onde vive e trabalha o curador geral nascido em Camarões e é morada de onze dos 120 artistas selecionados para a mostra Nem Todo Viandante Anda Estradas – Da Humanidade Como Prática. A maioria deles migrante, como a brasileira Aline Baiana, que pesquisa os conflitos entre Norte e Sul global em peças audiovisuais; e o senegales Mansour Ciss Kanakassy, que aborda as temáticas da migração e da diversidade cultural por meio de uma perspectiva pan-africana.

A EXPOGRAFIA DA 36ª BIENAL DE SÃO PAULO EVOCA A NATUREZA FLUIDA E TRANSFORMADORA DOS RIOS. COMO UM CORPO EM MOVIMENTO, QUE ATRAVESSA, CONTORNA E REINVENTA O ESPAÇO, A EXPOSIÇÃO SE CONSTRÓI EM DIÁLOGO COM A IDEIA DE TRAVESSIA
Still de Ouro negro é a gente (2025), de Aline Baiana. [Foto: Cortesia da artista]

Também berlinenses, a artista multidisciplinar Sara Sejin Chang, natural de Busan, Coreia do Sul, investiga as estruturas eurocêntricas de categorização e racialização, refletindo sobre como esses sistemas moldam a sociedade contemporânea. Já Kader Attia explora sua experiência vivida entre duas identidades culturais: argelina e francesa. Em assemblages escultóricas, o artista pesquisa o impacto das estruturas coloniais sobre as subjetividades não-ocidentais. Attia foi curador da 12ª Bienal de Berlim. Dois grandes artistas alemães também ganham destaque: Wolfgang Tillmans, um dos mais inovadores fotógrafos da atualidade, que já teve mostra individual no MAM-SP, e Isa Genzken, uma das artistas contemporâneas mais influentes da Alemanha.

 

Venus Setting Four Days Before Conjunction With the Sun (2025), de Wolfgang Tillmans. Cortesia do artista; David Zwirner, Nova York/Hong Kong; Galerie Buchholz, Berlim/Colônia; Maureen Paley, Londres

 

Aline Baiana, que divide-se entre Berlim e Salvador, participou da 14ª Bienal de Sharjah, mostra que coloca o Oriente Médio no mapa dos fluxos da arte contemporânea. Residente em Sharjah, a artista Kamala Ibrahim Ishag, também nesta Bienal de SP, reflete o cosmopolitismo deste centro urbano do deserto, com sua identidade cultural sudanesa.

Dismemberment, (2024), de Sara Sejin Chang (Sara van der Heide) [Foto: Cortesia da artista]
People (2022), de Kamala Ibrahim Ishag. Cortesia da artista [Foto: Waleed Shah]

CIDADES-PORTOS
Desde São Paulo, um ponto nevrálgico das rotas artísticas do Sul Global, Moisés Patrício inicia uma investigação dos percursos da cerâmica ritual dos terreiros, que estende-se por rotas na China, no mundo árabe, em Portugal e na África. Sua conterrânea, Juliana dos Santos, explora em suas instalações o azul da flor Clitoria Ternatea como experiência sensível e simbólica. E outras figuras ascendentes do cenário nacional, como Rebeca Carapiá e Manauara Clandestina, estão entre os 27 brasileiros da seleção curatorial (além do artista e coletivos selecionados para exibição na Casa do Povo, parte do programa Afluentes), com destaque também para o carioca Maxwell Alexandre, pela primeira vez em uma Bienal. 

 

Apenas depois da chuva (2025), de Rebeca Carapiá. Instalação comissionada, Instituto Inhotim, Brumadinho. Cortesia da artista [Foto: Ícaro Moreno / Instituto Inhotim]
Vale ainda atentar para os artistas que vivem e trabalham fora dos dos grandes “entrepostos” da arte contemporânea global, como a marroquina Laila Hida, natural da grande cidade portuária de Casablanca e baseada em Marrakech. Fundadora do espaço cultural e de residência artística LE 18, Hida usa a fotografia, o arquivo e a produção imagética em suas ficções que comentam a construção da fantasia, do desejo e do imaginário contemporâneo e suas fricções locais.

