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Fogo Cruzado (Foto: Divulgação)
Postado em 24/04/2023 - 4:30
QUE VANTAGEM O BRANCO LEVA NAS ARTES?
Uma das viradas que o meio cultural testemunha em anos recentes diz respeito à racialização do debate na arte, com pautas identitárias dominando as esferas da produção e da pesquisa; daí a pergunta que intitula a seção, sobre os privilégios que sustentam o predomínio da branquitude na arte

Racializar o debate da arte brasileira é urgente. Isto afirmo eu, mulher branca de classe média, jornalista com pós-graduação, portanto, cercada dos privilégios da branquitude. Mas não o afirmo sozinha, falo juntamente com pensadoras como Cida Bento (Pactos Narcísicos no Racismo, 2002; O Pacto da Branquitude, 2022), Djamila Ribeiro (O Que É Lugar de Fala?, 2017), e Denise Ferreira da Silva (Homo Modernus: Para Uma Ideia Global de Raça, 2022), entre inúmeras autoras do feminismo negro que poderia citar – e seria uma longa lista –, cuja obra venho descobrindo ao longo do meu processo de letramento racial. O principal ponto de inflexão dessa pedagogia ocorreu, para mim, no curso sobre privilégio branco ministrado pela escritora Tatiana Nascimento (que recomendo vivamente), a que pude me dedicar no período de privilegiado isolamento social por causa da pandemia. Logo em seguida, li Branquitude: Estudos Sobre a Identidade Branca no Brasil, coletânea organizada por Tânia Mara Pedroso Müller e Lourenço Cardoso para a Appris Editora, em 2017. Da introdução deste livro retiro uma explicação objetiva da questão: Aimé Césaire define negritude como “a consciência de ser negro”, identificação que leva uma pessoa a assumir sua negritude, sua história e sua cultura.

Como procedem as pessoas brancas na identificação de sua branquitude, sua história e sua cultura? “Um silêncio sobre a branquitude e as suas vantagens foi mantido por muito tempo diante do discurso sobre a negritude e a identidade negra”, escrevem os organizadores. Ou seja, enquanto o movimento negro se mobilizava em lutas antirracistas por meio do “conceito da negritude como plataforma política”, os brancos, prosseguem Müller e Cardoso, “não precisavam gritar e proclamar sua branquitude, pois o tigre não precisa proclamar sua ‘tigretude’; ele apenas ataca silenciosamente quando sua sobrevivência o exige. São os outros, oprimidos negros, mulheres e homossexuais que precisam gritar e proclamar sua identidade”.

Em nome da desoutrização, conceito do curador camaronês Bonaventure Ndikung, é dever de todes racializar a branquitude, desmitificar sua história e sua cultura, para ser entendida não mais como a narrativa hegemônica, mas como o que de fato é: uma narrativa que se embasou na invenção da ideia de raça para subjugar todas as pessoas não brancas. Ou bem, branco é raça tanto quanto negro ou amarelo, ou não avançaremos nas pautas sobre diversidade e pertencimento, justiça social e cultural. O Fogo Cruzado: que vantagem o branco leva nas artes? é a primeira matéria de uma série em que seLecT_ceLesTe vai trabalhar ao longo de 2023 para debater as questões raciais no âmbito da arte brasileira. Para a seção, em que vários entrevistados respondem a uma única pergunta, convidamos 45 pessoas (em sua maioria brancas) da cadeia produtiva das artes – artistas, curadores, galeristas. Pela primeira vez, desde que a seção Fogo Cruzado foi lançada, em 2013 (seLecT #10), tivemos um número mais expressivo de nãos do que de sins. Aos oito entrevistades a seguir, nosso muito obrigado pela coragem de encarar um tema delicado e urgente. Em tempo, caso a leitora esteja se perguntando, sim, convidamos também artistas e curadores negros para responder à enquete. Declinaram com elegância. Acontece que pensadores negros produzem conhecimento sobre a branquitude no Brasil há, no mínimo, 20 anos (todos os livros acima citados são assinados por autores negros), enquanto nós, brancos, mal começamos. Entendo que os nossos convidados tenham outras pautas mais urgentes nas quais se deter que não esta. A urgência de que falo na primeira linha deste texto, enfatizo, é branca.

