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João Côrtes, Julia Lund, Igor Fortunato em Eddy – Violência e Metamorfose
Postado em 28/08/2025 - 2:53
Sobre a produção da violência
Em peça baseada nos escritos de Édouard Louis, uma questão estrutural opera como fio condutor na investigação de um acontecimento traumático

Eddy – Violência e Metamorfose, com direção e dramaturgia de Luiz Felipe Reis e Marcelo Grabowsky, condensa diferentes escritos de Édouard Louis, autor francês que foi destaque absoluto na Flip de 2024. A peça coloca em cena o combate do autor pela elucidação de histórias pessoais e experiências vividas, que é também a sua estratégia literária de contenção da violência entendida como uma “corrente elétrica, ciclo onde não há violentadores e violentados”.

Há uma questão estrutural sobre a produção da violência que opera como fio condutor na investigação de um acontecimento: como e por que o encontro sexual entre dois homens tem como desfecho uma tentativa de homicídio? Tal encontro é reencenado gesto por gesto na busca do protagonista por apreender as armadilhas que conduziram a tal desenlace. Os personagens da irmã e do policial intervêm na cena como interlocutores externos ao acontecimento, mas também como figuras cujos papéis sociais são concernidos pelo ocorrido, como revela a própria démarche do autor. A mediação da escrita do teatro propicia um mergulho no vivido do qual torna-se possível distanciar. 

Nesse caminho, o personagem Édouard formula hipóteses sociopsíquicas sobre a violência que age em seu algoz, na radicalidade da postura compreensiva do amante e autor, que não é movido pela condenação. Desejo, morte, racismo, xenofobia, humilhação… heranças familiares dos homens nascidos em contextos sociopolíticos distintos se entrelaçam na cena sexual. 

Quanto a Édouard Louis, a experiência traumática o conduz de volta à sua origem: ele vai ao encontro da sua família, na cidade onde nasceu. A tragédia se realiza quando o protagonista, buscando escapar da violência social e familiar, foi ao seu encontro em uma noite de Natal em Paris. Como Édipo, que, ao fugir do seu destino, o realiza. Para Louis, a violência não está contida no corpo da vítima ou do algoz, ela os circula e os atravessa. A dramaturgia delicada e analítica coloca em cena esta complexidade social ao fazer de um mesmo ator diferentes personagens — a irmã, a policial inquisidora que investiga o crime é também a enfermeira que acolhe e cuida da vítima depois do estupro na noite de Natal. O personagem que o violenta é o policial investigador racista e xenófobo e, em outra cena, o seu cunhado. Ambos permanecem em cena e agem a partir dos diferentes lugares que ocupam na relação com Édouard. É assim que a peça, ao mesmo tempo que é fiel às análises sociológicas do autor, introduz a dimensão psíquica dos emaranhados da vida, a complexidade dos afetos, as ambivalências que marcam os laços familiares, amorosos, sexuais. 

Deste modo é explicitada a maneira como a violência atravessa a construção de vínculos e afetos: ao se reproduzir na cena social e ao se repetir na cena inconsciente, constituindo esta corrente elétrica que atravessa os corpos, que a psicanálise chama de pulsão.  

Na última cena, Édouard aceita a mão estendida pela sua irmã, uma brecha em um gesto que inaugura uma nova possibilidade. Uma nova volta às origens, entre ruptura e continuidade. “A viagem de ida se realiza depois do seu retorno.” A reparação da violência não muda o que foi vivido, mas pode mudar a forma como ela habita e age em cada um de nós. O que não é teatralização de si, mas construção de si. 

 

SERVIÇO
Eddy – Violência e Metamorfose
Em cartaz até dia 31 de agosto
Teatro Poeira – R. São João Batista, 104, Rio de Janeiro