De Bangkok, o artista multimídia tailandês Korakrit Aruranondchai mistura elementos históricos e religiosos, fluxos comerciais e deslocamentos do pop culture ocidental e tailandesa para comentar o hibridismo cultural, apropriação e ocidentalização, mas também a persistência da identidade cultural. Trabalhando entre a cidade natal e Nova York, sua prática caminha o limiar dos conflitos da globalização e da formação dos sujeitos contemporâneos, mas também os limiares internos de sua própria identidade enquanto artista.

 

Still de produção de Unity for Nostalgia (2025), de Korakrit Arunanondchai. Cortesia do artista; Bangkok CityCity Gallery; Carlos/Ishikawa, Londres; C L E A R I N G, Nova York; Kukje Gallery, Seul
Sem título (2024), de Manauara Clandestina [Foto: Cortesia da artista]
Como terminar uma tese: o tempo da cor (2024), de Juliana dos Santos. Cortesia da artista [Foto: Ana Pigosso]

Alinhando-se à proposta da curadoria de trazer experiências expandidas para além do campo visual, Simnikiwe Buhlungu desenvolve construções multi-linguagem com elementos sonoros, instalativos e textuais. Nascida em Joanesburgo e trabalhando entre a cidade natal e Amsterdã, Buhlungu é uma pesquisadora da linguagem, da emissão de mensagens e das dinâmicas sociais de produção e recepção do conhecimento. 

A artista palestina Noor Abed cria narrativas que fundem filmagem documental e performance, infundindo nas imagens reais as músicas e danças, as histórias e o folclore do povo palestino. Abed vive e trabalha entre sua vila natal, em Jerusalém, o território ocupado de Ramallah, na Cisjordânia, e Amsterdã. Em Ramallah, co-fundou a School of Intrusions, um coletivo educacional independente, e seu filme A Night We Held Between (2024), filmado em território palestino, ganhou primeiro prêmio no e-flux Film Award 2024.

Still de A Night We Held Between (2024), de Noor Abed
[Foto: Cortesia da artista]
A relação entre espaço, território, ocupação e Estado também é evidente no trabalho do grupo de pesquisa Forensic Architecture, com sede no campus Goldsmiths da Universidade de Londres. Formado por arquitetos, cineastas, advogados, programadores, jornalistas e ativistas, o grupo utiliza técnicas do estudo arquitetônico para construir narrativas visuais em que o espaço se torna testemunha da violência estatal ao redor do mundo. Como coletivo que produz arte em campo expandido de atuação social, o Forensic Architecture tem em comum com o Sertão Negro, de Goiânia, uma busca prática por formas de reparação social. Este último, fundado por Dalton Paula e Ceiça Ferreira, é um ateliê-escola atuante em território quilombola, onde tradições afro-diaspóricas de construções ecológicas e agroecologia se encontram com as potências da produção de arte contemporânea.

Cloud Studies (2021), de Forensic Architecture. Vista da instalação no Manchester International Festival, 2021 Cortesia dos artistas [Foto: Michael Pollard]

CIDADES-ESTUÁRIOS

O estuário (onde o rio converge com o mar) é a principal metáfora dos fluxos e encontros da 36ª Bienal. Em entrevista à celeste, publicada originalmente na celeste #6 – Travessia [leia aqui], Bonaventure Soh Bejeng Ndikung afirma: “Todo o projeto curatorial é um convite para que os humanos escutem o mundo ao seu redor, para entenderem o que e quem são. Os humanos tendem a estar voltados para si próprios e, quando levantam a cabeça, parece que só querem extrair dos outros. Mas os humanos são apenas uma pequena parte do mundo e precisam estar em simbiose com os outros seres que compõem o nosso planeta, em vez de viverem de forma parasitária, como é o modus operandi atual”. 