(Colaboraram Luana Rosiello, Eloisa Almeida e Paula Alzugaray)

ÉLLE DE BERNARDINI
ARTISTA

Todas! A arte de pessoas brancas sempre foi mais difundida e discutida que a arte de pessoas não brancas, pois os brancos são vistos como
sujeitos universais e não precisam afirmar sua identidade por meio da arte. Desse modo, a arte negou espaços aos negros, pois, a meu ver,
entendia que somente os brancos é que falavam de um ponto de vista universal, o que é uma falácia, uma vez que vivemos em um país colonizado, e o discurso universal é privilégio eurocêntrico. De modo que a produção artística dos negros é vista como uma manifestação sem relevância universal dentro do sistema das artes que se pauta na continuidade da própria história da arte e não na afirmação de identidades. A arte de artistas negros não visa, no primeiro momento, romper cânones, mas expor sua realidade e história próprias e, desse modo, historicamente ela é colocada na caixinha das representações identitárias e não na continuidade da história da arte.

Os brancos não precisam se afirmar como brancos, e podem falar sobre o que quiserem. Já os negros, pessoas trans e mulheres, precisam antes afirmar a legitimidade de suas vidas, e isso aparece em suas produções artísticas. O mercado está interessado em tendências e assuntos, não em afirmar identidades. E a própria história da arte quer a continuação de si mesma, de modo que toda a arte identitária recebe menos atenção, pois, segundo alguns, ela está preocupada com a vida do artista, não com a representação do mundo. O que é uma grande falácia que precisa ser mais bem discutida.

Élle de Bernardini (Foto: Divulgação)

CAUÊ ALVES
CURADOR

De saída, o artista branco já conta com o privilégio de ser branco, beneficiando-se do racismo estrutural. Ou seja, de não ser exterminado
quando jovem na mesma proporção que os negros. Estatisticamente, o branco sai na frente porque não precisa, na mesma proporção que o
negro, trabalhar enquanto estuda e porque possui maior acesso a boas escolas. Na sociedade brasileira em geral, há poucos negros em posição de poder e no campo da arte isso não é diferente.

Cauê Alver (Foto: Divulgação)

GUSTAVO VON HA
ARTISTA

O artista branco pode ser formalista, conceitual, pode ser o que quiser sem precisar racializar o trabalho, especialmente no Brasil, onde essas questões ainda estão longe de ser resolvidas. Acredito que este seja um dos pontos de inflexão que precisam ser transformados nas artes, pois o pacto da branquitude permanece intacto nesse sistema. Nesse sentido, vale olhar com atenção para a coleção de Pamela J. Joyner e Alfred J. Giuffrida, que acumulou o que é indiscutivelmente a maior coleção mundial de obras abstratas de artistas pretos. São centenas de obras, abrangendo quatro gerações. Jack Whitten fez pinturas com rodo na década de 1970 – pelo menos uma década antes de Gerhard Richter. Apenas para citar um exemplo dessa coleção. Desde a década de 1940, os artistas afro-americanos fazem abstração transformacional. Por que não aparecem em destaque nos livros de história da arte mundial?

Gustavo von Ha (Foto: Divulgação)

FABIO MORAIS
ARTISTA

A arte lida com códigos estéticos e históricos vindos da cultura branca do Norte global, e isso estabelece uma vantagem epistemológica
branca que apaga outras epistemes. Já sobre vantagens individuais, elas apoiam-se no racismo estrutural. Historicamente, ser branco é condição “natural” – aspas pontuando a violência da naturalização – para ser autor-artista com voz pública ou um agente que promova a
circulação de vozes (curadoria, crítica, academia, imprensa, instituições, mercado etc.). Na metáfora da corrida na qual brancos largam
metros à frente de não brancos, creio que a questão de classe se funde com a racial, agravando-a. Parte da produção em arte é operada
por um mercado de luxo para o 1%, por um circuito cujo modelo espetacular de exposições gera altos custos para instituições e artistas, ou por uma academia onde as classes média e alta predominam. Isso tudo circunscreve arte em um campo econômico e profissional elitizado, no qual, “naturalmente”, o branco leva vantagem racial potencializada pela de classe, já que as camadas médias e altas da pirâmide
social brasileira são majoritariamente brancas. Mesmo questionada por debates e políticas antirracistas e de reparação, a predominância
branca no circuito de arte ainda é um fato.

Fabio Morais (Foto: Divulgação)

BRUNO DUNLEY
ARTISTA E FUNDADOR DA JOULES & JOULES

As vantagens de pessoas brancas nas artes visuais configuram-se em um concentrado de problemas estruturais da formação histórica, racial, social, econômica e política da sociedade brasileira. Heranças da desumanização de corpos pretos e indígenas realizada pela escravidão brasileira, essas questões se manifestam de forma subjetiva e cultural em toda a sociedade, mas, no caso das artes visuais, se materializam de forma acentuada e peculiar, devido à alta concentração dos meios de formação, produção, difusão e destino dos trabalhos nas mãos de uma elite econômica, institucional e mercadológica majoritariamente branca.

