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Guatemala Feminicida II (2021), de Regina José Galindo, com intervenção gráfica de Nina Lins [Foto: Divulgação/ Portas Vilaseca]
Postado em 03/07/2025 - 4:33
Performance Arte e as veias abertas da América Latina
Ao denunciar violências institucionais em suas ações, Regina Galindo transcende a expressão individual e amplia a voz de coletividades marginalizadas

A performance arte ou “arte de ação”, é uma categoria artística híbrida interdisciplinar que borra as fronteiras entre arte e vida, ficção e realidade. Nela, o artista usa o seu corpo como suporte do trabalho e se apresenta não como um personagem, mas como uma persona agindo em situações extraordinárias que não são teatro, embora possam ser cênicas. Nas ações performáticas não há dramaturgia nem um enredo linear, geralmente não são ensaiadas e nem fazem uso de efeitos especiais que simulem verdades. Uma performance, ainda que seja meticulosamente planejada, é sempre vulnerável ao acaso, ao risco do imprevisível que ronda a própria existência. Ela expande limites da lógica, tempo, espaço e do corpo do performer, e por isso altera também a relação entre os espectadores e a obra ao vivo.

As primeiras ações que definiriam a performance nas artes visuais são atribuídas a eventos modernistas do início do século passado ligados ao construtivismo, futurismo e o Dada, na Europa. A partir dos anos 1950, ocorre uma verdadeira revolução perceptiva e conceitual no campo estético, e a performance como linguagem experimental começa a ganhar novas possibilidades e mais espaço. Artistas europeus como Yves Klein e Piero Manzoni, estadunidenses como Allan Kaprow e John Cage, ou o Grupo Gutai, do Japão, desafiavam o establishment das artes com suas práticas que extrapolavam a mera criação de objetos. E, nas décadas de 1960-70, a performance começa finalmente a se institucionalizar disseminando-se pelo mundo. 

Na América Latina, por sua vez, a lista de precursores inclui Flávio de Carvalho e Hélio Oiticica, ou os argentinos Graciela Carnevale e Alberto Greco, entre outros. Tal como os colegas do norte, as ações destes artistas questionavam noções tradicionais de obra e de espaços artísticos, mas com um importante diferencial: a experimentação e o discurso iam além de questionamentos do sistema e as regras da arte ocidentais para abranger reflexões sobre problemáticas sociais de seus países. 

As ações performáticas oferecem experiências impactantes em propostas que podem ter baixo custo, funcionando como veículos de crítica institucional e política, e denúncia de legados violentos historicamente arraigados. Pela sua capacidade de gerar ações de impacto estético e reflexivo com relativa simplicidade, a performance arte se prolifera na América Latina com originalidade para driblar a eterna precariedade de nossos meios culturais ora sucateados, ora elitistas. Na busca por contundência e comunicação direta com o público, muitas proposições artísticas, ainda, se confundem com ativismo político. 

La Sangre Del Cerdo V (2017), de Regina José Galindo [Foto: Divulgação/ Portas Vilaseca]

Esse é o caso de Regina José Galindo (Ciudad de Guatemala, 1974), um dos principais nomes da performance arte política, atualmente com uma exposição individual na galeria Portas Vilaseca, Rio de Janeiro, sob a minha curadoria. Em vinte e cinco anos de atividade, a artista participou de grandes mostras internacionais como a Documenta 14 e a Bienal de Veneza em quatro edições, levando o Leão de Ouro na 51a edição como melhor artista jovem, em 2005, aos 22 anos de idade. Sua obra, identificada como radical, tem inspiração nas proposições de mulheres como a cubana americana Ana Mendieta ou a brasileira Laura Lima.

A obra de Regina parte de um posicionamento feminista e anti-colonial para denunciar problemáticas históricas violentas como a de seu país, a Guatemala, imerso por 36 anos na maior guerra civil da América Latina. O conflito armado entre forças de um estado golpista e guerrilhas paramilitares de oposição se estendeu de 1960 a 1996, deixando mais de 200 mil mortos e desaparecidos, sendo a maioria indígenas da etnia maia, e configurou o mais extenso genocídio contemporâneo nas Américas. Galindo, movida inicialmente pelo desejo de chamar a atenção para essa realidade brutal, propõe ações envolvendo resistência física e risco pessoal que levam à reflexão de problemáticas sociais mais amplas e internacionais. Seu corpo miúdo colocado em situações de vulnerabilidade extrema, é como um gesto de crítica da própria ideia de civilidade contida nas narrativas oficiais da história da arte ocidental e da modernidade. 

 

Primavera Democrática (2025), de Regina José Gallindo [Foto: Divulgação/ Portas Vilaseca]
A performer lida com fatos reais em ambientes culturais ou não, para criar imagens inquietantes que causam de empatia a repulsa, de indignação a aflição. Ao denunciar violências institucionais em suas ações, Regina transcende a expressão individual e amplia a voz de coletividades marginalizadas. Contudo, gosta de lembrar de que ela não é uma ativista política e sim uma artista, pois no espaço da arte está segura de ameaças de morte, por exemplo, ao contrário daqueles que atuam na luta diária por diferentes causas.

A arte da performance apresenta situações no seio do real em detrimento da noção de representação, e permite que um artista fale do mundo para além do uso de objetos inanimados. A dimensão ritual de atos ao vivo estimula todos os sentidos, e faz do público comungador e testemunha. No trabalho de Regina José Galindo, o artístico é pulsão de criação visceral urgente, entrelaçada com causas sociais. Enquanto inequidades e injustiças continuarem a existir, uma obra como a sua permanecerá necessária, inspirando novas gerações a acreditarem na arte performática como um instrumento poético de mobilização e transformação social. 

A ARTE DA PERFORMANCE APRESENTA SITUAÇÕES NO SEIO DO REAL EM DETRIMENTO DA NOÇÃO DE REPRESENTAÇÃO, E PERMITE QUE UM ARTISTA FALE DO MUNDO PARA ALÉM DO USO DE OBJETOS INANIMADOS

Serviço
Primavera Democrática, de Regina José Galindo
Até 26/7/2025
Portas Vilaseca (Rua Dona Mariana, 137, casa 2 – Botafogo, Rio de Janeiro)
Terça a sexta, das 11h às 19h; sábados, das 11h às 17h