Para refletir sobre o que significa unir a humanidade, a curadoria volta-se para os encontros com outras culturas, em especial, outros seres vivos ou inanimados. “Apesar dos esforços da humanidade para controlar os fluxos das águas e os voos dos pássaros, todas as águas se conectam e os pássaros ainda migram sem passaportes e vistos. Os humanos poderiam ser melhores se aprendessem com os outros seres”, conclui Ndikung no texto de divulgação.

Curso de gravura, Cortesia Sertão Negro Ateliê e Escola de Artes [Foto: Ceiça Ferreira]
Confira a lista de artistas completa:

Pavilhão da Bienal
Adama Delphine Fawundu; Adjani Okpu-Egbe; Aislan Pankararu; Akinbode Akinbiyi; Alain Padeau; Alberto Pitta; Aline Baiana; Amina Agueznay; Ana Raylander Mártis dos Anjos; Andrew Roberts; Antonio Társis; Behjat Sadr; Berenice Olmedo; Bertina Lopes; Camille Turner; Carla Gueye; Cevdet Erek; Chaïbia Talal; Christopher Cozier; Cici Wu; Cynthia Hawkins; Edival Ramosa; Emeka Ogboh; Ernest Cole; Ernest Mancoba; Farid Belkahia; Firelei Báez; Forensic Architecture; Forugh Farrokhzad; Frank Bowling; Frankétienne; Gê Viana; Gervane de Paula; Gōzō Yoshimasu; Hajra Waheed; Hamedine Kane; Hamid Zénati; Hao Jingban; Heitor dos Prazeres; Helena Uambembe; Hessie (Carmen Lydia Đurić); Huguette Caland; I Gusti Ayu Kadek Murniasih (Murni); Imran Mir; Isa Genzken; Joar Nango com a equipe de Girjegumpi; Josèfa Ntjam; Juliana dos Santos; Julianknxx; Kader Attia; Kamala Ibrahim Ishag; Kenzi Shiokava; Korakrit Arunanondchai; Laila Hida; Laure Prouvost; Leiko Ikemura; Leila Alaoui; Leo Asemota; Leonel Vásquez; Lidia Lisbôa; Lynn Hershman Leeson; Madame Zo; Madiha Umar; Malika Agueznay; Manauara Clandestina; Mansour Ciss Kanakassy; Mao Ishikawa; Márcia Falcão; Maria Auxiliadora; María Magdalena Campos-Pons; Marlene Almeida; Maxwell Alexandre; Meriem Bennani; Metta Pracrutti; Michele Ciacciofera; Ming Smith; Minia Biabiany; Moffat Takadiwa; Mohamed Melehi; Moisés Patrício; Myriam Omar Awadi; Myrlande Constant; Nádia Taquary; Nari Ward; Nguyễn Trinh Thi; Noor Abed; Nzante Spee; Olivier Marboeuf; Olu Oguibe; Oscar Murillo; Otobong Nkanga; Pélagie Gbaguidi; Pol Taburet; Precious Okoyomon; Raukura Turei; Raven Chacon com Iggor Cavalera & Laima Leyton; Rebeca Carapiá; Richianny Ratovo; Ruth Ige; Sadikou Oukpedjo; Sallisa Rosa; Sara Sejin Chang (Sara van der Heide); Sérgio Soarez; Sertão Negro; Sharon Hayes; Shuvinai Ashoona; Simnikiwe Buhlungu; Song Dong; Suchitra Mattai; Tanka Fonta; Thania Petersen; Theo Eshetu; Théodore Diouf; Theresah Ankomah; Trương Công Tùng; Tuần Andrew Nguyễn; Vilanismo; Werewere Liking; Wolfgang Tillmans; Zózimo Bulbul.

Casa do Povo
Alexandre Paulikevitch; Boxe Autônomo; Dorothée Munyaneza; Marcelo Evelin; MEXA.