Essa parcela minúscula da sociedade, desacreditada em relação ao papel do Estado e com dificuldades para compreender a importância de um projeto cultural de país que perpassa fundamentalmente a articulação e elaboração de políticas públicas estruturais, amplas e saudáveis do ponto de vista econômico, simbólico e psicossocial, realiza uma espécie de sequestro cultural e econômico que não é visto em
nenhuma outra área artística nacional, como música, literatura, cinema e teatro, por exemplo.

Os efeitos colaterais dessas concentrações e dessa visão política e mercadológica apequenada só fazem aprofundar uma cultura classista, racista e de pensamento colonizado que se orgulha por criar distinções sociais através de atitudes de admiração tóxicas e excludentes. Isso também é visível entre os artistas quando acreditam egocentricamente em manifestações de genialidade, excentricidade e outras bobagens; e diante da ausência de institucionalidades e mercados mais amplos, passam mais tempo disputando entre si de forma velada espaços,
relações e recursos do que se unindo e articulando, com outros agentes culturais e mercadológicos, maneiras de fazer propostas para vereadores e deputados de fortalecer e potencializar políticas culturais e fiscais mais amplas e efetivas para as artes visuais e o mercado de arte. Não se ocupar com essas questões é um dos maiores privilégios da pessoa branca nas artes.

Isso tem se transformado positivamente, mas não sem as lutas históricas das populações não brancas. Luta que também precisa ser branca, mas sem a ganância do protagonismo que nos guiou até o presente momento e sem a ignorância e estupidez da exacerbada e inconsciente autoconfiança branca. Por isso, acredito que só há um caminho: o conflituoso e constante exercício de cada pessoa se entender como cidadão brasileiro e do mundo e constantes articulações e elaborações coletivas de políticas. O ar ainda é público, mas respirar não pode ser privilégio de poucos.

Bruno Dunley (Foto: Divulgação)

HENRIQUE OLIVEIRA
ARTISTA

Numa das primeiras vezes que visitei o MoMA, conheci o trabalho de Martin Puryear. Durante muitos anos acompanhei sua produção,
presumindo, ainda que inconscientemente, que ele fosse branco, até que um dia vi uma foto do artista. Isso revelou um preconceito estrutural arraigado em mim e também me levou a pensar que nas artes plásticas existe esse fato – a obra não necessariamente revela como é o artista. Vantagem ou desvantagem?

Eu poderia responder à pergunta de ambos os pontos de vista. Se, no Brasil, eu sou indiscutivelmente branco, o mesmo não posso afirmar morando em Londres. Acho que mais do que uma questão de vantagem, o conceito de arte no Ocidente moderno nasceu na Europa com a ascensão da burguesia. Para fazer arte é preciso antes de mais nada tempo, algo que a classe trabalhadora não tem, e as diferenças de classes também refletem, sobretudo no Brasil, predomínios de grupos raciais. O que estamos vendo hoje é um processo de incluir outras formas de pensar a arte e as culturas que vêm de fora desse eixo etnogeográfico e social.

Se, por um lado, isso reflete um amadurecimento de sociedades que há apenas 150 anos escravizavam africanos, por outro, também não deixa de refletir a lógica dessa constante busca por novidades que funda o nosso conceito moderno de arte. Por isso espero que estas ondas de inclusão sejam um arauto de mudanças definitivas, não apenas mais uma moda, como muitas que vêm e vão no mundo da arte.

Henrique Oliveira (Foto: Divulgação)

