DE NOVA YORK
A exposição de Cory Arcangel no Whitney Museum of American Art, Pro Tools, tem aguçado o paladar da crítica especializada sobre o tema da arte digital. Cory é um dos poucos artistas contemporâneos que quebraram a barreira da arte-além-da-margem (como parece ser considerada a arte digital hoje) para ocupar um andar inteiro da renomada instituição norte-americana.
“Houve um aumento no interesse, mas acredito que ainda seja muito pequeno. Eu diria, sim, que a exposição de Cory é um marco. Mas muitas peças estão impressas, gravadas em vídeo ou são esculturas. Apenas duas são videogames. Ou seja, a exposição ainda é muito tradicional para as possibilidades da arte digital”, aponta Christiane Paul, curadora-adjunta para novas mídias do museu.
Os trabalhos de Arcangel têm evidenciado os anseios e as ansiedades de uma sociedade já nascida entre máquinas e redes. Em Super Mario Clouds (2004) – vídeo feito a partir da modificação de um velho jogo da série Mario Brothers, da qual ele apagou tudo, menos as nuvens – ele demonstrava o quanto uma geração inteira estava imersa em um mundo 8 bits. No seu trabalho mais recente, Various Self Playing Bowling Games (a.k.a. Beat the Champ), em exposição no Whitney, exemplifica o tipo de relacionamento frustrado que existe entre nós e os dispositivos midiáticos.
Arcangel destaca-se por trazer à tona os reais sentimentos de uma pessoa diante de um mundo mediado pela tecnologia. Nesta exposição, apresenta trabalhos que contribuem para a dissolução da ideia de que há uma distinção entre o humano e a máquina.
A sequência Palms (2011), por exemplo, na qual o artista desenha uma palmeira em um computador e imprime três versões por meio de uma plotadora de caneta, choca por quebrar a barreira entre o que é a criação do artista e a produção de uma máquina, entre o que é realizado por uma mão orgânica e os movimentos de coordenadas precisas. Quando Arcangel modifica cartuchos de videogames para que todas as bolas de um jogo de boliche caiam na canaleta, ou em um de golfe em que nunca se acerta o buraco, mostra a ligação que existe entre os movimentos do corpo ao jogar e a representação dele no mundo virtual.
Se no real fazemos o que parece ser o mais certo para chegar ao objetivo, quando vemos a não resposta do virtual, caímos na frustração que essa relação irreal tem como base. O físico está fora do virtual. E essa frustração precisa ser trabalhada para que se veja a tecnologia com outros conceitos e olhares. O museu Whitney abriu-se às referências contemporâneas e ao pop. Isso fica patente na obra Since U Been Gone, de Arcangel, que explora as fontes de inspiração desse primeiro grande sucesso da cantora Kelly Clarkson, vencedora da primeira edição do American Idol.
Silenciosa, a obra apenas disponibiliza os CDs das músicas que teriam inspirado Clarkson. Em todos os momentos há pessoas fotografando, gravando vídeos ou falando pelos celulares no recinto expositivo. Não é a primeira vez que o Whitney permite que se fotografem ou se filmem as obras, mas é a primeira em que foi disponibilizada conexão à internet sem fio e instalado um amplificador de sinal do celular para que o público capture e transmita imagens das obras para suas redes pessoais. “Seria uma grande ironia se a exposição de Cory Arcangel, que está inserida na cultura da internet e do software livre, não pudesse fotografar ou captar imagens. Seria um absurdo”, contextualiza Christiane Paul. Realmente seria.
*Publicado originalmente na #select01