Em 2011, Nino Cais realizou uma série de intervenções em fotografias de um livro sobre a dramaturgia francesa do século 19. Na série Le Theatre, personagens da Comédie Française e de outras companhias que lançaram os paradigmas do teatro moderno têm seus rostos mascarados por protuberâncias ou atravessados por cortes geométricos. Composta de uma seleção de colagens e autorretratos, a mostra Um Cais para Nino Cais, no Paço das Artes, em São Paulo, não expõe nenhuma obra da série Le Theatre. Mesmo assim, revela o quanto a pesquisa de Nino Cais se reporta à tradição teatral.
A exposição é um grato encontro entre a obra em papel de Nino Cais e a pesquisa sobre imagens fotográficas e pós-fotográficas de Tadeu Chiarelli. A princípio, o curador Chiarelli propõe uma leitura da fotografia de Nino Cais a partir dos gêneros tradicionais da pintura: autorretratos, nus, paisagens, naturezas-mortas. Mas logo percebemos que a fotografia de Nino Cais é definitivamente engendrada a partir de operações de apropriação, recorte e colagem. Portanto, é natural que os gêneros propostos por Chiarelli venham a se sobrepor e confundir entre si, produzindo híbridos surpreendentes.
A nova série Mulheres com Pedra (2014), por exemplo, fruto da pesquisa de Cais com minerais para a Bienal da Bahia, é uma colagem entre os gêneros da paisagem (marinhas, campestres, montanhosas), da natureza-morta (detectável nas fotografias de pedras, aqui coladas sobre os corpos femininos), nus e, por que não, até mesmo da performance – certamente não um gênero pictórico, mas um dos mais prolixos discursos da arte contemporânea.
A performance, linguagem artística e também princípio teatral, é sem dúvida uma viga mestra do trabalho de Nino Cais. Especialmente em toda sua pesquisa de autorretrato, aqui representada em imagens escolhidas a dedo das séries Pitoresca Viagem Pitoresca (2011), Viajantes (2012) e Guardas (2013), em que o artista usa uma paisagem para ocultar seu rosto e “plasmar-se” aos elementos de cena.
Se a natureza da fotografia de Cais é a colagem, Tadeu indica que ele evoca os princípios da fotografia quando faz instalação ou escultura. As duas obras tridimensionais da exposição são, na realidade, exercícios primorosos de corte e colagem.
*Crítica publicada originalmente na edição #19