JOÃO FERNANDES
DIRETOR ARTÍSTICO DO INSTITUTO MOREIRA SALLES

Importa, em primeiro lugar, questionar aquilo que chamamos de arte. A arte não é uma realidade universal, ao contrário do que é um pensamento dominante. Existem e sempre existiram sociedades que não têm nem nunca tiveram tal palavra, ou qualquer outra correlata, para denominar tudo quanto associamos a esse termo, nas línguas em que ele existe ou encontra tradução. Num planeta em que estamos cada vez mais conscientes das violências da história e do presente, que nos trouxeram a um estado que ameaça a nossa própria sobrevivência, assim como a sobrevivência dos mundos que habitamos, é também hoje imperioso interrogar a “arte”, tal como interrogar o mundo, a partir da consciência de uma racialização da sua “história” ou histórias, assim como de suas práticas, ideias, sistemas de poder e de legitimação, economias, mercados, colecionismos e instituições, públicos, agentes e profissionais que revelam esse mundo como tão injusto e desigual. A arte, a que comumente nos referimos, tem sido um conceito “branco”, criado, narrado e gerido por pessoas brancas, no contexto de processos históricos nos quais a branquitude sempre procurou ser dominante, declarando-os como “universais” para mais eficazmente ampliar suas formas de dominação. A pergunta “Que vantagem o branco leva na arte?” não deixa de ser também uma pergunta
“branca”. As pessoas negras sabem bem reconhecer as vantagens de que as pessoas brancas se beneficiam só por serem brancas, nas artes como em várias outras atividades. São as pessoas brancas que não têm consciência dessas vantagens, por as terem naturalizado em suas experiências de vida, por as terem camuflado em sistemas de mérito que merecem todas as suspeitas e dúvidas, quando se caracterizam por sua natureza excludente. As pessoas negras ou indígenas que trabalham com artes têm uma consciência bem nítida de como são poucas aquelas entre elas que são reconhecidas e legitimadas enquanto artistas, galeristas, produtoras de reflexão crítica, proprietárias de coleções ou profissionais em instituições ou na miríade de profissões que a industrialização das artes tem gerado. Por outro lado, tal questão se revela igualmente uma “questão branca” ao presumir um sistema de vantagens e desvantagens numa realidade que não interroga a partir de tudo quanto poderia tornar possíveis numerosas outras interrogações, se tivermos em devida conta a pluralidade e a diversidade das artes e de suas intersecções, equivalentes a uma pluralidade e diversidade de culturas cada vez mais reconhecíveis em suas identidades e diferenças. No entanto, mesmo não considerando a diversidade das práticas artísticas, a pergunta formulada interroga as condições que os seres humanos possam ter para protagonizarem tais práticas, assim como para coexistirem numa igualdade de direitos e possibilidades nos sistemas de visibilidade e de legitimação que as originam ou que delas se apropriam. Com todas as ressalvas explicitadas, trata-se de uma questão relevante, quando dirigida a pessoas brancas, sobretudo porque as confronta com o muito que há por fazer para que as artes não sejam também um jogo de inclusões e exclusões em que o fator racial seja determinante. A consciência da desigualdade nos sistemas artísticos, que sempre foram caracterizáveis por regras de inclusão e de exclusão pouco transparentes, cresceu significativamente a partir da evidência da violência extrema que o racismo ainda perpetua no mundo contemporâneo. Não é por acaso que os museus, coleções e feiras de arte nos Estados Unidos e um pouco por todo o mundo só abriram decisivamente as suas coleções e hierarquias nas suas equipes a partir do assassinato ignominioso de George Floyd… Talvez mais urgente do que interrogar que vantagem leva o branco num sistema que a branquitude criou para usufruir das vantagens desse sistema, mais subversivo do que questionar as vantagens do branco num “mundo da arte” criado à imagem e semelhança da sua branquitude, seja questionar os próprios sistemas das artes nos modos como criam e estruturam suas realidades. E fazê-lo a partir de outros olhares, de outras culturas, de outros sistemas. Sobretudo num país como o Brasil, um território em que o anjo da história de Walter Benjamin pode voar juntamente com as presenças da sankofa africana, com os xapiris da floresta, um local onde existem, resistem e se desenvolvem ancestralidades nas culturas indígenas e afrodescendentes que poderão ser tão revolucionárias para o que chamamos “artes” quanto o foi a apropriação de outras
culturas pelos “artistas de vanguarda” brancos, para assim se libertarem de uma história da arte ainda marcada pelas questões da mimese ou da perspectiva que tinham estruturado e colonizado um mundo em que se sentiam dissonantes, apesar de também serem exemplos dele. Seria tempo de interrogar também as desvantagens que o branco leva na arte, quando pouco aprendeu num país onde tais presenças permanecem tão vivas… Claro que para isso serão sempre cruciais o reconhecimento e o acesso, em todos os processos artísticos e culturais, das numerosas pessoas que da condição de sujeitos de suas próprias culturas foram no passado e ainda são no presente excluídas dos poderes de decisão que a todas, todos e todes dizem respeito, nas universidades, nas instituições, nos mercados, na mídia, em todos os lugares de vida e de trabalho onde essa discussão possa acontecer, como nesta revista que em boa hora se lembrou de formular uma pergunta que pode levar a muitas mais, porque necessita se juntar a muitas outras interrogações que reúnam pessoas negras, indígenas, brancas, asiáticas, pessoas de todos os gêneros e de todas as orientações sexuais existentes, em conversas urgentes e necessárias sobre as suas identidades e diferenças nas suas culturas e práticas artísticas. Para todas as pessoas brancas que vivem e trabalham nos sistemas das artes e da cultura é hoje fundamental reconhecer o privilégio que a sua branquitude, o seu gênero ou a sua orientação sexual lhes possam ter conferido para fazer o que fazem, de modo a adicionar a isso que fazem algo de fundamental para que esse privilégio encontre o seu fim, abrindo espaço para muitas outras pessoas que poderiam estar ali no lugar delas, mas que foram excluídas de tal possibilidade nas suas vidas pela cor de sua pele, por sua situação econômica, por seu gênero ou por sua orientação sexual. Se aquilo que chamamos de arte e cultura sempre foi espelho dos sistemas de poder dominantes, nas suas ilógicas lógicas de inclusão e exclusão, forçoso é hoje que as artes e as culturas se emancipem desse passado e desse presente, reconheçam que não podem ser mais reflexos de suas injustiças, para que viver igual e livremente possa finalmente ser a referência em vez do que levar vantagem ou desvantagem nos distintos modos desse viver.

João Fernandes (Foto: Divulgação)

TADEU CHIARELLI
CURADOR

Circunscrevendo a situação ao Brasil, o privilégio (do) branco na arte é o privilégio (do) branco em todas as outras áreas da sociedade. Ser branco no país, de saída, é ter mais que meio caminho andado para se fazer qualquer coisa – e sem que nenhum policial corra atrás de você! Ser asiático, também. Talvez menos do que ser branco, porém, mais do que suficiente para também se dar bem: durante os 38 anos em que dei aulas na USP, a esmagadora maioria de meus estudantes era de euro-descendentes ou de origem asiática. O número de estudantes pretos durante todos aqueles anos não chegou a uma dúzia. Isso diz tudo – ou, pelo menos, muita coisa – sobre a questão.

Tadeu Chiarelli (Foto: Divulgação)

THAIS RIVITTI
CURADORA E DIRETORA DO ATELIÊ 397

Entendo a pergunta de vocês como um convite a pensarmos sobre o privilégio branco no campo das artes. Mais do que vantagens, termo que designa algo discernível e enumerável, o privilégio branco atua num lugar que é mais difícil nomear. Na esfera da percepção daquilo que é sentido, daquilo que é esperado. É, sem dúvida, necessário reconhecê-lo de saída. Nesse sentido, dou alguns exemplos dentre outros tantos: meu corpo, mesmo fora dos padrões, não causa estranhamento em ambientes de arte, ao contrário do que acontece com alguns colegas racializados que imediatamente são percebidos e destacados como diferentes. Não se espera que eu, como curadora, fale de um tema ou questão específica em meus projetos de arte, enquanto, em relação a curadores pretos, há sempre uma expectativa de que tragam para o debate a perspectiva racial: enquanto eu sou vista como “uma curadora”, minhas colegas são “curadoras negras”. Na relação com instituições e demais agentes que eventualmente me contratam, a minha impressão é de que há uma relação mais clara de prestação de serviço, baseada nas competências e demandas de cada parte. Já colegas pretos se deparam, algumas vezes, com uma expectativa de gratidão pela oportunidade por parte de seus empregadores. Muitas vezes isso vem juntamente com o fato de que suas presenças nas equipes e nos projetos são simbolicamente trabalhadas pelas pessoas e instituições contratantes como a referendar certa imagem de combate ao racismo, algo que muitas vezes não se realiza na prática cotidiana desses trabalhos.

Dito isso, tenho me perguntado sobre como colocar essas questões todas, que são amplamente sentidas, mas parcamente reconhecidas, em debate hoje. Um dos pontos passa por tentar entender se posso, devo ou tenho legitimidade para contribuir com esse debate. Se sim, como acredito, pois a meu ver a batalha pela igualdade tem de ser de todos, em que posição ou a partir de que contexto posso me colocar. São perguntas em aberto. Neste enorme processo de educação racial que estamos vivenciando (quer reconheçamos ou não, ele está aí), me pergunto, voltando ao início desta conversa, sobre as peculiaridades do campo da arte. É um campo marcado por um elitismo inegável, mas também aberto a questionamentos e revisões constantes. Um lugar onde a concentração de renda, tão definidora de nosso país, se expressa a todo momento. De um lado, o grande capital tão importante para a cultura e, de outro, a precarização dos trabalhadores da área que atingiu níveis altíssimos nos últimos anos. As desigualdades na arte são brutais e muitas vezes sinto que posso fazer muito pouco. Mas aposto bastante no trabalho coletivo e colaborativo e em sua capacidade de mobilizar essas questões maiores e alcançar mais pessoas. Há um processo que recoloca no presente a discussão sobre a igualdade e é preciso dizer claramente de que lado estamos.

Thais Rivitti (Foto: Divulgação)